sexta-feira, 7 de julho de 2017

A FORMAÇÃO DE VALORES NO ENSINO PRIMÁRIO

RESUMO
O presente artigo tem como finalidade fazer um esboço inicial sobre a formação de valores no ensino primário, apegando-se na influência que os pais, professores e profissionais exercem sobre as crianças e adolescentes desde os primeiros anos de escolaridade. Pretende-se também identificar os procedimentos utilizados nas escolas para se ensinar valores aos alunos do ensino primário. Observando a influência do ambiente escolar na transmissão e criação de valores nos alunos.
Detectando as estratégias mais usadas pelos professores. Identificando o que os pais esperam da escola em relação à transmissão de valores a seus filhos e analisando o nível de satisfação dos alunos. com sua escola e os valores que ela defende. A transferência de papeis dos pais para os professores, quando se refere à educação das crianças, é uma realidade facilmente encontrada na sociedade de hoje. Onde os pais fogem da sua responsabilidade de ensinar os princípios básicos da educação a seus filhos e deixam esse papel para os professores nas escolas.
A escola por sua vez preocupa-se com o desenvolvimento académico do aluno e muitas vezes se esquece de se trabalhar os valores. Em contrapartida, é sabido que a Educação não deve estar apenas a serviço do sucesso académico, mas precisa desenvolver estratégias que alcancem os valores perdidos no tempo.
PALAVRAS-CHAVE: Valores morais – Ensino primário – Ensino de valores morais.





INTRODUÇÃO
Pensar em Educação não é apenas deter-se em conteúdos curriculares. Na realidade, a necessidade do homem moderno não é limitada a estes conteúdos contidos nos currículos escolares que somente podem oportunizar o sucesso ou fracasso académico. A Educação com vias de transformação do ser humano e da sociedade precisa estar intimamente vinculada aos valores das civilizações antigas e, evidentemente, às que perduraram até os dias actuais. Valores estes que ajudam a moldar o carácter de nossas crianças e torna a nossa sociedade mais humana.
Neste trabalho de pesquisa a pergunta que procuramos responder é a de que estratégias ou procedimentos são utilizados pelas escolas para ensinar valores aos alunos do ensino primário. Esse é o problema que norteia todo esse estudo e para tanto temos como objectivo identificar tais procedimentos observando a influência do ambiente escolar na transmissão e criação de valores nos alunos, detectando as estratégias mais usadas pelos professores em suas práticas educativas para estimular nos alunos a reprodução de valores, identificando o que os pais esperam da escola em relação à transmissão de valores a seus filhos e analisando o nível de satisfação dos alunos com sua escola e os valores que ela defende.





REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

A FORMAÇÃO DE VALORES NO ENSINO PRIMÁRIO
Antecedente histórico
Os valores humanos existem desde os primórdios da humanidade e são metas de todas as religiões, códigos de ética e filosofias. Considerar a expressão “valores” na modernidade do século XXI é bastante sugestivo. O termo valor pertence essencialmente ao vocabulário da economia; entretanto, a proposta deste trabalho é reflectir na definição mais aceita pela Educação da sociedade moderna.
Segundo Jean Piaget (1896-1980), “os valores são investimentos afectivos”. Isso significa que, apesar de se apoiarem em conceitos, estão relacionados a emoções, tanto positivas quanto negativas. Logo, educar para os valores é ajudar aos filhos ou alunos a descobrirem ideias e valores em que realmente se acredita. Os valores constituem o conjunto de qualidades que salientam nossas diferenças como seres humanos independentemente de credo, raça, condição social ou religião, e como já nos foi dito anteriormente, estando presentes em todas as filosofias ou crenças religiosas.
Os valores dignificam e ampliam a nossa capacidade de percepção. É por elas que obtemos as qualidades que os homens consideram importantes, como a verdade, rectidão, paz, amor e não violência, que unificam e libertam as pessoas do egocentrismo, engrandecendo a condição humana e dissolvendo preconceitos e diferenças. É por não se observar a importância dos valores nos comportamentos sociais que a sociedade tem passado por um período de desordem, diante da corrupção, dos jogos de poder, da violência, do desprezo pelo ser humano e pelo meio ambiente.
Ao não cultivá-los, oportunizaram a formação de adultos sem referenciais de cidadania e de respeito ao próximo. Concede-se, então, à Polícia, ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e a outros órgãos estatais a função de responsabilizarem-se pelo destino das pessoas em conflito com a lei, a fim de que sejam afastadas do convívio social e (re)educadas. Diante desta evidência, torna-se ainda mais necessário o estudo de valores nas escolas desde a Educação Infantil, para que as crianças ainda que não tenham estes conceitos em casa, tenham a possibilidade de ser moldadas e preparadas para uma educação transformadora. Sem transmitir os valores humanos universais, não há como formar cidadãos éticos e preparados para viver em sociedade.
O ADULTO E A FORMAÇÃO DOS VALORES DA CRIANÇA
A busca pela sobrevivência na sociedade moderna fez com que a mulher, na qualidade de mãe, se unisse ao esforço mantenedor do homem e pai ― chefe da família ― para prover-lhe o meio de subsistência. Assim, os filhos ficaram sujeitos aos cuidados de parentes próximos ou estranhos, o que acarretou na transferência de responsabilidade da transmissão de valores na educação dos menores.
Esse novo modelo de organização familiar — pai e mãe ausentes do ambiente doméstico durante grande período — trouxe a necessidade de se ter uma profissional qualificada para ajudar na criação dos filhos. A questão é que uma vez que os pais são substituídos pela figura de uma terceira pessoa para cuidar da educação dos filhos, estes receberão intensa influência daquele que se fizer presente na maior parte do tempo, pois o adulto não somente olha e cria a criança simplesmente, ao estar com elas mesmas sem querer fazê-lo ensina-lhes seus valores e crenças.
Sendo que em cada família há uma grande variedade de valores que são transmitidos de geração a geração como uma experiência vivida. Estes valores são partilhados num ambiente de afecto e de identidade, que sobrevive com o passar do tempo, desenvolvendo um sentido de poder e orgulho que reforça o carácter e inspira o comportamento.
Se a criança ou adolescente for criada por alguém que não faz parte da família ela receberá influencia dos valores e crenças desta pessoa e muitas vezes pode não ser o que os pais gostariam que seus filhos aprendessem.  Quando os pais decidem buscar o auxílio de um parente ou de um profissional para a criação dos filhos, não cogitam a possibilidade de entregar-lhes a responsabilidade de também educar os pequenos e transmitir-lhes valores diferentes dos que defendem. Para os pais, o acto de criar é diferente do acto de educar, ou seja, ambas as acções não estão relacionadas.
Ellen G. White (1993) acredita que a criança, principalmente em seus primeiros anos de vida, tem uma mente mais impressionável, quer seja com coisas boas ou más e é durante esse período que devemos estimulá-las ao processo da direcção correcta e do conhecimento.
É durante os primeiros anos da vida da criança que sua mente é mais susceptível a impressões, sejam boas ou más. Durante esses anos, faz-se decidido progresso, quer na direcção certa, quer na errada. De um lado, muita informação inútil pode ser adquirida; de outro, conhecimento muito sólido e valioso. A força do intelecto, o saber substancial são riquezas que o ouro de Ofir não pode comprar. Seu preço está acima do ouro ou da prata (WHITE, 1996a, p. 132).
Exactamente quando mais necessitam da companhia e amor paternos as crianças são submetidas aos cuidados de estranhos que indirectamente imprimem-lhes as marcas do próprio carácter. A necessidade das crianças não fica limitada à companhia e amor dos pais, se considerarmos o que Ellen White diz de que até os sete anos de idade elas têm o carácter formado através do aprendizado e influências recebidas. É preciso aqui destacar o papel relevante dos pais na educação da criança até os sete anos de idade.
A FORMAÇÃO DE VALORES NA ESCOLA
Embora exista bom grau de concordância a respeito do ensino de valores à criança e ao adolescente e suas consequências na vida adulta, observa-se que tal fato ocorre superficialmente na prática, e não com o necessário vigor a tal formação. Ou seja, vários dos que concordam sobre a importância do ensino de valores e da moral no desenvolvimento da pessoa parecem não empreender essa tarefa com a dedicação que lhe é devida. Estimular a criança e o adolescente a exercitar cotidianamente certos valores é acção educacional necessária ao estabelecimento das virtudes que se almeja para ela.
Percebe-se o empenho que deve ter o responsável por essa educação, empregando energia e tempo na convivência com a criança. Em síntese, a escola, como instituição que exerce decisivo papel na formação do aluno, deve desenvolver suas actividades não só cognitivas como também voltadas para a transmissão de valores, como elemento indispensável para a formação da cidadania.
Sanches (1997, p. 170-189) apresenta os seguintes modelos de educação em valores:
a) A função da educação formal não é de transmitir valores, mas de possibilitar a reflexão sobre eles: trata-se de um processo de ajuda ao estudante para ter uma visão crítica de sua vida, meta, sentimentos, interesses e experiências, com o objectivo de descobrir quais são seus valores.
b) Formação do carácter moral: Remonta à tradição aristotélica e sintetiza a ideia de que, para se conseguir o desenvolvimento moral de uma pessoa, não basta que ele seja capaz de conhecer, intelectualmente, o que é o bem, o justo, porque a mera actividade intelectual não é suficiente para apreender essa ideia. Há necessidade de que a pessoa seja capaz de agir, conforme essa ideia de bem e de justiça. Deve-se recorrer à prática e à formação de hábitos virtuosos. Têm relevância à ideia do bem, da felicidade humana, a formação de hábitos e as virtudes. O papel do educador apresenta-se relevante, diante dos valores que pretende transmitir.
