segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Impacto da Figura Paterna no Desenvolvimento Emocional e da Personalidade dos Filhos

O Impacto da Figura Paterna no Desenvolvimento Emocional e da Personalidade dos Filhos
Autor:  Diele da Silva Santos | Publicado na Edição de:  Junho de 2017

Resumo: Para que uma criança possa se desenvolver física e psicologicamente de maneira saudável, além de um ambiente propício, a presença e atuação da família se tornam indispensáveis. Não existe forma de falar sobre figura paterna sem relacionar todos os membros da família, pai e mãe são e sempre serão distintos, mas a função de um complementa a do outro. O presente artigo busca compreender qual a real importância da figura paterna e qual seu impacto no desenvolvimento emocional e de personalidade de um indivíduo, por meio de entrevista com 22 participantes, divididos igualmente em dois grupos caracterizados pela presença ou ausência paterna durante seu desenvolvimento. Também, foi aplicado aos mesmos o teste psicológico Bateria Fatorial de Personalidade de Nunes, Hutz e Nunes (2010), para verificar as características da personalidade dos participantes, dentro do modelo dos Cinco Grandes Fatores. Percebeu-se como as diferentes configurações familiares irão impactar emocionalmente no desenvolvimento dos filhos, possibilitando o surgimento de algumas características como baixa autoestima, insegurança e dependência, assim como relacionamentos sociais fragilizados. Ainda, compreende-se que a separação dos pais não necessariamente precise ser sinônimo de ausência paterna, já que muitas vezes a convivência entre pais e filhos melhora após o divórcio.
Palavras-chaves: Desenvolvimento. Personalidade. Figura paterna.
1. Introdução
O desenvolvimento emocional da criança, assim como o desenvolvimento de sua personalidade, diante da presença ou falta de um pai é o tema principal desta pesquisa, pois sabe-se que para que uma criança possa se desenvolver física e psicologicamente de maneira saudável, ela precisará da ajuda de um indivíduo mais experiente que a instrua em suas necessidades, sejam elas das mais básicas até suas necessidades superiores.
 Para isso, os pais entram com o papel principal nesta etapa. Para Bee e Boyd (2011, p. 309), o “desenvolvimento da habilidade de interação é essencial para a formação de um primeiro vinculo, é a oportunidade para o pai e o bebê desenvolverem um padrão mútuo e entrelaçado de comportamentos de apego”. As autoras afirmam também que deve haver uma sincronia entre os pais e os filhos, mas o que acontece com essas crianças quando não se tem uma figura paterna para lhes guiar e orientar, ou quando são rejeitadas por seus pais? De acordo com o indicado por Bee e Boyd (2011, p.323) “após repetidas tentativas de obter aceitação de seus pares, crianças desistem e tornam-se socialmente retraídas.” Esta constatação nos instiga a investigar alguns aspectos da realidade dessas crianças.
Estes são alguns aspectos do funcionamento infantil que geram problemas de comportamento e emocionais que podem perdurar ao longo da adolescência e até mesmo durante a vida adulta. Crianças que passam por conflitos familiares têm a probabilidade de ter o desenvolvimento de sua personalidade comprometida, conforme Maciel e Rosemburg (2006, p.100), que “uma criança pequena, que possui um aparelho psíquico ainda em desenvolvimento, circunstâncias persistentes de extrema frustração e estresse podem afetar mais marcadamente a constituição de sua personalidade.” Portanto, a presença paterna mostra-se fundamental tanto quanto a figura materna para um bom equilíbrio emocional.
Atualmente vemos em nossa sociedade novas e variadas configurações familiares, afastando-se do modelo tradicional familiar, constituído por pai, mãe e filhos, sendo cada vez mais comum surgirem famílias constituídas e organizadas sem a presença da figura paterna no dia-a-dia dos filhos. Deste modo, torna-se de fundamental importância identificar qual o impacto que a presença (ou ausência) paterna tem sobre o desenvolvimento emocional e da personalidade dos filhos.
Para tanto, nesta pesquisa busca-se refletir sobre este impacto usando como objetivos específicos, investigar a percepção dos filhos frente à separação dos pais; verificar qual o impacto da ausência paterna no desenvolvimento emocional dos filhos em idade adulta; bem como pesquisar qual a influência da ausência paterna na constituição da personalidade dos filhos.
2. Fundamentação Teórica
2.1 Desenvolvimento Humano
O estudo do desenvolvimento humano concentra-se no esforço de compreender o homem em todos os seus aspectos, desde o nascimento até a fase adulta da maturidade e estabilidade. Para Mota (2005, p.106) “o desenvolvimento humano envolve o estudo de variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas em todo o ciclo da vida.”
Muitas teorias surgiram para ajudar a reconstituir as condições de representação de mundo. Influências como hereditariedade, ambiente e maturação são interesses de pesquisadores sobre o desenvolvimento, como citado por Papalia, Olds e Feldman (2010, p.14):
Os estudiosos do desenvolvimento estão interessados em processos universais de desenvolvimento, que são vivenciados por todos os seres humanos. Também se interessam por influências normativas vivenciadas de modo semelhante pela maioria das pessoas de um grupo. Finalmente, aqueles que estudam o desenvolvimento querem saber sobre as diferenças individuais, tantos suas influências sobre o desenvolvimento quanto sua consequência.
Dentre as teorias que mais tem destaque na área do desenvolvimento humano está a teoria dos estágios cognitivos de Piaget, o qual realizou uma série de pesquisas visando descrever e compreender diversos aspectos do desenvolvimento infantil; a de Eric Erikson e Freud com a teoria psicossexual. A teoria de Eric Erikson alega que “o ser humano passa por oito estágios evolutivos caracterizados de eventos biológicos, psicológicos e sociais universalmente experimentados” e a de Freud postula que os impulsos inconscientes é que controlam o comportamento. (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010, p.30).
Acredita-se que o desenvolvimento infantil pode ocorre em estágios ou então de forma contínua.  Papalia, Olds e Feldman (2010, p.30) afirmam que “para os teóricos mecanicistas, o desenvolvimento é continuo, como andar e escalar uma rampa”. Alguns autores acreditam em mudança, sendo que o desenvolvimento da criança aconteceria em uma série de diferentes etapas. Em cada uma delas, as pessoas aprendem a lidar com diferentes tipos de problemas, bem como desenvolvem diferentes habilidades.
2.2 Família
Para um crescimento e desenvolvimento saudável do filho, a presença e atuação da família em suas vidas mostra-se indispensável. Quando pensamos na socialização da criança, a mesma “inicia e tem seu fundamento na família, cresce através da interação com os companheiros, se desenvolve e cria corpo na escola, continua a se expandir na adolescência e juventude, para culminar na vida adulta” (BRAGHIROLLI et al. 2007, p.156).
O papel do pai diante da criação dos filhos mudou muito ao longo do tempo devido às transformações sociais, culturais e familiares. Aquele rótulo posto de que um pai deveria ser alguém autoritário, que tinha o papel apenas de trazer dinheiro para casa e cuidar de tarefas mais difíceis já não se encaixa nos padrões vivenciado hoje. Eles participam mais de tarefas familiares enquanto a mulher constrói seu espaço no mercado de trabalho, mas não são todos que conseguem associar tais mudanças.
O número de separação nos tempos modernos está muito alto e os pais precisam entrar em acordo para educar os filhos de um modo adequado para que o mesmo não seja prejudicado ou para que não sofra tanto. Para se fornecer uma boa educação aos filhos, os pais devem possuir um misto de qualidades, em momentos específicos serem rígidos, autoritários e outros serem mais permissivos, pois conforme citado por Feldman (2007, p. 348):
[...] rígidos e punidores, os pais autoritários valorizam a obediência sem questionamento de seus filhos. Possuem padrões estritos e desincentivam manifestações de desacordo. Os pais permissivos dão a seus filhos orientação indulgente ou inconsciente e, embora carinhosos, exigem pouco deles. Por outro lado, os pais disciplinadores são firmes, determinam limites para seus filhos.
2.2.1 Figura Paterna
Na fase que se refere ao período pré-operatório de Jean Piaget surgem os sentimentos interindividuais, onde a criança passa a respeitar indivíduos que julgam ser superiores a ela. A figura paterna na infância é tão importante quanto a presença da mãe. A forma como eles interagem com seus filhos poderá fazer a diferença quando elas se tornarem adultas, conforme citado:
