quarta-feira, 26 de abril de 2017

Educação e desenvolvimento em África a situação em Angola

No presente texto pretende-se mostrar que a educação é um indicador válido quando se pretende avaliar as transições políticas. Contudo, na investigação na qual se inclui o presente texto, os objectivos são mais vastos, pretendendo-se igualmente demonstrar a importância da educação para o desenvolvimento e chegar a uma tipologia das escolas em Angola. Na transição política entre um sistema socialista e um sistema capitalista, as estratégias de acesso à educação permitem distinguir diferentes classes sociais e diferentes realidades educacionais. A sociedade reconhece que a educação é o principal veículo de mobilidade social pelo que as famílias desenvolvem estratégias que lhes permitem resolver os seus problemas de educação.
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Angolaeducation system

Palavras-chave :

AngolaSistema educacionalEscola
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1. Educação e desenvolvimento em África

1A abordagem destas questões exige sempre alguma preocupação relativamente ao tratamento teórico de dois níveis de preocupações, a saber, a definição dos conceitos de educação e desenvolvimento em África e a questão das transições (política e económica) na África subsahariana.
  • 1 Patrick V. DIAS (1990), «Educação e Desenvolvimento na África subsahariana. Desajustamentos concept (...)
  • 2 Diríamos que, quando o crescimento económico se traduz no bem estar da população, isto é, em mais e (...)
  • 3 «Educação não-formal é, como a educação formal, uma actividade organizada e sistemática, mas que, a (...)
2Patrick V. Dias1 aborda a questão da educação e desenvolvimento, de forma adequada às nossas preocupações teóricas, partindo do pressuposto de que sempre que se fala em desenvolvimento se levanta a questão da educação. Torna-se portanto necessário clarificar quer os conceitos de desenvolvimento quer de educação, considerando quer a educação formal quer a educação não formal, quer mesmo clarificando a questão essencial de que na África subsahariana à educação tradicional se tem vindo a sobrepor, quer no período colonial quer actualmente, a educação ocidental, em contexto urbano e em contexto rural, quando se considera que as políticas educacionais dos diferentes países se estendem a todo o território. Citando I. Wallerstein, Dias refere que a associação de educação e desenvolvimento aparece ligada ao processo de surgimento do sistema mundial e que só se pode falar em desenvolvimento quando se refere a sociedades2. Dias considera que, quando se fala em educação e desenvolvimento se está a falar de um determinado tipo de sociedade, onde a educação é sinónimo de um sistema educativo formal bem desenvolvido, próprio das «sociedades modernas desenvolvidas». A herança colonial sobrevaloriza as instituições herdadas do processo de civilização técnico-industrial, desvalorizando ou desconhecendo a tradição africana e construindo e promovendo elites dirigentes com o objectivo de integração no sistema-mundo. Foi esta a situação que se verificou em toda a África colonizada por europeus, onde não se soube reconhecer que, se na Europa educação, na prática, é sinónimo de educação formal, em África a sociedade tem uma forte tradição de educação não-formal3. O grande problema africano, quando se avalia o insucesso da relação educação-desenvolvimento é que como se entende educação como educação formal, se verifica que esta não é garantida a toda a população mas antes a uma elite. Ora, a educação não formal, da tradição africana, não se pode naturalmente relacionar com o conceito moderno de desenvolvimento.
  • 4 Ressalvam-se em Moçambique a maior preocupação com a educação das raparigas , por ser um Estado sob (...)
  • 5 Com excepção da Nigéria.
  • 6 «Public policy does not reflect demands of masses but rather the prevailing values of the elite. Ch (...)
  • 7 «O sistema educativo actual perdeu a sua função de dar legitimidade, de criar identidade, de qualif (...)
3Daí que os resultados esperados pelo entusiasmo pós-independência na maioria dos países africanos, a que deveria corresponder «mais educação-mais desenvolvimento» acabam por ter eco na Declaração de Harare de 1982 que sublinha as insuficiências e as dificuldades ainda persistentes nos sistemas educativos africanos. Esta situação, de insucesso educativo, que se traduz no índice elevado de insucesso e abandono escolar vai, na década de 80, traduzir-se no desinvestimento progressivo na educação na maior parte dos países africanos. Em Angola, a situação é a mesma que no resto do continente negro, embora com um ligeiro atraso no tempo, devido à descolonização tardia, mas agravada pela situação de guerra civil. Embora os representantes africanos no Plano de Acção de Lagos tenham considerado importante que a renovação dos sistemas educativos assegure a sua «relevância para as necessidades de desenvolvimento económico, social e cultural dos países africanos, para as aspirações dos seus povos e para os valores africanos tradicionais, que são prometedores de progresso futuro e para o reforço da sua independência», a verdade é que os sistemas educativos dos países africanos usam a mesma matriz dos sistemas educativos do antigo país colonizador. É o caso da Zâmbia, como é o caso de Angola e de Moçambique4. Nestes países as reformas nunca conseguem constituir-se como revolucionárias ou como apoiadas na matriz cultural do estado africano mas são sempre adaptações dos modelos importados de países que servem de modelo societal e/ou implementados nas antigas metrópoles colonizadoras. O argumento de que, na África subsahariana, não há tradição de cidades e de ter sido o colonizador que construiu as primeiras cidades5 e impôs um tipo de vida urbano, pode servir para explicar que a educação formal acaba por se implementar no seio das estruturas urbanas, a que os africanos tinham pouco acesso, no período colonial, particularmente nas antigas colónias portuguesas. Por outro lado, as independências e, nalguns casos, a instabilidade política/social atraíram para a cidade elevados contingentes de população rural, detentora de matrizes culturais africanas. É então fácil compreender o insucesso da educação imposta pelo estado, o que significa que é a educação imposta pela classe-estado/classe dirigente (educada no período colonial pelas estruturas coloniais ou depois das independências nas próprias metrópoles coloniais) com fortes interesses na relação com os ocidentais6. A urgência do debate em volta da educação em África aparece então associada ao ritmo galopante da chegada à cidade de população rural que vem avolumar o contingente sem acesso ao ensino formal, agravado pela sua característica de ser um ensino culturalmente estranho7. O ensino formal aparece assim como promotor de um desenvolvimento do tipo ocidental, quer de fachada socialista quer capitalista. É com esta abordagem que o panorama parece dramático para a África Subsahriana, mesmo considerando unicamente as regiões do mundo em desenvolvimento.