c) Educação em valores concebida como um projecto de vida: consiste em um exercício constante de autonomia, de reflexão e deliberação individual e de projecção pessoal. O projecto ideal de vida conduz a dimensão valorativo-moral da pessoa a uma finalidade última de aperfeiçoamento de seu carácter individual, mas em consonância também com o social. Consegue-se, também, esta formação mediante a acção, o exercício, mas difere do modelo anterior, por se tratar de um exercício guiado por um projecto pessoal de vida. Trata-se, na verdade, da última etapa do modelo anterior, com forte presença da filosofia aristotélica. Nesse modelo, os valores orientam a conduta da pessoa, levando-a a agir em consonância, formando sua personalidade.
d) Educação em valores concebida como construção da personalidade moral: orientar e estimular a pessoa na construção significativa de sua própria dimensão valorativo-moral, tanto em seus hábitos individuais e privados como nos públicos e colectivos. A educação em valores, concebida como construção da personalidade moral, tem por objectivo principal colaborar no processo de construção de princípios universais aceitáveis que permitam, não só regular a sua própria conduta, mas construir, também, uma vida autónoma, considerada mais justa, melhor e mais apropriada. Este objectivo se perfaz mediante o diálogo, a reflexão, a empatia e a auto-regulação (autonomia e razão dialógica), tendo como referência a racionalidade, que implica defender uma postura crítica. Três são os eixos sobre os quais este modelo se desenvolve: autonomia, diálogo e vontade.
Araújo e Aquino (2001, p. 14), ao discorrerem sobre a forma de transmissão dos valores pelos professores, anotam dois modelos que, tradicionalmente, são concebidos, para, após, chegarem a uma conclusão do método mais eficiente. No primeiro, relatam que “a maioria dos modelos educacionais parte do pressuposto epistemológico de que o conhecimento é exógeno em relação ao sujeito que o internalizaria a partir de suas experiências sensórias com o mundo moderno – ex. professor, livros, palestras e outros eventos informativos” e que na educação moral ou em valores não seria diferente, no sentido de que a “formação da pessoa virtuosa se daria por meio de palestras, ou outros eventos informativos, livros de conteúdo moral ou mesmo por meio das novas tecnologias (vídeo, Internet)”.
No segundo modelo, a “transmissão dos valores ocorre por meio da convivência com pessoas que agem de maneira coerente com determinados valores morais, e que o exemplo é a melhor forma de se educar moralmente”. Sem desconhecer os méritos de tais sistemas, os autores apontam que “os valores são construídos na interacção entre um sujeito imbuído de razão e emoções e um mundo constituído de pessoas, objectos e relações multiformes, díspares e conflituantes.
Os valores são construídos a partir do diálogo e da qualidade de trocas que são estabelecidas com as pessoas, grupos e instituições em que vive”. Tratando, ainda, da questão da forma de educar em valores, Marques (2001) centra sua reflexão nos ensinamentos aristotélicos, no sentido de se alcançar à educação em valores por meio do desenvolvimento das virtudes. Virtude, na concepção aristotélica, deve compreender-se como uma disposição que se encontra centrada entre o excesso e a falta, ou seja, um meio termo entre dois extremos, como se infere, igualmente, da proposição de Pitágoras: “virtus est in medius” (a virtude está no meio). Decorre de uma deliberação voluntária do cidadão de saber, o que faz com justo equilíbrio, visando à felicidade.
A propósito, afirma Marques (2001, p. 35) “A pessoa virtuosa é aquela que sabe o que faz, que é conhecedora de seus deveres, que escolhe deliberadamente seguir a conduta recta e é capaz de repetidamente executar a rectidão com espírito e vontade inabalável”. Ainda na visão aristotélica, as virtudes dividem-se em (a) morais e (b) intelectuais (sabedoria e conhecimento). As morais, como coragem, temperança, mansidão, liberalidade, magnificência, magnanimidade, afabilidade, reserva e justiça, podem ser ensinadas, mas “mais do que produto de ensino, são produto do hábito” (MARQUES, 2001, p. 34).
Hábito de praticar acção recta torna a pessoa virtuosa, ou seja, a educação ética, em valores e virtudes, não se faz apenas pela via intelectual (por via de uma disciplina específica), mas pelo hábito do educando em praticar acções virtuosas. Platão chama de treinamento a forma de a educação transmitir valores éticos, que é da sua própria essência:
Chamo educação àquele treinamento que é dado, através de hábitos adequados, aos primeiros institutos de virtude existentes nas crianças a disciplina correcta de prazer e sofrimento através dos quais um homem, desde o início até o fim de sua vida, abominará o que deve ser abominado e terá amor pelo que se deve amar (BEUST, 2000:45).
Arrematando esta questão, Marques (2001) aponta como educar em valores, transmitindo virtudes na concepção aristotélica. Ele comenta sobre a importância que Aristóteres dá à educação ética e como isso o conduziu à defesa de uma educação pública capaz de complementar e de substituir, quando necessário, as influencias da família, de modo que as novas gerações pudessem beneficiar-se de uma boa formação de carácter. E diz ainda que:
... a escola e a educação em geral, embora não sendo uma panaceia, podem contribuir para ajudar os jovens a encontrarem os caminhos para a vida digna e para a felicidade (MARQUES 2001, p.27).
Para transmitir as virtudes, não há necessidade de uma disciplina autónoma independente, mas um comportamento profissional e social do professor, comprometido com os valores que serão transmitidos. O hábito de praticar estas acções levará à construção de uma verdadeira cidadania.
Buxarrais (1998, p. 84-86), ao tratar da educação moral, apresenta três modelos de educação baseados em: Valores absolutos; “de grande tradição pedagógica baseia-se numa visão de mundo que contém um conjunto de valores e normas de conduta indiscutíveis e imodificáveis. Os valores e as normas impõem-se com a ajuda de algum poder autoritário e têm como objectivo regular todos os aspectos da vida pessoal e social”.
Valores relativos; parte-se do princípio de que os valores representam uma questão casual e que nenhuma opção de valores é preferível em si mesma. Não há como afirmar valores absolutos, pois dependem da subjectividade. As opções morais são decisões de carácter exclusivamente individual. No campo da pedagogia, este modelo limita o papel da educação moral e do próprio professor.
QUAIS OS VALORES QUE DEVEM SER TRABALHADOS?
A educação em valores está presente em todas as disciplinas do currículo escolar. Para educar em valores, é necessário que o professor organize seu plano de ensino em actividades lúdicas, reflexivas e conceituais sobre temas transversais. A questão que fica no ar é a de que valores devem ser trabalhados.
Para Tillman (2001), os valores que devem ser ensinados pela escola aos seus alunos são os seguintes: paz, respeito, amor, tolerância, felicidade, responsabilidade, cooperação, humildade, honestidade, simplicidade, liberdade e união. No entanto, Antunes (2010) em um dos seus livros mais novos nos dá outra lista de valores. Nesta lista temos a honestidade, a coragem, a amizade, o respeito, a liberdade, a criatividade, a auto-estima, a bondade, a confiança, prestatividade, força de vontade, a lealdade, o optimismo, a responsabilidade, a paciência e a sinceridade. Podemos trazer ainda a visão de Libânio quanto a isso. Ele diz:
É preciso que a escola contribua para uma nova postura ético-valorativa de recolocar valores humanos fundamentais como a justiça, a solidariedade, a honestidade, o reconhecimento da diversidade e da diferença-o respeito à vida e aos direitos humanos básicos, como suportes de convicções democráticas (LIBÂNEO, 1998, p. 67).
Embora esses autores possam divergir em que valores são mais importantes para serem trabalhados na escola acredito que convergem em um pensamento, o de que é necessário se saber o que queremos ensinar. Antunes (2010) diz que um barco que navega sem destino nunca chegará ao porto que deseja. Esta ilustração nos mostra que nunca educaremos para “alguma coisa” se não sabemos que “coisa” é essa. Trabalhar valores em sala de aula é algo essencial, mas de igual modo é importante saber que valores serão trabalhados.