Quando os pais interagem com seus filhos, a atuação deles difere muitas vezes daquela das mães. Os pais participam de brincadeiras mais físicas, de “agressividade”, ao passo que as mães participam de jogos mais verbais e tradicionais, como o jogo de esconde-esconde. Apesar dessas diferenças comportamentais, a natureza do vínculo entre pais e filhos em comparação àquele entre mães e filhos pode ser similar. Na realidade, as crianças podem formar vínculos múltiplos simultaneamente. (FELDMAN, 2007, p. 347).
As brincadeiras mais agressivas podem moldar a personalidade da criança, que precisa de uma figura masculina para se “espelhar”, entender como os homens se comportam, o que uma mãe não consegue passar para o seu filho. Winnicott (1979, p. 203) cita:
[...] As crianças avançam e recuam em sua idade emocional. É grande a distância entre o bebê recém-nascido e a criança de cinco anos, em termos de personalidade e crescimento emocional. Essa distância não pode ser coberta se determinadas condições não forem preenchidas. Essas condições só precisam ser suficientemente boas, dado que a inteligência da criança se torna cada vez mais apta para ter em conta a possibilidade de fracassos e para dominar a frustração mediante uma prévia preparação.
Ter um pai presente na família é fundamental, pois ele é “necessário para dar à mãe apoio moral, ser um esteio para a sua autoridade, um ser humano que sustenta a lei e a ordem que a mãe implanta na vida da criança” (WINNICOTT, 1979, p.56). É no Complexo de Édipo, postulado por Freud, que os sentimentos de amor e ódio são despertados para aqueles que lhes são mais próximos, os pais. A relação da criança com o pai durante este período é apenas de identificação, o criança vê a mãe como um objeto de desejo e passa a ver o pai como um obstáculo. A criança cria a ideia de ocupar seu lugar junto à mãe, mas o pai a atrapalha no processo. O complexo de Édipo positivo da criança se caracteriza por uma atitude em relação ao pai e por uma relação objetal afetuosa com a mãe – o objeto desde cedo seria a amamentação. (MIRANDA, 2015, s/p).              
2.3 Personalidade
Personalidade é o conjunto das características marcantes de uma pessoa; o pensar, sentir e agir. São todos os traços formados a partir dos genes particulares que herdamos, das situações que vivenciamos e das percepções individuais e únicas que temos. Características estas relativamente persistentes que dão consistência ao comportamento das pessoas, que pode ter influência genética em sua constituição, bem como ambiental, uma reforçando a outra (DAL-FARRA; PRATES, 2004).
Saber que a genética pode influenciar os comportamentos do ser humano muda a visão das pessoas sobre questões simples do cotidiano. O lugar onde o indivíduo vive pode colaborar na formação de determinada personalidade, assim como sua religião, os valores e educação que recebe bem como os ambientes nos quais convive diariamente fará com que a pessoa introduza para si determinados recursos. Conforme afirmam Dal-Farra e Prates (2004), as principais características da personalidade estabelecem-se na infância, isto é, as experiências, essencialmente no meio familiar, são decisivas para o desenvolvimento da personalidade.
Dentre tantas teorias sobre a personalidade, existe o modelo dos Cinco Grandes Fatores que propõe que diferentes traços de personalidade se agrupam em cinco fatores principais: Extroversão (sinaliza a forma como a pessoa interage com os demais e o quanto é comunicativa), Socialização (indica qualidade das relações interpessoais dos indivíduos), Realização (descreve o grau de organização, persistência, controle e motivação das pessoas), Neuroticismo (fornece o nível de ajustamento e instabilidade emocional do sujeito) e Abertura a Experiências (se refere aos comportamentos exploratórios e ao reconhecimento da importância de se ter novas experiências). (NUNES; HUTZ; NUNES, 2010).
3. Método
Para a realização deste trabalho, utilizou-se o método qualitativo. A pesquisa qualitativa é uma tentativa de buscar “explicar, apontar para um sentido da realidade, do fenômeno ou do processo estudado”, sugerindo-se que conforme a ação vai sendo construída, ela já pode ser interpretada (PINTO, 2004, p. 74).
Para tanto, na coleta de dados, realizou-se três encontros com os participantes, que totalizaram vinte e duas pessoas. No primeiro encontro, foi utilizada uma entrevista semiestruturada com onze jovens adultos, todos matriculados em algum curso superior, que puderam contar com a presença paterna durante o seu desenvolvimento, bem como com outros onze jovens adultos, todos inscritos em algum curso superior, que não puderam contar com a presença paterna em seu desenvolvimento. Todos os participantes possuíam entre 17 e 33 anos de idade, entre homens e mulheres, sendo que foram selecionados por conveniência. Após o contato inicial, os mesmos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que apresentava informações a respeito deste estudo e garantia o sigilo e preservação de suas identidades, aceitando participar do mesmo. Todas as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. Já no segundo encontro, aplicou-se o instrumento psicológico de avaliação da personalidade, Bateria Fatorial de Personalidade (BFP), desenvolvido por Carlos Henrique Sancineto da Silva Nunes, Cláudio Simon Hutz e Mariana Farias Oliveira Nunes (2010), de maneira coletiva, sendo que a correção dos mesmos foi realizada individualmente, assim como a entrevista devolutiva dos resultados, no terceiro encontro.
Utilizando-se da análise de conteúdo para analisar os resultados desta pesquisa, seguiu-se os estudos de Bardin (2009, p.31), que indicou que “a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de análise das comunicações”, sendo que esta pode ser explorada na amplitude de suas possibilidades. A autora afirma ainda que estas técnicas de análise de conteúdo estão aptas a interpretarem qualquer forma de comunicação, considerando que a mesma pode ser considerada uma análise dos significantes presentes na comunicação (no caso desta pesquisa, a comunicação realizada nas entrevistas e durante a aplicação do teste).
4. Apresentação e Discussão dos Resultados
Para a apresentação dos dados, optou-se em utilizar nomes fictícios, escolhidos pelos próprios participantes desta pesquisa, para que suas identidades fossem preservadas. Os jovens que tiveram a presença dos pais em seu desenvolvimento são: Robson, Laiane, Julia, Sofia, Camila, Sara, Luana, Jonas, Alice, Bianca e Júnior. Já os entrevistados que não contaram com a presença dos pais em seu crescimento foram: Laura, Diego, Laís, Murilo, Luci, Alex, Igor, Alissa, André, Ana e Ayla.
A seguir apresentamos os resultados da aplicação do teste Bateria Fatorial de Personalidade (BFP) realizado pelos participantes, assim como seus significados principais, referente às características da personalidade, de acordo com a teoria dos Cinco Grandes Fatores. Os itens expostos abaixo são aqueles que se distanciaram dos resultados referenciados utilizados pelo teste.
PRESENÇA PATERNA
Fator
Classificação
Significado
N1 - Vulnerabilidade
Muito Alto
Pode representar baixa autoestima significativa e grande medo de que pessoas importantes a deixe em decorrência de seus erros. Com frequência, é capaz de ter atitudes que vão contra a sua vontade, com o objetivo de agradar os outros. Relata insegurança, muita dependência das pessoas próximas e muita dificuldade em tomar decisões, mesmo em situações triviais do dia a dia.
N2 – Instabilidade
Médio e Alto
Médio: indica um padrão comportamental dentro da média no que se refere a como cada pessoa se percebe irritável e nervosa, apresentando poucas variações de humor em determinadas situações.
Alto: tendência de agir impulsivamente frente a algum desconforto psicológico e, pode levar a pessoa a tomar algumas decisões de forma precipitada. Indivíduos com esse perfil geralmente alternam de humor com mais facilidade, apresentando baixa tolerância à frustração.
S1 – Amabilidade
Baixo e Médio
Baixo: sugere pessoas com tendência a serem mais autocentradas e pouco sensíveis às necessidades dos outros. Costuma se preocupar menos com o bem-estar das pessoas, podendo ser um pouco inconveniente ao tratar de assuntos delicados.
Médio: indica um padrão comportamental dentro da média no que se refere a quão atenciosa, compreensiva e empática a pessoa procura ser com as demais. Além disso, indica quão agradável a pessoa buscam ser com os outros, observando suas opiniões, sendo educadas com elas e se importando com suas necessidades.
S2 – Pró-sociabilidade
Baixo
Indica uma pessoa com tendência a se envolver em situações de risco, discordando de algumas leis e regras sociais. Geralmente tem facilidade para manipular os outros, obtendo deles o que deseja. Pode ser um pouco hostil.