2. A situação em Angola

2.1. As particularidades do sistema educativo angolano

4As condições específicas que Angola apresenta no contexto do Sistema-Mundo permitem explicar o interesse de múltiplas instituições/organizações internacionais na problemática angolana. A multiplicidade de missões de observação, de investigação e mesmo tendo por objectivo a implementação de acções de formação ao nível dos recursos humanos (gestores do sistema e professores), passando mesmo pela construção e reconstrução de edifícios, são disso a prova.
  • 8 Segundo dados oficiais, 10 hab/km2 em 1995.
  • 9 Fundação Calouste Gulbenkian, «Universidade Agostinho Neto: estudo global», Maio de 1987.
  • 10 1º Projecto de Educação do Banco Mundial.
  • 11 UNESCO-UNICEF-MEC, «Angola: opções para a reconstrução do sistema educativo. Estudo sectorial», tom (...)
5Num país onde a baixa densidade populacional8 constitui um factor positivo no processo de desenvolvimento em que a sociedade angolana parece querer participar, são múltiplos os estudos que apontam o caminho a seguir pela Educação, nomeadamente os levados a cabo pela Fundação Gulbenkian9, o Banco Mundial10 e ainda pela UNICEF e a UNESCO11.
6A situação de ausência de uma política de educação, não tem como causa o pouco conhecimento da situação real do funcionamento da educação no território ou a falta de conhecimento do rumo a seguir, mas antes a falta de empenhamento e decisão a nível político, justificado pela prioridade dada ao esforço de guerra (até ao desaparecimento de Savimbi) em detrimento das áreas sociais, como a educação.
7A situação de instabilidade social que se vive em Angola tem como consequência a definição de prioridades políticas e estratégicas que marginalizam completamente uma política de educação. Assim, os estudos estão feitos num Ministério da Educação praticamente inoperante como estrutura, esvaziado de políticas, de técnicos e de dinâmica, em parte consequência de uma reduzida fatia de orçamento. 
  • 12 No trabalho de campo realizado em 1998 foi possível verificar a existência da FESA (Fundação Eduard (...)
8Só um aumento significativo da fatia orçamental poderia aumentar a capacidade de intervenção do Ministério com consequências em todo o território sob controle do Governo12.
  • 13 Particularmente o Banco Mundial que financiou os estudos até 1998, a União Europeia, o Banco Africa (...)
9A investigação, in loco, permitiu verificar que a assistência técnica das organizações internacionais tem vindo a incentivar uma Reforma do Sistema Educativo que aponta para modelos europeus, particularmente para o modelo da Reforma do Sistema Educativo Português, anterior à actual revisão curricular, mesmo a nível do faseamento da sua implementação, com evidentes preocupações de experimentação prévia. Por outro lado, o comportamento dos técnicos do Ministério leva a considerar que a reforma em preparação e proposta pelas instituições internacionais seja vista como uma forma de angariar fundos e apoios políticos mostrando a boa vontade dos angolanos face a um determinado tipo de desenvolvimento13, situação, aliás, verificada noutras áreas, nomeadamente na área económica.
10O empenhamento em interiorizar o modelo de desenvolvimento proposto pelas instituições internacionais e mesmo em aceitar alguma forma de apadrinhamento é rejeitada pelos técnicos. A ilustrar esta constatação, registe-se a exigência dos técnicos do ME em pretender receber vencimentos pagos pelo BM, no desenvolvimento do seu trabalho. Isto é, no trabalho de preparação da reforma, não sentem que participam em representação do Ministério da Educação de Angola, mas sentem que estão a trabalhar para uma organização internacional, o BM, pelo que deveriam receber uma remuneração igual à dos técnicos estrangeiros, seus parceiros. Regista-se ainda que, toda a dinâmica do 1.º Projecto de Educação do BM praticamente não saiu do espaço onde se movimentam os técnicos envolvidos no projecto, não tendo tradução visível no terreno, além da recuperação e construção de alguns equipamentos (nomeadamente salas de aula).