Portanto em primeiro lugar a escola deverá estabelecer quais os valores que ela julga mais importante para serem ensinados e cultivados diariamente com seus alunos, para depois se estabelecer estratégias e métodos de se trabalhar tais valores.
Fontana (1991) descreve as seis fases de desenvolvimento moral de Kohlberg. Fases essas que são baseadas nas fases de desenvolvimento de Piaget e que podem dar um norte aos educadores no sentido de saberem que valores se trabalhar em sala de aula em cada fase do desenvolvimento da criança. Essas fases são as seguintes: (crianças de 2 a 7 anos) modalidade pré-convencional – 1- Obediência; 2- egoísmo ingénuo; (crianças de 2 a 11 anos) modalidade convencional – 3- Orientação bom menino/ boa menina; 4- Orientação de manutenção da autoridade; (crianças a partir de 12 anos) modalidade pós convencional – 5- Legalismo contratual; e 6- Princípios gerais de consciência.
OS PROFESSORES E A CONSTRUÇÃO DE VALORES
No cotidiano da escola, os professores ocupam papel essencial no processo educativo. Boa parte da responsabilidade no êxito ou fracasso desse processo reside no modo como o realiza o educador. No campo da formação moral dos alunos, acontece o mesmo. A postura desse profissional quando discute diferentes temas, transmite conhecimentos e, principalmente, torna-se “exemplo de vivência” do conjunto de valores que apregoa, será, sem dúvida, uma das condições essenciais na obtenção do êxito educativo. Os professores são “interlocutores da educação moral”. Entretanto, é importante não deixar de considerar, que “os professores, além de serem professores, também são pessoas envolvidas e afectadas nas suas convicções, sensações, aspirações como qualquer outra pessoa que conviva com os conflitos e ambivalências éticas e morais da sociedade contemporânea” (GOERGEN, 2007, p.748).
É interessante destacarmos que o professor poderá ou não, ser revestido de uma figura de autoridade a ser “imitado” servir de exemplo ou de modelo de conduta e/ou atitudes, auxiliar no processo de construção dos valores nos alunos, a partir dos sentimentos que despertar em seus alunos. Segundo La Taille (2006, p.108-132), o “querer agir moral” está alicerçado em seis sentimentos. Os dois primeiros aparecem indissociáveis para o sentimento de obrigatoriedade: o medo e o amor.
Os demais: confiança, simpatia, indignação e a culpa, com excepção da culpa, não estão directamente relacionados aos sentimentos de obrigatoriedade, mas o alimentam e o fortalecem. Particularmente, no que se refere à confiança, é importante tecer mais alguns comentários. Para o autor (2006, p.111), “[...] para depositarmos confiança em alguém, além de fazermos hipóteses a respeito da qualidade de suas acções também fazemos hipóteses sobre suas qualidades enquanto pessoa moral. Em suma, a confiança implica a dimensão moral”.
Muitos defensores da integração das áreas disciplinares argumentaram que ela não representa simplesmente uma mudança na pedagogia e, sim, que implica uma mudança fundamental nas crenças sobre o ensino e a aprendizagem, bem como uma visão de realidade em que as coisas são interconectadas e interdependentes. Aqueles que a advogam declararam que:
[...] as experiências do mundo real não são fragmentadas em áreas e, por isso, a integração aumenta a relevância e a motivação para aprender. De um ponto de vista prático, o conhecimento vem aumentando rapidamente, e a integração pode evitar a duplicação, identificando conteúdos e habilidades transversais. (YUS RAMOS, 2005, p.11)
Ainda, segundo esse autor, os obstáculos para a integração são inúmeros, mas o maior deles é a própria especialização docente. Drake (1998 apud YUS RAMOS, 2005, p. 11) assinala que:
[...] os programas das séries iniciais do ensino fundamental sempre foram mais fáceis de integrar, visto que todas as matérias são dadas por um mesmo professor, ainda que tal realidade esteja mudando nos últimos tempos com a introdução de especialistas diversos. Entretanto, as coisas ficam mais difíceis a partir da 5ª série, visto que a compartimentalização do conhecimento escolar em espaços e tempos é muito maior [...]. Os professores de 4ª a 8ª séries, que foram educados em um mundo onde as disciplinas constituem o princípio organizativo, são formados como especialistas e costumam argumentar que esse enfoque levaria à perda de sua identidade. Contudo, os que se integraram com êxito tendem a se considerar como “professores de estudantes” mais do que como professores de domínios académicos específicos.
Nesse contexto, não é possível deixar de considerar a importância da actuação dos cursos de formação de professores, seja no nível do magistério ou do ensino superior, que possuem o compromisso de preparar o profissional que trabalha na escola. Que conhecimentos são necessários para constituir esse profissional? A formação do educador precisa considerar o contexto em que se realizará sua actuação profissional. Considerando que irá trabalhar com alunos, que estão em processo de formação, independente da faixa de idade em que se encontram, é necessário despertar nesse profissional um senso crítico e moral.
Segundo Goergen (2007) é preciso que os docentes recebam uma formação correspondente à oferecida aos alunos, que tenham passado por um processo de conscientização de sua própria moralidade, de seus ideais e sentidos de homem, de mundo e de vida, dos fundamentos que orientam seu julgar e agir, para só então, e a partir daí, pensarem no papel que lhes cabe como agentes da formação moral. O estudo dos valores na formação do educador visa tornar os (futuros) professores conscientes de sua responsabilidade na promoção desses conteúdos em seus alunos. O professor necessita ser formado para respeitar as características de seus alunos vivendo seus próprios valores, respeitando os valores de seus alunos e propondo novas opções de valores (SCHMITZ et al, 2003). Esse profissional necessita fazer continuamente um exame sério de seus valores e atitudes, para melhorar sua actuação.
O professor é um portador de valores, e é impossível que não seja vivenciador de valores bem definidos, para sentir-se seguro perante o desafio da promoção dos valores de seus alunos (MORAIS, 1991). Ressaltamos que a atitude/postura do educador não é só uma condição do êxito educativo, mas é também um dos aspectos mais importantes em qualquer proposta de educação moral.
Nesse sentido, ele poderá assumir a posição do profissional heterónomo, centralizar o processo educativo em si e não permitir as trocas entre alunos, suas experiências e os conhecimentos/reflexões obtidas a partir delas, ou um profissional que, por meio de sua postura e da base moral que possui, possibilita a análise e discussão de problemas sociomorais, processos de reflexão sobre eles, trocas significativas entre os alunos. Um dos elementos mais significativos da educação moral a ser desenvolvido pelos alunos é o diálogo.
Os alunos desenvolvem sua capacidade de expressão e de compreensão à medida que sentem a necessidade progressiva de escutar os demais, de entender o que outros dizem, de ceder ante um argumento melhor ou de criticar aquilo que não compartilham (PUIG, 1998, p.118).
Diante deste quadro, cabe a reflexão: O que é ser professor hoje? Estamos em consenso com a posição de Gadotti (2000) quando enfatiza que ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo, conviver; é ter consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores, assim como não se pode pensar num futuro sem poetas e filósofos. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas.