AUSÊNCIA PATERNA

Fator
Classificação
Significado
N4 - Depressão
Alto
Podem indicar baixa autoestima e algum medo de que pessoas importantes venham a deixa-los em decorrência dos seus erros. Podem mostrar-se capazes de atitudes que vão contra a sua vontade, com o objetivo de agradar os outros. Tendem a relatar insegurança, dependência de pessoas próximas e certa dificuldade ao tomar algumas decisões, mesmo em situações triviais do dia a dia.
E4 – Interações Sociais
Médio e Muito Baixo
Médio: indica um padrão comportamental dentro da média no que se refere ao desejo e à necessidade por interações sociais, indicando o quanto as pessoas buscam ativamente situações que permitam tais interações, como festas, atividades em grupo, etc.
Muito Baixo: geralmente prefere ficar sozinho ou em grupos pequenos e demora mais para desenvolver novas relações sociais. Tende a apresentar uma necessidade reduzida de viver situações mais intensas, de frequentar lugares mais ricos em termos de estímulos e possibilidades de contatos sociais.
S1 – Amabilidade
Baixo
Sugere pessoas com tendência a ser mais autocentrada e pouco sensível às necessidades dos outros.  Costuma se preocupar menos com o bem-estar das pessoas, podendo ser um pouco inconvenientes ao tratar de assuntos delicados.
4.1 Configurações Familiares
O conceito de casal e de casamento foi mudando no decorrer da história e novas formas de configurações familiares foram surgindo. Mesmo diante de tais mudanças é importante que se tenha um ambiente estruturado, pois, um ambiente desestruturado pode impedir o desenvolvimento de um sujeito a encontrar seu potencial, causando prejuízos futuros devido aos acontecimentos do passado. Scherer (2009, p.139) elenca os fatores ambientais que “incluem os desajustes familiares, a negligência, os abusos físico, emocional e sexual, a pobreza extrema, a educação de má qualidade, a falta de vínculos significativos e a história familiar de transtorno psiquiátrico”, fatores estes que influenciam na constituição das famílias. Pode ser observado esse ambiente desestruturado em alguns relatos dos participantes:
“A gente já vinha sofrendo com as brigas constantes do meu pai e da minha mãe e por qualquer motivo, a gente já sentia que algo ia acontecer” (Laura).
“O pai não tinha paciência, se ele tinha se estressado com alguma coisa ele descontava em nós né?!” (Murilo).
“Nenhum dos sete dias ele tava em casa, ele não tirava férias, feriado, até porque a firma de (...) é dele entendeu, e ai sábado e domingo ele não tava igual, era como se fosse uma segunda - feira um domingo. Era difícil”(Igor).
Além deste contexto conturbado vivenciado pelos participantes, a separação pode ser um fator de extremo estresse para todos que constituem a família, mas principalmente para os filhos quando são omitidos de qualquer explicação. Stein (2014, p. 08) afirma que o divórcio dos pais interfere psicologicamente no desenvolvimento humano, contudo, “o sofrimento da criança ou adolescente não é visto como prioritário, e muitas vezes, acaba sendo negado”. De acordo com os relatos dos participantes, este momento delicado da família foi tratado apenas pelos adultos, sendo deixados de lado, sem uma conversa clara e esclarecedora, o que pode contribuir para os altos índices do fator Depressão, analisado no teste aplicado, onde indica o forte medo de que pessoas importantes os abandonem em decorrência dos seus erros, justamente pela falta de explicação no momento devido. Este fato pode ser ilustrado pelas falas a seguir:
“Simplesmente um dia eu acordei de manhã cedo, eu não estudava, era pequenininha, não lembro minha idade bem certo, mas meu pai saiu, me deu um abraço e daquele dia em diante minha avó disse que meu pai e minha mãe tinham se separado e aquilo não ficou bem claro assim pra mim, porque eu imaginava que ele iria voltar alguma hora, como se ele tivesse saído pra trabalhar, alguma coisa” (Alissa).
“Sempre fui uma criança muito confiante, extrovertida, pois tinha muito apoio em casa. Aí um dia isso tudo acabou. De repente me vi sozinha, perdida e confusa. De uma hora para a outra eu não tinha mais uma família. Foi uma época que me marcou demais” (Ayla).
Chalita (2001, p.20) afirma que “a família tem a responsabilidade de formar o caráter, de educar para os desafios da vida, de perpetuar valores éticos e morais”, sendo nela que se observam os primeiros convívios e experiências, a construção do ser, constituindo-se o lugar onde o sujeito tem capacidade de alcançar a sua maturidade emocional. Portanto, a família deve ser um lugar de confiança, onde se possibilite a existência do diálogo entre seus membros. De acordo com o depoimento da participante Laura, podemos ver o quanto a falta da presença de seu pai no seu crescimento, afetou inclusive outros relacionamentos, o que pode colaborar para os índices muito baixos no fator Interação Sociais analisados pela Bateria Fatorial de Personalidade, que indica uma demora maior para desenvolver novas relações sociais. Também, conforme a colaboração de Diego, percebemos o quanto a falta de contato com a figura paterna impacta na própria relação agora estabelecida com este pai.
Muitos dos meus comportamentos que hoje eu tenho, alguns receios pode ser disso, que eu tenho alguns medos ainda, em relacionamentos, em questão do meu pai também (...) A gente tem muita coisa que não foi resolvida ainda, apesar de ter se passado mais de praticamente 10 anos, até hoje a gente não se mantém contato, a gente conversa, mas não é... não é contato de pai e filho.” (Laura)
“Eu culpo ele por muitas coisas, considero ele como um tio, tio bem distante. Nunca nos falamos, quando ele vem pra cá é como se nada tivesse acontecido, entendeu? Queria falar muitas coisas, mas não, não tenho oportunidade (...).” (Diego)
Já a participante Sofia nos ofereceu o contraponto de que ser pai nunca foi uma tarefa fácil, ao mesmo tempo em que se tem o papel de demostrar segurança, amparo, atenção e afago, também deve ser a representação da regra, estabelecer princípios e limites. Este se mostra como um dos maiores desafios dos pais e responsáveis: possibilitar o entendimento de seus filhos da necessidade do cuidado. Contudo, pode também ser um fator que contribui para os altos índices no fator Vulnerabilidade, que indica a insegurança e dependência das pessoas próximas, demonstrando uma grande dificuldade em tomar algumas decisões, já que possivelmente foram acostumadas a ter alguém que fizesse isso por elas.
“Minha educação sempre foi muito rígida, regrada. Cresci com pais querendo me proteger o tempo todo, até do que era positivo, como uma viagem da escola, por exemplo.” (Sofia).
Marinoff (2005) nos alerta que o amor deve ser passado, mas não em demasia, uma quantidade grande demais de uma coisa boa também faz mal para a formação do ser humano, como ser supervalorizado, amado e querido, pois é na família que devemos encontrar os primeiros obstáculos da vida, onde somos preparados para situações em que nem sempre seremos agraciados com a realização de nossos desejos. Alguns participantes relataram o que essa figura paterna representa para suas vidas:
“Representa segurança, proteção, a lei, com certeza também o afeto” (Luana).
 “Foi muito importante essa figura, essa figura masculina na minha vida assim pra, pra desenvolver as potencialidades, as capacidades que, que eu levo hoje, os valores que sempre muito cedo minha família (...)” (Jonas).
“Ele sempre buscou tá perto da gente, tá sempre presente, sempre dando conselhos para ser alguém na vida, pra seguir a vida como uma pessoa honesta. Sempre era esse o lema dele e eu tenho ele como um espelho hoje” (Bianca).
“Meu pai esteve presente em toda minha vida, desde que planejou em ter filhos, esteve presente nos momentos difíceis e nos momentos ruins, sempre fala que devemos ter respeito com o próximo”(Laiane).
“No começo ele não estava presente, depois ele teve um papel bem importante, né? (...). Por mais que ele tenha sido um exemplo nessa questão de se esforçar pelo que tu quer, ele não foi um exemplo de pai que tenho pra mim. (Camila)
 “Ele é presente né, mesmo estando distante ele é um pai presente. Eu sinto que ele se importa e tal e é isso, só que eu gostaria de ter ele junto comigo.” (André.)
 “O meu pai pra mim é o meu herói, eles foram lá me criaram, me educaram, me deram amor, comida, roupa, educação, então, eu tenho orgulho, tenho admiração” (Júnior).
4.2 Impacto Emocional
Goleman (2007, p.213) afirma que todas as interações realizadas entre pais e filhos irá conter algum “tema emocional, e com a repetição dessas mensagens através dos anos, as crianças formam o núcleo de sua perspectiva e aptidões emocionais.” Ajudar em um dever de casa ou em situações em que a criança tem necessidade, acompanhar o dia-a-dia do filho, participar dos momentos de lazer, todos estes contatos passam a se constituir em um padrão entre a criança e os pais, moldando a expectativa emocional da criança a respeito de relacionamentos, perspectivas que irão caracterizar o comportamento dela em todas as áreas da vida. Também, estas influências podem contribuir para os índices baixos no fator Amabilidade da BFP, que sugere uma tendência dos participantes serem mais autocentrados e pouco sensíveis às necessidades dos outros, conforme podemos perceber na fala de Robson:
“Eu me remeto a poucas lembranças boas, foco mais nas ruins, e isso infelizmente me faz ser quem sou hoje. Entendeu? Esse olhar um pouco mais cético, a ausência de empatia, uma dificuldade muito grande pra isso, eu posso até sentir o que os outros sentem, entende? Mas eu olho tudo com maior frieza, e ai tu vê, reflete em enes situações né? Inclusive nos relacionamentos que constitui, comumente não são muito longos”.
Para Oaklander (1980, p. 290), “a criança (ou adulto) que sente a necessidade de apegar-se fisicamente aos outros, possui um senso tão vago de si própria que se sente bem apenas quando pode fundir-se com outra pessoa.” A autora assegura ainda que, para a criança, estar separada do outro é um conceito estranho que causa medo, pois não tem sua identidade totalmente formada, ainda.  Esta necessidade da presença do outro, bem como da baixa autoestima, vem ao encontro do que já afirmamos sobre os fatores analisados Depressão e Vulnerabilidade.
“Sou muito insegura em minhas decisões e dependente no sentido de ter alguém passando a mão na cabeça o tempo todo, alguém para dividir comigo as responsabilidades das minhas escolhas.” (Sofia)
“Sei lá... mais tímida ainda sabe, de não se desenvolver assim, né? Não saia e ficava sempre em casa.”(Lucy)
“Eu acredito que em relação a minha personalidade, que influenciou muito [...]Tu sente falta de um carinho, de um abraço masculino ou tipo assim ‘ah, eu vou com a minha filha, vou pegar na mão da minha filha, vou em tal lugar, vou levar fazer isso e aquilo’”(Laís).
Hoje a gente perdeu esse contato, não sei se foi porque eu comecei a namorar, não sei, mas a gente assim dificilmente tem aquele contato de abraço” (Julia).
“O processo de separação e a falta dessa figura influenciou muito, sou insegurança, desconfiada, indiferente e insensível, em muitas ocasiões não deixo transparecer, mas eu sei o que sinto e porque...” (Ana).
Se a saída do pai for traumatizante, os filhos podem sentir-se abandonados, o que no futuro poderá levar à perda de confiança nas pessoas e dificultar futuros relacionamentos afetivos, como também pode ser visto nos resultados da análise dos fatores Depressão, Vulnerabilidade e Interações Sociais, do teste aplicado nos participantes. Para Bauman (2004, p. 18), “no caso da morte, o aprendizado se restringe de fato à experiência de outras pessoas.” O autor comenta ainda que a morte assim como o nascimento acontece somente uma vez e não se deve esperar por uma próxima oportunidade que não existirá para fazer o certo. Percebemos no relato de Alice como a perda de seu pai, há aproximadamente dois anos, ainda está impactando emocionalmente no dia-a-dia familiar:
A gente não percebe que tem essas coisas até que não tem mais. Agora a gente briga pra tentar manter esses dias assim legais, mas é muito difícil.”
Quando pensamos sobre ser pai, sabemos que isso não quer dizer que não haverá falhas, nesse processo aparecerão muitos obstáculos, aqueles que estiveram presentes e contribuíram para a formação e educação são vistos como espelhos, mas todos já foram filhos e sabem onde seus pais erraram e o que mais valorizaram. Em relação às expectativas quanto ao futuro, muitos buscam não seguir os passos do pai quando passam por situações de aperto em sua nova família para que a relação não chegue a discrepâncias com danos permanentes:
“Pode-se dizer que o que eu levo de bom do meu pai é os erros que ele fez pra eu tentar não imitar ele, basicamente é isso” (Alex).
“Eu não, não, não sigo ele de exemplo, sabe? [...] tudo o que eu vi de erro do meu pai, os exageros dele, eu procuro não fazer hoje com meu filho” (Murilo).
Podemos notar que, apesar de suas vivências (ou por causa delas), os participantes desta pesquisa têm uma visão de buscar fazer diferente daquilo que vivenciaram, têm uma abertura maior, aprenderam com aquilo que passaram a serem pessoas resilientes.
5. Considerações Finais
É possível, com os resultados desta pesquisa, compreender o quão importante é o sentimento, o afeto de um pai para com seu filho e a importância para a criação e desenvolvimento da personalidade. Através dos relatos dos participantes, mostrou-se claro que presença não é sinônimo de convivência, pois dependendo muito de como será a relação do sujeito com seu pai, em algumas situações será como se não o tivesse. Assim como, não é porque os pais estão separados que a figura paterna deixa de existir na vida dos filhos, ou pelo menos não deveria ser assim. Muitos dos participantes conseguiram manter um contato com seus pais, mesmo após o divórcio, o que colaborou para que sua personalidade não sofresse um impacto tão grande com a mudança na constituição familiar.
As famílias hoje estão mais ligadas a uma estrutura familiar socioeconômica do que efetivamente de instrução familiar, instrução para que o sujeito repense suas atitudes. O que se vê é a luta para oferecer condições melhores que àquelas que os próprios pais não tiveram, aos seus filhos. Diante disso, parece-nos que a ideia que se tem atualmente é que para tornar a vida o mais confortável possível, não se pode mais ter tempo para se dedicar integralmente a família, uma instituição que exige dedicação integral para que os filhos não cresçam tendo dificuldades emocionais. Portanto, ao buscarem melhores condições financeiras, os pais não conseguem fazer-se presente na vida de seus filhos.
A separação dos pais é um evento que sempre deixará marcas nas pessoas envolvidas neste processo, porém há separações que deixam os filhos mais próximos de seus pais, mesmo estando separados fisicamente, com a convivência existindo e a relação se tornando melhor do que era antes, desde que bem trabalhada e orientada para todos os membros desta família.
Através das experiências vivenciadas, que não podem mais ser reconstituídas ou modificadas, nossa essência vai continuar sempre sendo moldada, assim como nossa personalidade que constantemente está sendo influenciada por tudo aquilo que nos acontece. Cabe à família possibilitar com que essas experiências se tornem emocionalmente seguras para seus membros, procurando orientação e auxílio profissional quando percebe ser necessário, evitando assim o surgimento de tantos sofrimentos psicológicos desnecessários, causados, na maioria das vezes, pela falta de uma boa e franca conversa elucidativa.
Sobre o Autor:
Diele da Silva Santos - Acadêmica do curso de graduação em Psicologia. Bolsista do Programa de Iniciação Científica da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), campus aproximado de Pinhalzinho.