11A falta generalizada de verbas para a educação faz com que, quem não está directamente envolvido e, consequentemente, quem não recebe um vencimento em dólares, considera que a Reforma não lhe diz respeito. De facto, o trabalho nas escolas continua com o mesmo ritmo e as mesmas dificuldades, centradas na falta de instalações, equipamento, material didáctico e professores habilitados. Para além das causas meramente económicas e ligadas à urgência da sobrevivência, num contexto de inflação galopante que afecta particularmente os funcionários públicos, pode-se acrescentar a dificuldade em aderir à mudança, propriamente dita.
12Deve-se considerar que, passar de um sistema socialista onde, na prática, não se exigia dos funcionários grande criatividade, para um sistema mais liberal, onde há espaço para a responsabilização e se exige maior empenhamento e envolvimento, não é fácil, tendo ainda em conta as mudanças recentes que se traduziram sempre em situações sucessivamente negativas.
13Por outro lado, a situação do sistema educativo nas cidades e particularmente em Luanda é muito diferente da situação do resto do país. A situação da educação das províncias é nitidamente de autogestão. Parece mesmo não haver grande interesse na articulação das estruturas a nível regional (que funcionam com grande autonomia), com as estruturas nacionais. Pode mesmo considerar-se que a província onde o Ministério da Educação exerce algum controle sobre o território educativo é mesmo e só a província de Luanda.
  • 14 Essas dificuldades não são de ordem técnica, como falta de transporte ou de segurança, mas de carác (...)
  • 15 «1. As delegações Provinciais e Municipais da Educação são orgãos desconcentrados que têm por funçõ (...)
14Em todas as outras províncias, o funcionamento do sistema é de autogestão, com ligações muito pontuais à estrutura do Ministério da Educação, quantas vezes só substanciada no preenchimento de mapas de frequência e aproveitamento de final de ano lectivo, que muitas vezes nem chegam a Luanda, devido a dificuldades de comunicação14. As Delegações Provinciais de Educação, como se pode verificar no Estatuto Orgânico do Ministério da Educação, têm uma dupla subordinação: por um lado, devem obedecer ao MED, em questões directamente ligadas ao sistema educativo e às políticas educacionais; por outro lado, articulam-se também com as estruturas dos Governos Provinciais em cujo orçamento se integram15.
  • 16 Achille MBEMBE (1996), «Des rapports entre la rareté matérielle et la démocratie en Afrique Subsaha (...)
15Assim, as dificuldades criadas pela situação de guerra, nomeadamente a pouca segurança na circulação de pessoas e, o facto de, as verbas em geral e muito particularmente para o ensino, se terem tornado um bem escasso16, tem intensificado, na prática, a regionalização, encontrando-se o sistema educativo fragmentado por províncias sendo, de facto, gerido pelo Delegado Provincial que tem todo o interesse em se articular intimamente com o Governador Provincial e mesmo com a delegação provincial do Partido (neste caso, do MPLA). É este facto, da dupla tutela versus dupla subordinação que permite explicar a falta de conhecimento, em termos numéricos, que o Departamento de Estatística do MED tem, em relação a muitas províncias, embora esses números existam. Contudo, a Delegação Provincial de Educação não sente grande urgência em comunicar com o MED, quando as suas ligações privilegiadas são, de facto, o Governador Provincial e a sede de partido na província.