CONCLUSÃO
A disseminação que a educação emerge em valores que se desenvolve na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas escolas, nas manifestações culturais, nos movimentos e organizações socais, é uma questão fundamental da sociedade actual, e considerado importante tanto pelos pais como pelos professores e pelo governo expressado na lei de directrizes e bases da educação.
Se a escola deixa de cumprir o seu papel de educador em valores, o sistema de referenciação ético de seus alunos estará limitado à convivência humana que pode ser rica em se tratando de vivências pessoas, mas pode estar também carregada de desvios de postura, atitude comportamento ou conduta, e mais, quando os valores não são bem formal ou sistematicamente ensinados, podem ser encarados pelos educandos como simples conceitos ideais ou abstractos, principalmente para aqueles que não os vivenciam no cotidiano.



BIBLIOGRAFIA
ANTUNES, Celso. Trabalhando Valores em Atitudes nas séries iniciais: para crianças de seis a dez anos de idade. Petrópolis, RJ, Vozes, 2010.
ARAÚJO, Ulisses F.; AQUINO, Júlio Groppa. Os direitos humanos na sala de aula. São Paulo: Moderna, 2001.
BUXARRAIS, Maria Rosa. A formação de professores em educação em valores: proposta e materiais. Bilbao: Editorial Desclée, 1997.
FONTANA, David. Psicologia para professores. 2.ed. São Paulo, ed. Manole, 1991.
GADOTTI, M. Perspectivas actuais da educação. Revista São Paulo em Perspectiva. São Paulo, vol.14 no.2, Abr./Jun. 2000.
GOERGEN, P. Educação moral hoje: cenários, perspectivas e perplexidades. Educação e Sociedade. Campinas, vol.28, n.100 – Especial, out./2007.
LA TAILLE, Y. de. Moral e Ética: dimensões intelectuais e afectivas. Porto Alegre: Artmed, 2006.
LIBANEO, José Carlos. Adeus professor, adeus professora? 6. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
MARQUES, Ramiro. O livro das virtudes de sempre: ética para professores. São Paulo: Landy, 2001.
MORAIS, R. de. Educação em tempos obscuros. São Paulo: Cortez, 1991.
PIAGET, J. Os procedimentos de educação moral. In: MACEDO, L. (Org.) Cinco estudos de educação moral. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.
PUIG, J. M.. A construção da personalidade moral. São Paulo: Editora Ática, 1998.
SANCHES, Montserrat Payá. Para valores de uma sociedade aberta e plural educação: abordagem conceitual. Bilbao: Editorial Desclée, 1997.
SCHMITZ, E. F. et al. Valores na formação do educador. Educação Unisinos. Porto Alegre, v. 7, n.13, 2003.
TILLMAN, Diane. Atividades com Valores para Estudantes de 7 a 14 anos. Programa Vivendo Valores na Educação. Tradução Sandra Costa, Editora Brahma Kumaris, Sãi Paulo, 2001