Referências:

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BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
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BRAGHIROLLI, Elaine Maria et al. Psicologia Geral. Porto Alegre: Vozes, 2007.
CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. São Paulo: Editora Gente, 2004.
DAL-FARRA, Rossano André; PRATES, Emerson Juliano. A psicologia face aos novos progressos da genética humana. Psicologia Ciência E Profissão, v. 1, n. 24, p. 94-107, 2004.
ELDMAN, Robert S. Introdução à psicologia. São Paulo: McGrawhill, 2007.
MACIEL, Rubens de Aguiar; ROSEMBURG, Coronélio Pedroso. A relação mãe-bebê e a estrutura da personalidade. Saúde e Sociedade, v.15, n.2, p.96-112, mai-ago, 2006.
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MIRANDA, Alex de. Uma breve compreensão sobre o complexo de Édipo. Disponível em: < https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/uma-breve-compreensao-sobre-o-complexo-de-edipo>. Acesso em: 15 abr. 2015.
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NUNES, Carlos da Silva; HUTZ, Claudio; NUNES, Maiana Oliveira. Bateria Fatorial de Personalidade: manual técnico. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.
OAKLANDER, Violet. Descobrindo crianças: a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo: Summus, 1980.
PAPALIA, Diane E; OLDS, Sally Wendkos; FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento humano. Porto Alegre: AMGH, 2010.
PINTO, Elizabeth. A pesquisa qualitativa em psicologia clínica. Psicologia USP, v. 15, n. 1/2, p. 71-80, 2004.
STEIN, Danieli. Divórcio dos pais interfere psicologicamente no desenvolvimento humano. 2014. Trabalho de Conclusão de Curso; (Graduação em Psicologia) - Universidade do Oeste de Santa Catarina, São Miguel do Oeste, 2014.
WINNICOTT, W. A criança e seu mundo. Harmondsworth, Inglaterra: Penguin Books Ltd., 1979.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

EDUCAÇÃO EM ANGOLA – ANTES, DURANTE E DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA

EDUCAÇÃO EM ANGOLA – ANTES, DURANTE E DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA

Introdução
O tema que aqui apresentamos, versa sobre a educação em angola antesdurante depois da independência. Ao abordarmos a problemática da educação em Angola, quer partindo duma perspectiva histórica quer analisando-a duma perspectiva sociológica, sentimo-nos quase “obrigados” a determo-nos no período colonial por ser o marco de referência no surgimento do ensino em Angola, assim como em muitos outros países do continente africano, durante a presença colonial europeia, uma vez que, a educação desenvolvida pelos africanos antes da presença colonial, ‘pem várias regiões de África, baseava-se num quadro não formal.
Grande parte desta educação era adquirida pelos pais através do exemplo e do comportamento dos membros mais velhos da sociedade. Em circunstâncias normais ela emerge naturalmente, eleva-se do ambiente social.
No quadro desta observação, facilmente se constata que a educação não formal foi utilizada durante muitos anos na África pré-colonial como um sistema de ensino ligado ao modo de vida das populações para a sua sobrevivência.
Retomando a educação como nosso campo de análise, gostaríamos de afirmar que o trabalho que aqui apresentamos, abordará de uma maneira resumida a educação nos períodos antes, durante e depois da independência bem como abordaremos a educação nos nossos dias.