2.2. O sistema educativo angolano. A situação em finais dos anos 90.

  • 17 No território sob controle da UNITA as escolas continuam a funcionar com os programas oficiais do p (...)
16Da independência ao período do multipartidarismo formal, o sistema educativo angolano sofreu alguns sobressaltos marcados por «reformas» apressadas, desenhadas em gabinete, sem debate público e da comunidade educativa e implementada com a rapidez dos contextos específicos das sociedades em erupção político/social17.
17A febre da militância com o objectivo imediato de acabar com o analfabetismo e implementar uma escola gratuita para todos, com vista à construção do «Homem Novo», incluiu nos materiais pedagógicos, fortes cargas ideológicas de cariz marxista/leninista. A ideologia que formalmente ainda sobrecarrega os programas actuais já foi abolida da prática pedagógica, pelo menos pelos professores suficientemente próximos dos centros que emanam as orientações das práticas pedagógicas adequadas à política educacional, definida pelo Governo.
18Se se considerar o afastamento de muitos professores desse centro, pode-se mesmo considerar o seu desconhecimento relativamente às alterações da política educacional e portanto a sua prática pedagógica assentará no discurso marxista/leninista, quer dos programas ainda vigentes quer dos conteúdos dos manuais escolares, ainda em uso.
19A situação de transição caracterizada pela manutenção dos antigos programas, despidos de carga ideológica e dos antigos manuais pode não se observar na globalidade do território.
20Assim, a situação que se vive em Angola, em termos de práticas em sala de aula, pode sintetizar-se nestes termos:
21a) Os professores suficientemente próximos do centro que emana directrizes pedagógicas e que simultaneamente tiveram acesso a acções de formação de professores e/ou tenham acesso a outras fontes de documentação que não sejam os manuais escolares, ensinarão os conteúdos programáticos dos curricula em vigor, despidos do excesso de carga ideológica;
22b) Os professores que, embora suficientemente próximos do centro não tiveram oportunidade de discutir esta problemática e/ou não concordem com as propostas ministeriais, porque a única formação que conhecem é a marxista-leninista, podem continuar com o discurso pedagógico já elaborado ao longo dos anos;
23c) Os professores longe dos centros emanadores de novas orientações, sem informação, sem documentos novos, logo a sua situação não é marcada por qualquer situação de transição, pelo que, quando chegarem a estes professores os novos programas e os novos manuais, a mudança irá ser significativa.