WHITE, Ellen. G. Educação. 6. ed. Conselhos aos pais, professores e estudantes. Casa Publicadora Brasileira, São Paulo, 1996.

A ESTERILIDADE MASCULINA E FEMININA

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TRATAMENTO DA ESTERILIDADE FEMININA
DE CAUSA OVARIANA:
1.                  TRATAMENTO MEDICAMENTOSO 
A patologia inflamatória tem que beneficiar de tratamento antiinflamatório e balnear prolongado.

O tratamento das anovulações e disovulações 
Tem que fazer uma seleção muito boa dos casos
Na maioria dos casos a insuficiência secretória ovariana e de origem hipotálamo-hipofisaria
PRINCIPIO; Indutores de ovulação: CLOMIFENO ou GONADOTROFINAS mais HCG.
O tratamento tem que ser dirigido pelo medico especializado no tratamento da esterilidade.
O tratamento começa com a administração do CLOMID, cujo efeito e menos aleatório, em seguida tratando a paciente com HCG. O procedimento tem que ser repetido três vezes, normalmente – se não dar certo, então podemos abandonar-lo (falha da terapia).
O principio de funcionamento do CLOMID e a ação antiestrogênica endógena. . Isto determinara o aumento da secreção do FSH , com maturação folicular consecutiva. o nível dos estrogênios, chegado a um nível, podem induzir a secreção do LH que determina a ovulação mesmo.
As pacientes que tenham sido hipoestrogênicas durante longo período podem necessitar pré-tratamento com estrogênios para obter um endométrio mais normal.
As pacientes com sensibilidade anormal às gonadotrofinas hipofisárias (síndrome de ovário policístico) podem necessitar de menor dose ou menos tempo de tratamento com clomifeno. Dose usual para adultos: 50mg por dia durante 5 dias, começando no quinto dia do ciclo menstrual; se não ocorrer a ovulação, a dose deverá ser aumentada para 100mg por dia durante 5 dias, podendo chegar até 250mg por dia.
Doses maiores que 100mg por dia durante 5 dias foram associadas com uma maior incidência de efeitos colaterais.
O tratamento com PUREGON deve ser iniciado sob supervisão de um médico especialista em tratamento de problemas de fertilidadePUREGON pode ser administrado de forma isolada ou em combinação com análogo de GnRH para evitar luteinização prematura.No último caso, especialmente quando usar um agonista de GnRH, uma dose de tratamento total mais alta de PUREGON pode ser necessária para atingir uma resposta folicular adequada. A experiência clínica com PUREGON é baseada em até 3 ciclos de tratamento nas duas indicações
Anovulação:
Em geral, é recomendado um esquema de tratamento seqüencial, geralmente iniciado com a administração diária de 50UI de PUREGON, dose que deve ser mantida durante no mínimo 7 dias. Se não for detectada uma resposta dos ovários, a dose deve ser incrementada gradualmente até o crescimento folicular e/ou os níveis de estradiol indicarem uma resposta farmacodinâmica adequada. É considerada ótima a velocidade de aumento da ordem de 40-100% ao dia. A dose eficaz diária é então mantida até que sejam atingidas as condições de pré-ovulação. As condições pré-ovulatórias são atingidas quando há evidência ultra-sonográfica de um folículo dominante de pelo menos 18mm de diâmetro e/ou quando os níveis de estradiol plasmático de 300-900 picogramas/ml (1.000-3.000 pmol/l) são atingidos. Normalmente, 7 a 14 dias de tratamento são suficientes para atingir este nível. A administração de PUREGON é então interrompida e pode-se induzir a ovulação, administrando-se hCG. Se o número de folículos responsivos for muito alto ou os níveis de estradiol aumentarem muito rapidamente, mais que o dobro ao dia durante 2 ou 3 dias consecutivos, a dose diária deverá ser diminuída. Como os folículos com mais de 14mm podem produzir gravidez, múltiplos folículos pré-ovulatórios com mais de 14mm aumentam o risco de gravidez múltipla. Nesse caso, deve-se suspender a hCG para evitar gestações múltiplas.
Hiperestimulação controlada do ovário em programas de reprodução assistida: vários protocolos de estimulação podem ser empregados. Geralmente uma dose inicial de 100-200UI é recomendada pelo menos para os primeiros quatro dias de estimulação.Daí em diante, a dose deve ser ajustada individualmente, baseada na resposta ovariana. PUREGON pode ser usado isoladamente ou em combinação com agonista GnRH para prevenir a luteinização prematura. Nesse último caso, um tratamento com dose total maior pode ser necessário para atingir uma resposta folicular adequada. A maturação dos folículos é monitorada por ultra-sonografia e pelos níveis plasmáticos de estradiol. Quando a avaliação ultra-sonográfica indica a presença de, ao menos, três folículos de 16-20mm, e a resposta de estradiol é boa |níveis plasmáticos de aproximadamente 300-400 picogramas/ml (1.000-1.300pmol/l) para cada folículo com um diâmetro maior que 18mm|, faz-se a indução da fase final da maturação folicular administrando-se hCG. A recuperação dos oócitos é realizada após 34 a 35 horas.
O TRATAMENTO DA ESTERILIDADE DE CAUSA UTERINA
Em caso de anomalias de desenvolvimento, a patologia das malformações uterinas (útero bicorne, útero septado, útero comunicante) a cirurgia e o método de eleição.
As hipoplasias uterinas, difícil de tratar, beneficiam de tratamento com estroprogestativos, durante alguns meses, criando uma pseudogestação hormonal.
As deviações uterinas, a não ser associadas com dano pélvico, não beneficiam de tratamento operatório.
Entre as lesões mai importante a fibroma precisa de tratamento cirúrgico, constando em miomectomia simples ou múltiplas, evitando mais que possível abrir a cavidade (melhor utilizar a celioscopia).
O tratamento da endometriose – normalmente e medical com estroprogestativas, alguns meses
Quanto as endometrites – especialmente as endometrites com germes banais, ne-especificas, beneficiam de tratamento antibiótico depois a preservação biológica e antibiograma. A endometrite tuberculosa e as seqüelas (sinequias) raramente isoladas, tem prognóstico ruim, mesmo depois um tratamento antituberculoso bem dirigido. Finalmente, as sinequias uterinas pos-traumaticas e pos-infecciosas podem ser resolvidas tanto via abdominal quanto por via baixa. O tratamento vai ser completado obrigatório administrando estrogênios e antibióticos.
Prospectiva (prognóstico)
1 casal em 5 que tem diagnostico de infertilidade pode ter uma gravidez sem tratamento.
Mais de metade dos casais inférteis têm um bebê após o tratamento, não incluindo técnicas avançadas, tais como fertilização in vitro (FIV).
Como se prevenir 
Evitar cigarros, bebidas alcoólicas e drogas ilícitas é o primeiro passo para um sistema reprodutor saudável, de acordo com Maria Cecília. Outro ponto importante é aprender a lidar com o estresse. "Se o trânsito deixa a pessoa nervosa, ou ela muda para perto do trabalho, ou liga o rádio e aprende a lidar com a demora até chegar em casa", explica a especialista.
A alimentação adequada evita não só a infertilidade como a maioria das doenças. A reposição das vitaminas E e C e do Zinco colaboram com a fertilidade masculina e feminina. "A vitamina E é conhecida como a vitamina da fertilidade", comentou Maria Cecília. Por conta disso, a especialista recomenda a ingestão de alimentos ricos nesses componentes para homens e mulheres.