1.    Os Primórdios do Ensino em Angola
O ensino escolar teve início em Angola nos séculos XVI e XVII, portanto muito antes do actual território constituir uma unidade. No decorrer da sua presença no Reino do Kongo, os padres católicos presentes na corte de M’Banza Kongo empenharam-se em divulgar não apenas o cristianismo, mas também a língua portuguesa e a correspondente escrita, bem como rudimentos de matemática.
Depois da fundação das Praças Fortes de Luanda e de Benguela, estabeleceram-se lá algumas escolas de nível básico, inicialmente apenas para filhos dos colonos brancos, inclusive alguns que tiveram com mulheres africanas, depois também para um pequeno número de crianças africanas. Nesta fase, as escolas não constituíam um sistema de ensino e nem sequer tinham estruturas muito definidas.
A situação mudou no decorrer do século XIX, quando Portugal passou a ocupar lentamente o território correspondente ao da Angola de hoje e, paralelamente à acção militar, e muitas vezes a precedê-la, houve uma acção missionária cada vez mais extensa, tanto católica como protestante. Os missionários ligavam sempre a cristianização a uma escolarização mais ou menos desenvolvida. Esta começou, inclusive, a abranger a população africana urbanizada que se aglomerava em Luanda e Benguela bem como nas vilas que se foram fundando passo a passo.
·         Angola – A educação antes da independência
Antes da ocupação e da expansão colonial em África no geral e em Angola em particular, já se praticava a educação, baseada num quadro não formal. Grande parte desta educação era adquirida pelos pais através do exemplo e do comportamento dos membros mais velhos da sociedade. Em circunstâncias normais ela emerge naturalmente, eleva-se do ambiente.
É só nos lembrarmos em referências históricas que, quando a primeira delegação chefiada por Diogo Cão em 1482 chegou a foz do rio Zaire, encontraram um povo administrativamente organizado, com um rei, uma capital (Mbanza Congo), uma população superior a 100 mil habitantes e com uma economia baseada na agricultura. Todos este factos históricos demostram o quanto esta população era educada; assim sendo, apesar de este povo não ter o domínio da escrita na altura, é de uma certa maneira egoísta pensar-se que o povo que abitava Angola não praticava a educação. Também não corresponde a uma verdade histórica afirmar que a educação nesta parte do continente começou com o processo colonial. (VIEIRA, 2007: 32).
·         Surgimento do ensino oficial em Angola
Referências históricas afirmam que, durante vários séculos da colonização portuguesa, o ensino esteve sob a responsabilidade das Missões religiosas, sendo o ensino laico muito reduzido e praticado por algumas instituições não oficiais» (VIEIRA, 2007: 43). Segundo este autor, apesar da existência do ensino oficial na Província de Angola, a situação da maioria da população africana em nada se alterou, pois um grande número continuava sem escolarização, uma vez que (o decreto de 1845 de Joaquim Falcão, procurou dar satisfação às exigências das populações civilizadas) beneficiando assim a maioria da população colonizadora.
Alguns dados apontam que o ensino missionário não era praticado apenas pelas Missões Católicas, pois com o passar do tempo instalaram-se também no território angolano, algumas Missões Protestantes[1] que contribuíram para o ensino das primeiras letras às populações autóctones.
Até os primeiros anos do século XIX, a educação laica em Angola era ainda muito limitada e não estava por isso ao alcance de todos, só uma minoria de europeus abastados e da burguesia africana radicada principalmente em Luanda, podia frequentar algumas instruções de carácter privado que existiam no território, principalmente nos aglomerados de população colonial.
Se por um lado o decreto de 1845 de Joaquim Falcão, procurou dar satisfação às exigências das populações civilizadas, beneficiando assim a maioria da população colonizadora, Martins Santos citado por Laurindo Vieira, refere que este decreto também marca o pronúncio da abertura dos primeiros alicerces da escola pública no ultramar e, muito especialmente, em África. Com a legislação o ensino oficial começou aos poucos a fazer parte da realidade angolana, mas se tivermos em conta a data de chegada dos portugueses à foz do rio zaire (1482) e a preocupação destes com a questão do ensino (1845), passaram-se mais de três séculos para que se pensasse na implementação de um sistema de ensino público, o que não deixa de ser chocante par um colonialismo que apregoava ter civilizado os chamados “povos bárbaros”. (Ibid. 45)
Apesar da existência de um ensino oficial em Angola, a situação da maioria da população africana em nada se alterou, pois um grande número continuava sem escolarização.
O “liceal” só teve início nos primórdios do século XX, mais concretamente a partir de Fevereiro de 1919, quando foi fundado o primeiro Liceu de Luanda e da província, o Salvador Correia» (SANTOS, 1970: 185). Assim desde a assinatura do decreto de José Falcão em 1845 até o surgimento do 1º liceu passaram-se 74 anos para que surgisse em toda a província de Angola uma escola secundária oficial, o que, por si só, demostra o atraso no desenvolvimento do campo educativo em Angola e as dificuldades de muitos em prosseguirem os seus estudos secundários.
Contudo é importante salientar que, embora o surgimento do ensino secundários fosse já uma realidade em Angola, ou melhor em Luanda, a situação de escolarização da maioria da população africana e outra desfavorecida não mudou significativamente, tendo em atenção que o Liceu Salvador Correia era frequentado maioritariamente por filhos de grandes proprietários europeus que viviam em Angola, fazendeiros portugueses, elementos de ascendência portuguesa e alguns africanos.
Para outros angolanos restava-lhes as escolas profissionais onde faziam um curso de artes e ofícios. O ensino profissional destinava-se fundamentalmente aos africanos, então designados anteriormente por indígenas.
Em 1926 – 1933 Portugal implementa uma nova política com relação as colónias ultramarinas e publica o Acto Colonial onde se reforçava o sentimento de um novo regime ditatorial:
«É da essência orgânica da nação portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que nele se compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente.
Como se pode constatar as colónias estavam diante de um novo quadro político e as suas populações iniciavam um novo ciclo de vida sob um regime ditatorial, que, mais do que conceber direitos e dignidade aos povos africanos, se arrogava, através do Acto Colonial, o direito de oprimir e subjugar sob a capa de “civilizar” e “educar”.
Em 1932, Salazar assume o poder do governo Português e, em 1933, na Conferência Imperial Colonial defendia que «o estado central deve organizar com eficácia a protecção das raças inferiores (…) em benefício do ocidente».
Em termos da educação e ensino, a política do estado novo continuava a encarar a questão da escolarização dos africanos como sendo desnecessária (…) como afirmava o Boletim do Ensino da Colónia de Angola:
«O indígena tem de ser um indivíduo útil principalmente no seu meio de origem e só poderá ser, uma vez preparado, uma vez educado nos costumes salutares do trabalho. O indígena na escola primária estaria deslocado, tornando-se altamente prejudicial a si e aos seus semelhantes. Devemos procurar evitar a difusão de escolas primárias nos povoados selvagens» (VIEIRA, 2001, 49).
Aqui se pode confirmar a exclusividade da escola par apenas os filhos dos colonos e de uma minoria africana identificada como assimilada. Um assimilado era um negro que vivia segundo a cultura portuguesa e beneficiava de alguns direitos da sociedade colonial.
Apesar de alguns africanos terem acesso à escola, menos de 5% de todas as crianças de idade compreendida entre os 5 e os 14 anos frequentavam a escola em 1950, enquanto 97% de todos os africanos de 15 anos e mais velhos eram classificados analfabetos.
De uma maneira geral podemos afirmar que o ensino colonial não era um ensino virado para as populações angolanas, para a sua cultura e para a promoção dos seus valores, era sim um instrumento ideológico do sistema colonial que tinha como objectivo inculcar valores morais, éticos, políticos e religiosos acerca da realidade portuguesa, incluindo ideias de servilismo na consciência do angolano, enquanto a escola era uma forte instituição de expansão da língua portuguesa em detrimento das línguas angolanas. É de salientar que nas colónias os programas e conteúdos de ensino diziam respeito a realidade portuguesa. Estudava-se a flora e fauna, a história, a geografia de Portugal, criando-se um vazio cultural acerca de conhecimentos da realidade da própria colónia.
·         O período que antecedeu a Independência: 1974 – 1975
Antes de abordarmos qualquer aspecto de ordem política, gostaríamos de recuar um pouco no tempo para analisarmos, ainda que de forma sucinta, o 25 de Abril de 1974 que culminou com a queda do regime ditatorial em Portugal. O 25 de Abril mais do que um produto histórico dos nacionalistas portugueses, teve a sua génese na luta armada que os nacionalistas africanos de Angola, Moçambique e Guiné Bissau, impuseram ao colonialismo português, criando uma situação favorável para a Independência das ex-colónias de África e o fim da ditadura em Portugal. Assim, a guerra desencadeada nos territórios destes países, criou uma premissa para que o 25 de Abril e com ele se abrissem as portas para a independência das ex-colónias. Vale a pena nos lembrarmos o que nos diz Basil Davidson:
«Estas guerras portuguesas foram extremamente dolorosas, mas por volta de 1970 a 1ª resistência africana começou em geral a ganhar vantagem. Essa resistência levou a grandes avanços políticos por parte dos africanos, assim como vitórias militares. Finalmente o derrube da ditadura salazarista em Abril de 1974, também veio pôr fim a estas guerras dolorosas e desastrosas para Portugal. (citado por VIEIRA, 2007: 80)
Queremos aqui mostrar o quão foi importante o sacrifício dos Movimentos Nacionalistas africanos (em Angola o MPLA, FNLA e a UNITA), pois, com este esforço, surgiu a independência que veio a favorecer os próprios africanos com relação a acessibilidade ao processo de ensino.
Pouco antes da proclamação da independência, o país envolve-se numa sangrenta guerra pelo poder, envolvendo os três movimentos de libertação (MPLA, FNLA e UNITA). Esta situação deixou o país economicamente debilitado, tendo destruído a maior parte das comunicações terrestres, e em particular o caminho-de-ferro de Benguela.
Estes conflitos não beneficiaram em momento algum o processo do ensino no país, pois que, passou-se a partir deste momento a direccionar todas as atenções na implantação da paz bem como na estabilização do país.
1.    Angola – A Educação pós Independência (1975 – 1980)
Com a proclamação da Independência de Angola pelo MPLA, os objectivos imediatos do novo regime consistiam na “destruição” dos marcos do regime colonial e na construção imediata de um novo país, social, político, e economicamente diferente de forma a servir os miliares de angolanos que tinham sidos excluídos, discriminados e explorados pelo regime colonial. (VIEIRA, 2007: 91).
Tendo em conta que a situação herdada do colonialismo, principalmente no campo da educação não era das mais favoráveis, e consciente do alto nível de analfabetismo existente na sociedade angolana na altura, uma das primeiras medidas a ser implementada a nível nacional, foi o combate ao analfabetismo. Indicadores do Ministério da Educação publicado na revista Novembro, apontavam que cerca de 85% da população do nosso país (Angola), era analfabeta e mesmo entre os alfabetizados muito poucos possuíam qualquer qualificação e só uma maioria não significativa possuía uma qualificação profissional.
Considerando a alfabetização uma tarefa prioritária, as autoridades angolanas criaram a Comissão Nacional de Alfabetização, em 1976, sob a tutela do Ministério da Educação, mas dependendo funcionalmente das estruturas do MPLA, que levou a cabo uma Campanha Nacional de Alfabetização por forma a diminuir o número de analfabetos.
A campanha teve uma grande aderência por parte da população, quer no campo quer nas fábricas, nos quarteis e, em muitos casos, as aulas decorriam debaixo das árvores.
Esta campanha visava colmatar algumas carências a nível da mão-de-obra qualificada e iniciar uma forma de educação popular, baseada na experiência dos grandes movimentos de educação popular (…) da América Latina ao mesmo tempo que tentava fazer frente a situação económica do momento.
Recorde-se que ao olhar das autoridades angolanas, a alfabetização era uma aposta de todo o povo, por isso, aqueles que sabiam ler e escrever eram recrutados para alfabetizadores que tinham a missão de ensinar os que não sabiam.
Anos mais tarde, num balanço sobre esta actividade, o Ministério da Educação referia que, «ao fim dos primeiros dez anos de Batalha de Alfabetização, foram alfabetizados 1.048.000 cidadãos numa média calculada em 100.000 por ano» (VIEIRA, 2007: 93). Mas este período, embora sendo áureo, rapidamente foi acompanhado de constantes debilidades, uma vez que as dificuldades de ordem económica e o agudizar da guerra em quase todo o país, contribuíram para o decréscimo da campanha em muitas regiões.
·         Políticas do ensino em Angola “experiência socialista”, (1975 a 1991)
Ao conquistar o poder e declarar a independência do país em 1975, o MPLA optou ao mesmo tempo por uma tentativa de combinar a construção nacional com a construção de uma sociedade socialista, tal como definida pelo Marxismo-leninismo. Nesta perspectiva adoptou uma política educacional inteiramente subordinada a estes objectivos.
Durante anos, uma alta prioridade foi dada a uma ampla campanha de alfabetização de adultos que utilizou a técnica didáctica, mas não a metodologia de base do educador brasileiro Paulo Freire. Para além da transmissão de conhecimentos instrumentais básicos, a campanha teve por objectivo a promoção sistemática de uma identidade social abrangente (“nacional”) e uma mentalização política destinada a obter a aceitação do regime estabelecido. Não são conhecidas estatísticas fiáveis quanto a esta campanha, mas pode ser dado como certo que ela atingiu centenas de milhares de pessoas.
Paralelamente procedeu-se a uma reestruturação e expansão do sistema do ensino geral, concebido para, ao menos tendencialmente, abranger a totalidade da população. Na sua versão regular, destinada à população em idade escolar, este sistema passou a compreender oito anos: quatro de ensino primário, dois de ensino pós-primário e dois de ensino complementar. Na sua versão para adolescentes e adultos que não frequentaram a escola enquanto crianças, um programa comprimido era ministrado em seis anos. Este sistema chegou a ser implantado na quase totalidade do território, sendo para o efeito essencial a cooperação cubana que, de certo modo, substituía os luso-angolanos que, durante o período colonial, tinham sido o suporte indispensável de todo o ensino, mas que haviam deixado o país na altura da independência.
Na continuação deste ensino básico, foi estabelecido um ensino médio de quatro anos (9ª a 12ª classes). Boa parte das respectivas escolas tinham como objectivo uma formação técnico-profissional nos mais diversos ramos, inclusive no da formação de professores. A conclusão da 12ª classe dava acesso ao ensino superior. Criaram-se também a nível médio escolas de ensino pré-universitário (PUNIVs), especialmente desenhadas para, em menos tempo, levar ao acesso a estudos superiores em letras e ciências naturais.
Para o estudo superior existia apenas a Universidade de Angola. Esta era a sucessora da Universidade de Luanda e passou em 1979 a chamar-se Universidade Agostinho Neto. Embora ela compreendesse várias faculdades, situadas em Luanda e no Huambo, esta universidade não tinha condições para corresponder à procura gerada pela expansão do ensino, antes e depois da independência – tanto menos como o seu corpo docente ficou drasticamente reduzido com a saída dos professores luso-angolanos, só parcialmente substituídos por “cooperantes” cubanos, alemães (da RDA) e Russos. Por esta razão, o MPLA estabeleceu um sistema de bolsas que permitiu, no decorrer dos anos, a vários milhares de alunos de realizar estudos universitários em diferentes “países socialistas” – principalmente em Cuba, mas também na União Soviética, na República Democrática Alemã e na Polónia.
·         O novo sistema de Educação e Ensino
Tendo o governo da República Popular de Angola compreendido a importância do sector no desenvolvimento do país bem como da sua população, ocupou-se em um novo sistema de Educação e do Ensino que não englobasse nos seus objectivos e princípios os signos da política educacional colonial. É neste quadro que foi promulgada a Lei nº 4/75 de 09 de Dezembro de 1975, um mês à seguir a Independência, que consagrava a nacionalização do ensino.
A nacionalização do ensino tinha como objectivos imediatos fazer do sistema de educação um instrumento do estado e substituir todo o aparelho colonial da educação e ensino, promovendo no seio da sociedade angolana uma educação virada para o povo (escola para todos), uma vez que as autoridades coloniais não a tinham implementado devido a sua política de exclusão e descriminação da maioria dos angolanos.
É importante aqui salientar que, em função da influência dos seus aliados, o primeiro sistema de ensino traçado pelo 1º Congresso do MPLA, tinha fortes influências de países do bloco socialista. (VIEIRA, 2007:107).
Tendo em conta as orientações fundamentais para o desenvolvimento económico-social da República Popular de Angola no período de 1978/1980, as decisões saídas do 1º Congresso sobre a política educativa definiram como objectivos do sistema de educação e ensino o seguinte:
·         Formar as novas gerações e todo o povo trabalhador sob a base da ideologia marxista-leninista;
·         Desenvolver as capa idades físicas e intelectuais de formas a que todo o povo possa participar na construção da nova sociedade;
·         Desenvolver a consciência nacional e o respeito pelos valores tradicionais;
·         Desenvolver o amor ao estudo e o trabalho colectivo e o respeito pelos bens que constituem a propriedade do povo angolano;
·         Desenvolver a unidade nacional;
·         Garantir o desenvolvimento económico e social e a elevação do nível de vida da população.
De acordo com as decisões saídas desse Congresso que decorreu de 04 a 10 de Dezembro de 1977, redefiniu o novo sistema de educação e ensino de seguinte forma:
·         Um subsistema do Ensino de Base;
·         Um subsistema do Ensino Técnico-profissional; e
·         Um subsistema do Ensino Superior.
De acordo com esta estruturação, o sistema de ensino contava com a seguinte componente:
Um Ensino geral de Base – constituído por 8 classes subdividido em 3 níveis; o primeiro de quatro classes, começava na 1ª até a 4ª classe; o segundo duas classes, incluía 5ª e a 6ª classe; e o terceiro, da 7ª à 8ª classe.
Um Ensino pré-universitário – estruturado em quatro semestres com a duração de 2 anos vigorava como um sistema transitório para o ensino universitário.
Um ensino médio – com a duração de quatro anos, possuía dois ramos: o técnico que visava a formação de mão-de-obra para a indústria; e normal para a formação de professores para o ensino de base.
Por último, um ensino superior – estruturado em faculdades institutos superiores; tinha a duração de 4 a 5 anos.
Quanto a questão da exploração escolar que atrás já nos referimos, verificamos que o número de crianças que frequenta a escola nos primeiros anos de independência é bastante significativo e em muitas zonas do país improvisavam-se escolas, muitas em armazéns abandonados, igrejas, sobre as árvores etc. Segundo referências do Ministério da Educação, em termos quantitativos, o sistema educativo da época colonial absorvia, em 1973, 608.607 alunos em todos os níveis e subsistemas de ensino e possuía 17.978 docentes» (MED, 1997: 2). Comparando com o período de 1976/77, segundo referencias deste ministério, os alunos inscritos eram 1.032.854 em todos os níveis do ensino básico, superando significativamente o período colonial. Veja-se o quadro a seguir:
Quadro 1. Relatório de escolarização nos primeiros cinco anos de Independência
Ano
Iniciação
Iº Nível
IIº Nível
IIIº Nível
Total
1976/77
361.446
592.450
70.933
8.025
1.032.854
1977/78
416.937
958.676
94.317
19.010
1.488.940
1978/79
746.328
1.420.739
113.884
24.663
2.305.614
1979/80
664.500
1.713.817
176.687
40.272
2.596.276
1980/81
404.255
1.332.297
150.204
36.433
1.923.189