A ESCRAVATURA E O TRÁFICO DE ESCRAVO EM ANGOLA


No presente trabalho vamos falar acerca da Escravatura e o trafico de escravo em Angola, veremos a origem e formação social, bem como os diferentes tipos de escravidão. Para começar é importante dizermos que o estudo do processo de escravização dos povos angolanos é essencial para que se compreenda a situação actual de desigualdade no país. Revela uma longa história de exploração e subjugação de populações fragilizadas por outras, mais equipadas. Demonstra também que a desestruturação económica e cultural tem efeitos desastrosos de longa duração.
Pois, do ponto de vista económico, a escravidão foi uma forma eficiente de acumulação primitiva. No que diz respeito às pessoas, foi uma violência irreparável, que pressupõe, dentre outros factores, a existência de povos muito pobres, mão-de-obra excedente que possa ser explorada em benefício de uma minoria. Assim, parte do actual contexto socioeconómico de Angola de miséria e exclusão é consequência de fatos passados.




A ESCRAVATURA E O TRÁFICO DE ESCRAVO EM ANGOLA
Conceito
O termo escravatura apresenta diversas definições, Silva (2003) a descreve como:
·                    Instituição social que consiste no direito de propriedade sobre seres humanos e na utilização de seus serviços;
·                    Domínio permanente e violento sobre pessoas alienadas de seu nascimento e geralmente desonradas;
·                    Vínculo de poder e domínio originado e sustentado pela violência no qual a “morte social” substitui à morte física do prisioneiro de guerra, do condenado à pena capital ou do indigente ou enjeitado.
Lovejoy (2002) define escravidão como uma forma de exploração com características específicas, destacando a ideia de que o escravo era uma propriedade, um estrangeiro, alienado de sua origem ou do qual por sanções judiciais ou outras se retirava à herança social que lhe coubera ao nascer; que a coerção podia ser usada à vontade, que sua força de trabalho estava à completa disposição de seu senhor, que não tinha direito a sua própria sexualidade, e, por extensão às suas próprias capacidades reprodutivas, sendo sua condição hereditária.
Ela vem sendo a mais primitiva forma de coerção destinada a extorquir de um ser humano a sua força de trabalho em proveito de outro que se dispensa da mesma obrigação. Trata-se da primeira e mais primitiva das formas de esmagamento do homem pelo homem, de extorsão da força de trabalho do semelhante, e do confisco de sua dignidade humana.
Na colónia de Angola, a exportação de mão-de-obra escrava pelo porto de Luanda terá sido alvo de competição no século XVII entre portugueses e holandeses. É depois da disputa entre os colonizadores, cujo vencedor foi o reino de Portugal, que pode ter se originado a captura directa de escravos, nas chamadas Guerras Angolanas, no seio de certas tribos que tinham lutado contra os portugueses. Foi dessa forma que Angola se tornou um centro importante de fornecimento de mão de obra escrava para o Brasil, onde crescia não apenas a produção de cana-de-açúcar no Nordeste, mas também a exploração de ouro na região central. Navios com mercadorias de Goa faziam escala em Luanda lá deixando panos, as chamadas "fazendas de negros". Dali, seguiam para Salvador, na Bahia, carregados de escravos e de outras mercadorias provenientes da Índia (como louças e tecidos). Foi assim que Salvador se tornou um centro difusor de mercadorias da Índia pela América do Sul.
Os negócios foram se estruturando aos poucos. Num primeiro momento, os governadores da colónia detinham o poder de determinar o preço dos escravos. O pagamento era feito em ouro proveniente de Minas Gerais, no Brasil. Mais tarde, em 1715 a coroa portuguesa proibiu que os governadores se envolvessem com o tráfico. Negociantes provenientes do Brasil (principalmente do Rio de Janeiro, da Bahia e também de Pernambuco) assumiram as rédeas do comércio, que se aqueceu. A principal feira fornecedora de escravos para o porto de Luanda era a feira de Kassanje. No século XVIII, a cachaça brasileira (geribita) passou a ter papel de destaque nas trocas, sendo valorizado tanto em Angola quanto no Brasil. Figurava, ao lado da seda chinesa e as armas europeias, como uma das principais moedas de troca. Era, na verdade, a moeda mais corrente, já que o comércio de armas era controlado e a seda chinesa a só chegava à África depois de passar por Lisboa, o que elevava seu preço e reduzia sua liquidez. Outro produto brasileiro valorizado na África era o fumo de corda de Salvador.
A partir da abertura da costa Atlântica da África, pelos comerciantes europeus, ocorre um vertiginoso crescimento e expansão do tráfico de escravos, com consequências decisivas na evolução da escravidão e na economia dessa região. A similaridade nos padrões comerciais do tráfico de escravos, entre portugueses e muçulmanos, fica evidente quando analisamos as seguintes características: demanda de escravos domésticos para a Europa meridional, demanda de escravos para atender plantações de cana-de-açúcar nas ilhas do Mediterrâneo e depois do Atlântico, pelo desenvolvimento do comércio de escravos ao longo da costa ocidental africana e pelas mercadorias exportadas para a África Ocidental.
O desenvolvimento e expansão do comércio transatlântico iniciado na última metade do século XV representou um importante ponto de partida na história do tráfico de escravos. Em decorrência desse comércio, a escravidão existente nesta região, passou por transformações distintas daquelas produzidas nas regiões islamizadas. Embora ela tenha continuado, na maioria dos lugares, a ser interpretada no contexto das estruturas de linhagem – como escravidão de linhagem, ela se consolida como importante instituição nas estruturas das sociedades locais. Essa relação entre o comércio escravo europeu e o desenvolvimento da escravidão nas sociedades africanas, ajuda a esclarecer essa mudança histórica. A presença constante de comerciantes nesta região incentivou a formação de um comércio sistemático de colecta de escravos, que passava a ser direccionado não só para os grupos de parentesco, mas também para o mercado exportador. A consequência dessa relação foi a perda pela África desses escravos e a substituição de seres humanos por mercadorias importadas.
Como uma instituição, a escravidão de linhagem, apresentava aspectos semelhantes a todos os tipos de escravidão: elemento de propriedade, a identidade estrangeira, o papel da violência e a exploração produtiva sexual. Porém uma diferença notável era a ausência no campo ideológico, da influência de atitudes europeias. Esta ocorreu mais no campo económico. Ideologicamente, as teorias e práticas adoptadas, seguiam o padrão islâmico. A escravidão continuou a ser compreendida como de parentesco, mesmo quando escravos realizavam novas e variadas tarefas, semelhante ao padrão islâmico.
Semelhante também era o controlo exercido sobre as mulheres. Como a poligamia era permitida, mas não contava com nenhuma regulamentação, na prática ocasionava uma distribuição desigual das mulheres dentro da sociedade, o que permitia o controlo da produção e reprodução. Esse aspecto foi significativo no comércio de exportação, possibilitando uma divisão natural da população escrava. A demanda interna africana era por mulheres e crianças, enquanto para o comércio europeu, homens era a maioria.
O crescimento do tráfico transatlântico expôs a África Centro-Ocidental a uma influência essencialmente nova. Povos ao longo da costa Atlântica experimentaram mudanças fundamentais em sua organização social, reorientando a escravidão para padrões bem diferentes do que existia anteriormente, acompanhado de um aumento interno na utilização de escravos.
O abastecimento desse intenso tráfico, para as Américas, foi realizado principalmente pelas regiões: área de Angola e do Congo (até quase o final do século XIX); Costa dos Escravos (Golfo de Benin, do final do século XVII até Século XIX); Costa do Ouro (do início do século XVIII até o seu final); baía de Biafra (centralizado no delta do Níger e do rio Cross). Outras regiões tiveram menor participação em épocas diversas como: do rio Bandana; costa perto do planalto de Futa Jalom; portos próximos onde agora ficam Morávia e Freetown; e a região da Senegâmbia com conexão com o interior muçulmano.
O crescimento desse tráfico, não poderia ter ocorrido sem um aumento simultâneo da capacidade de escravizar pessoas e da intensificação da violência. Essa situação era resolvida pela separação da infra-estrutura comercial, que permitia a movimentação de escravos dentro e fora da África; e das instituições de escravização, que estavam associadas à fragmentação política. Assim, o mercado escravo e a escravização institucionalizada, formavam o cenário para a expansão da escravidão na África. No princípio do século XIX, o tráfico de escravos, tinha adquirido proporções gigantescas. O que levou a ser visto como a primeira das modernas migrações mundiais com características específicas por ser baseada na escravidão e possuir uma complexa organização.
Mesmo aceitando que a escravidão existia na África antes da difusão do islamismo, é inegável que se constituía em um aspecto marginal as estruturas sociais. O que leva a afirmar que, a influência do islamismo e do comércio europeu interagindo com o ambiente nativo, afectaram a dinâmica da escravidão, provocando o surgimento de sociedades escravocratas, o que equivale dizer que a escravidão transformou-se em uma instituição fundamental.
Na África, o resultado do sistema esclavagista foi devastador. Comunidades que antes conviviam pacificamente se militarizaram e travaram guerras infindáveis. Enquanto durou a escravidão, os escravos, assim "produzidos", eram vendidos em feiras e exportados. Depois, os antagonismos étnicos entre os capturados e os captores se acentuaram, de forma que mesmo após a retirada dos últimos colonizadores, já no final do século XX, as guerras continuaram ocorrendo.
Houve mais interferências externas. O empresário inglês Cecil Rhodes, por exemplo, investiu largamente em mineração, e fundou o estado da Rhodésia, depois dividido em Rhodésia do sul e Rhodésia do norte, hoje Zâmbia e Zimbábue. Queria formar um império inglês.
Mais tarde, o problema foi agravado, e generalizado, pelo fato de a África ter sido dividida em países artificiais, forjados pela régua dos burocratas da Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial. Sem levar em conta a cultura local, a ONU subjugou ao tacão de líderes não reconhecidos como tal, povos com hábitos, idiomas e economias diversas.
Outras circunstâncias contribuíram para que a África chegasse ao século XXI como o continente mais pobre, injusto e desigual do planeta. Uma delas foi a introdução de mercadorias estrangeiras, ainda no tempo colonial, que provocou a ruína do sistema de produção local.
Em Angola, o sistema do sobado entrou em decadência com a implantação de plantações. Outros centros comerciais próximos ao Rio Kwanza, como o Dongo, passaram a comercializar borracha, cera, café, amendoim e outros produtos demandados pelos europeus – em detrimento da produção de bens de subsistência essenciais para a população. O resultado dessa história milenar de exploração e injustiça são as guerras civis e a extrema pobreza em que o continente se encontra até aos dias actuais.

Inicio da abolição do tráfico de escravo

Durante mais de três séculos se processou o tráfico de cerca de 8,3 milhões de escravos, na sua maioria para o Novo Mundo, fornecendo a mão-de-obra necessária às grandes plantações do Brasil. Por volta de 1807, Inglaterra decreta a ilegalização deste comércio, fruto de algumas pressões que contestam a ilegitimidade desta actividade e que se tornará no palco de disputa política entre Portugal e a Grã-Bretanha.
Na verdade, aquando da declaração de independência do Brasil, em 1822, as medidas de coacção contra o tráfico de escravos cingiam-se somente ao disposto no Tratado Anglo-Português de 1810 que limitava este tráfico à Costa da Mina e às possessões portuguesas em África e ainda à Convenção de 1815 que o declarava ilegal a norte da linha equatorial. Todavia, estas medidas não foram suficientes para diminuir ou mesmo extinguir as inúmeras embarcações que anualmente cruzavam o Atlântico, desenvolvendo o comércio da escravatura.