Tal como o quadro mostra, com a independência o número de escolarização cresceu significativamente contrastando com os 608.607 alunos matriculados em 1973 pouco antes da conquista de independência. Esta situação, evidencia o esforço das autoridades angolanas no sentido de escolarizarem todas as crianças em idade escolar, mas demostra fundamentalmente e exclusão a que muitos tinham sido sujeitos no regime colonial que lhe vedava o direito de à escola.
1.    Primeira Reforma do Sistema Educativo em Angola (1976 – 2000)
A organização do sistema educacional (1976), partiu da necessidade de mudança do sistema de educação que Angola herdara do colonialismo português, classificado como ineficiente, limitado, e em termos culturais, mais voltado ao domínio cultural de Portugal. O sistema educativo português exaltava seus valores em detrimento dos valores nativos de Angola. (NGULUVE, 2010: 55).
Este facto encontrava-se ainda patente nos manuais usados nas escolas, até a década de 1970, o que dificultou a reorganização do sistema educacional uma vez que esta exigia ruptura em termo de hábitos, costume e pensamento (libertar a mente. Ora, os professores de que Angola dispunha para a sua educação eram frutos da Educação Colonial.
Como já nos referimos anteriormente, a educação colonial não privilegiou o nativo angolano, ou seja, não existia uma educação para negros escravos. Com o alcance da Independência à 11 Novembro de 1975, o novo governo, teve como desafio definir a partir de 1976, políticas concretas que pudessem permitir a correcção dos altos índices de analfabetismo apresentado pelo país, resultante da fraca infra-estrutura, bem como dos materiais de apoio ao ensino, herdado do colonialismo português.
Em vista destas situações, em 1977se cria e aprova o Plano Nacional de Acção para a Educação de Todos, que visava fundamentalmente ampliar a oportunidade de acesso a educação fundamental sobretudo aos primeiros quatro anos de ensino qua incluía a 1ª, 2ª, 3ª e 4ª classe.
·         Organização do sistema educacional
Segundo Francisca do Espírito Santo citado por Alberto Nguluve (2010: 66), o sistema educacional desenvolvido na primeira reforma (1976), baseou-se fundamentalmente pelo aumento de oportunidades educativas, gratuitidade do ensino de base (da 1ª à 4ª classe), obrigatoriedade de frequentar o primeiro nível e o aperfeiçoamento pedagógico do seu corpo.
De acordo com o Decreto nº 40/80 de 14 de Maio, o sistema educacional em vigor desde 1978constituía-se em subsistemas que compreendiam as seguintes etapas: Educação pré-escolar; Ensino Básio (de três níveis – o primeiro, da 1ª à 4ª classe; o segundo, da 5ª à 6ª classe; e o terceiro, da 7ª à 8ª classe); Ensino Médio (dividido em Técnico e Normal); Ensino Superior (que inclui o Bacharela, até ao terceiro ano e a licenciatura até ao quarto ano ou quino ano, dependendo do curso); Ensino e Alfabetização de Adultos. (Veja o quadro a seguir)
Quadro 2 – estrutura do ensino na primeira reforma (1978)
Educação
Pré-Escolar
Ensino de Base
(Regular, Adultos e Especial)
Ensino Médio ou
Pré-Universitário
Ensino Superior 