Dificuldades na abolição do tráfico de escravos nas colónias portuguesas

Para podermos perceber os motivos que dificultam a abolição do tráfico de escravos ao longo deste tempo e após várias tentativas impostas pelos diversos tratados e convenções a ele subjacentes, é necessário compreendermos as alterações que este tipo de comércio provoca na sociedade que o pratica. Na verdade, as colónias portuguesas há muito habituadas a esta actividade viviam deste comércio fácil e muito lucrativo, não desenvolvendo outras actividades que pudessem beneficiar a sua terra.
Desde os governadores das colónias aos mais altos funcionários, passando ainda pelos administradores das alfândegas e, obviamente pelos negreiros, todos lucravam com este negócio obscuro e desumano, dificultando assim a abolição desta prática. Prova disso, é o Tratado Anglo-Brasileiro de Novembro de 1826 que proíbe o comércio de negros aos súbditos brasileiros três anos depois das ratificações, precisamente a partir de Março de 1830. Porém, desengane-se quem julgue que seria o fim do tráfico negreiro, uma vez que nos anos que antecedem a entrada em vigor deste tratado, esta actividade recrudesce e fornece à história números elevadíssimos de exportação de negros para o Brasil.
A partir de 1830, o tráfico de escravos diminui significativamente e por esta altura começam as lamentações dos governadores coloniais, que exigem a alteração do quadro legislativo de forma a controlarem o estado de depressão em que se encontravam as colónias portuguesas. Rapidamente encontraram uma solução e, por volta de 1835 a actividade já se encontrara reorganizada e adaptada ao tratado de 1826, entrando aqui a conivência expressa das autoridades brasileiras que agiam descaradamente, contribuindo assim para a continuação deste comércio que muito interessava ao Brasil, pois era uma forma de colmatar a falta de braços negros para as plantações neste país.

Abolição do tráfico de escravos nas colónias portuguesas

Para Portugal, colocar um ponto final no tráfico negreiro significava assumir responsabilidades sem qualquer garantia de cumprimento, sendo que uma delas respeita ao controlo ou fiscalização que teria de fazer para evitar por completo esta actividade e a outra à sublevação que provocaria nas suas colónias africanas, pois como já foi referido estas sociedades lucravam muito com este tipo de comércio. Assim, a questão da abolição do tráfico de escravos tornava-se dia após dia mais complicada e pouco decisiva, uma vez que para os estadistas portugueses a supressão total deste comércio colocaria em causa imperativos mais fortes nas possessões africanas.
Mas esta situação alterou-se com as posições, embora divergentes, de duas personalidades de peso na política portuguesa da época, o duque de Palmela e o visconde de Sá da Bandeira. Porém, o projecto levado a cabo por Palmela com vista à negociação de uma nova convenção com Inglaterra cai por terra juntamente com a queda do governo a que este pertencia. Com o visconde Sá da Bandeira a abolição do tráfico negreiro parece ganhar agora ênfase, sobretudo através do decreto de 10 de Dezembro de 1836 que põe fim à exportação de negros das possessões portuguesas em África.
Dando oportunidade à proposta de diploma legal apresentada por si à Câmara dos Pares em 26 de Março de 1836, Sá da bandeira realça um projecto de carácter essencialmente colonial, pois na sua opinião África poderia substituir o antigo império brasileiro em todas as suas vertentes. Na verdade, tudo deveria passar por uma fase de investimento, implantação de indústrias que desenvolvessem as culturas facilmente produzidas nas terras férteis daquelas possessões, exploração árdua das ricas minas de ouro, ferro, pedras preciosas e outros metais e ainda novas colonizações.
Mas para que o sucesso deste projecto pudesse sobressair era necessário reter a mão-de-obra existente em África, abolir por completo o tráfico de escravos por mar e aplicar as multas e castigos necessários aos respectivos traficantes. E é assim que o decreto será promulgado, com vista ao desenvolvimento do projecto colonial em África e à criação de um novo império neste continente, quiçá, bem mais interessante e lucrativo que o Brasil.




Causas e consequências do trafico de escravo em Angola
Em Angola, a escravatura desencadeou uma gigantesca movimentação de populações. É de salientar as perniciosas consequências sociais e económicas deste tráfico que privou as populações dos seus membros mais vigorosos e dinâmicos, paralisou o desenvolvimento da actividade produtiva. A procura dum refúgio seguro e a instabilidade verificada entre as populações causou diversos movimentos migratórios a uma escala variável com o tempo e o lugar. Foi, além disso, a maior migração forçada intercontinental de sempre. Tornaram-se destrutivos os efeitos dum círculo vicioso de trocas comerciais, armas de fogo por escravos, e escravos por armas de fogo que seriam usadas na captura de mais escravos e, assim por diante, indefinidamente. Muitos povos ocupam os seus actuais territórios em consequência das deslocações provocadas pelo tráfico de escravos. Desapareceram dos povoados os indivíduos mais jovens, mais vigorosos e sãos.
Tratando-se de populações essencialmente agrícolas, a produção e a acumulação de bens alimentares mergulharam num caos generalizado, que destruiu o processo produtivo. O tráfico de escravos instalou a guerra entre as tribos e a violência no interior das próprias tribos. Os chefes do litoral passaram a ver os seus súbditos como uma mercadoria e a guerrearem-se uns aos outros para venderem os seus compatriotas.











CONCLUSÃO
Ao concluir esta pesquisa sobre a escravatura e o tráfico de escravo em Angola, foi possível verificar a importância do mesmo, para entender toda a dinâmica do processo de escravização e do tráfico de escravos, responsável pela diáspora dos negros africanos.
O objectivo da pesquisa que se caracterizou pela análise da escravidão no país angolano, resultou em novos e significativos conhecimentos sobre a temática, e, espera-se que o mesmo possa contribuir para o aprimoramento do trabalho docente.
Ao final, espera-se que esta pesquisa, proporcione novos questionamentos, a serem analisados, contribuindo dessa maneira, para o estabelecimento de uma relação étnico-racial mais harmoniosa, na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.








BIBLIOGRAFIA


História Geral da África - Volume V: África do século XVI ao XVII
LOVEJOY, Paul E. A Escravidão na África. Uma história e suas transformações, tradução Regina Bhering e Luiz Guilherme Chaves, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002
SILVA, Alberto da Costa – Os estudos de história da África e sua importância para o Brasil, A dimensão atlântica da África, II Reunião Internacional de História da África, São Paulo, CEA-USP/SDG-Marinha/CAPES, 1997, pp 203–219.
SOUZA, Francisco Félix de. Mercador de Escravos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: Ed. UERJ, 2004