Creche
1º nível – 1ª à 4ª classe
(Obrigatório)
Médio Normal
(9ª à 12ª classe

==============

Jardim de Infância
2º nível – 5ª à 6ª classe
(formação profissional)
Médio Técnico
(9ª à 12ª classe)
1º Nível (do1º ao 3º ano)
Bacharelado

Iniciação
3º nível – 7ª à 8ª classe
(formação profissional) *
Pré-Universitário
(9ª à 11ª classe)
2º Nível (do 4º  ao 5º ano)
Licenciatura

* Junto do ensino normal, segundo o terceiro nível, havia a formação profissional de (adultos e jovens), direccionado à aprendizagem de conhecimentos com aplicação prática ao trabalho.
Para além da ordem normal de que estava estruturado o sistema de  ensino, havia, paralelo a este, o ensino de adultos, voltado basicamente para a alfabetização e ensino geral básico. Mediante o desenvolvimento, os adultos poderiam chegar a formação profissional técnica.

Conclusão
Depois de uma breve incursão sobre a educação em Angola antes, durante, e depois da Independência, podemos concluir que a educação nem sempre foi distribuída de modo equitativo em todos os momentos da construção da história de Angola. Durante vários séculos que caracterizou a colonização de Angola, a educação esteve à responsabilidade das Igrejas Cristãs, e que as poucas instituições de ensino estatal que vieram a existir, em pouco ou nada beneficiaram os nativos angolanos.
Até os primeiros anos do século XIX, a educação laica em Angola era ainda muito limitada e não estava por isso ao alcance de todos, só uma minoria de europeus abastados e da burguesia africana radicada principalmente em Luanda, podia frequentar algumas instruções de carácter privado que existiam no território, principalmente nos aglomerados de população colonial.
Contudo é importante salientar que, embora o surgimento do ensino secundários fosse já uma realidade em Angola, ou melhor em Luanda, a situação de escolarização da maioria da população africana e outra desfavorecida não mudou significativamente, tendo em atenção que o Liceu Salvador Correia era frequentado maioritariamente por filhos de grandes proprietários europeus que viviam em Angola, fazendeiros portugueses, elementos de ascendência portuguesa e alguns africanos.
Vale aqui concluir que a luta de libertação nacional levada a cabo pelos nacionalistas angolanos militantes dos movimentos de libertação nacional (MPLA, FENLA e UNITA), abriu também aquilo que podemos considerar o caminho para a nacionalização do Ensino e Educação em Angola. Com a independência, se tornou preocupação do governo em expandir a educação por todo o país, tornado assim, aquilo que antes foi inacessível, acessível a todos sem excepção.




Bibliografia
NGULUVE, Alberto Kapitango. Educação Angolana: Políticas de Reformas do Sistema Educacional. S. Paulo 1ª Ed. Biscalchin Editora, 2010.
PRELÓT, Marcel (1974) As Doutrinas Políticas, Lisboa: Presença.          
SANTOS, Fernando Barciela (1975) Angola na Hora Dramática da Descolonização Portugal-Angola.
VIEIRA, Laurindo. Angola: A Dimensão Ideológica da Educação 1075 – 1992. Luanda, 1ª Ed. Editora Nzila, 2007.





[1] Segundo HANDERSON citado por Laurindo VIEIRA, a primeira Missão Protestante chegou em São Salvador em 1879 e quando a hierarquia Católica teve conhecimento de que os protestantes estavam a instalar-se em S. Salvador, no ano seguinte o Bispo D. José Neto enviou três padres seculares – António José de Sousa Barroso, Sebastião José Pereira e Joaquim de Anunciação Folga, com o objectivo de erigirem uma missão permanente na capital do Reino do Congo.


Trabalho retirado do site: https://balgidoquiage.wordpress.com/2014/09/17/educacao-em-angola-antes-durante-e-depois-da-independencia/