2.3. Como é que a população angolana resolve os problemas de educação?

24A sociedade angolana vive, desde as primeiras eleições pluripartidárias de 1992, um período de forte instabilidade social, política e económica, típico aliás, das transições políticas recentes em sociedades onde os regimes de partido único dão lugar a regimes pluripartidários e/ou muitas vezes pseudo-pluripartidários, como é o caso angolano.
25O retorno da UNITA à guerrilha após a derrota eleitoral de Outubro de 1992, como forma de preservar o poder adquirido no período da guerra, particularmente entre a independência e as eleições e o esforço do MPLA em se manter no Governo, radicalizando as suas posições políticas e aumentando significativamente o esforço de guerra, contribuíram fortemente para o enfraquecimento das estruturas do aparelho de Estado. Todo o esforço do Estado Angolano se centrou na preservação das posições conquistadas, pelo que as preocupações sociais permaneceram em planos secundários, como aconteceu com o desenvolvimento da educação.
26O vazio deixado pelo êxodo de quadros portugueses e mesmo angolanos no período pós-independência tem sido parcialmente preenchido pela forte militância dos que ficaram e pelos quadros cubanos e da Europa de Leste. A saída destes deixou, na área de educação, uma situação deficitária ainda hoje longe de poder ser resolvida.

As limitações ao funcionamento do Ministério da Educação

27O sector da educação de qualquer país do mundo exige quadros especializados para atingir os seus objectivos, por mínimos que estes sejam.
28Estes objectivos, definidos pelo Governo, são posteriormente consubstanciados no Orçamento Geral do Estado que, em planos de médio e/ou longo prazo, deve promover a criação de condições para o desenvolvimento da educação.
29Ora, a situação política neste período não só não elegeu a educação como área prioritária, canalizando para a educação fatias reduzidas do orçamento do estado, como, por necessidade de satisfazer outras vertentes consideradas mais prioritárias como a segurança, a defesa e mesmo os interesses da classe dirigente, a parte destinada à educação foi muitas vezes desviada.
30A situação criada por este «ignorar» desta área social traduziu-se na paralização das estruturas do Ministério da Educação por evidente falta de verbas, quer para pessoal quer mesmo para o funcionamento da própria estrutura e no baixíssimo nível de rendimento quer dos funcionários/quadros do Ministério, quer dos professores que auferem rendimentos que não lhes permitem sobreviver.
31Entretanto, quer a estrutura do Ministério da Educação, quer a legislação ou a preparação técnica e política dos seus quadros não permitiram chegar a soluções, tal como a promoção da iniciativa privada, tendo-se vindo a instalar na população de diferentes níveis sócio-económicos, o sentimento generalizado de falta de educação e da necessidade de terem de desenvolver estratégias que lhes permitam resolver os seus problemas, também nesta área.
32As estratégias desenvolvidas pela população angolana para resolver os seus problemas de educação prendem-se com as estratégias de sobrevivência dos professores. Assim, torna-se importante começar por analisar, embora de forma resumida, quem são os professores angolanos e como sobrevivem.

As estratégias de sobrevivência dos professores

33Independentemente do seu nível de habilitações, os salários auferidos pelos professores angolanos enquanto tais, não permitem um rendimento que garanta a sua sobrevivência e a da sua família. Assim, muitas vezes exercem outra ou outras profissões paralelamente, de forma a conseguirem um complemento que lhes permita sobreviver com alguma dignidade.
34Esta situação acontece quer com os professores do I, II ou III nível, quer com os professores universitários. E, se no período do monopartidarismo, ser professor era importante porque permitia o acesso às lojas dos quadros do estado, onde existiam os melhores produtos ao melhor preço, embora os salários não fossem muito elevados, agora os professores, muitas vezes, optam por se demitir, em qualquer momento do ano lectivo, sempre que encontram outra actividade que lhes garanta melhor rendimento. Outros ainda, usam a escola como fonte de rendimento complementar. Assim, para além do baixo salário que auferem, «vendem» as matrículas e as «passagens» de ano/nível, variando os valores em função dos níveis de escolaridade.
35Outros ainda, acumulam a actividade docente numa escola do estado com o serviço docente no ensino privado mais formal ou mesmo numa sala de explicações.
  • 18 A expressão «processo» é usada em Angola para significar actividades, normalmente informais, que se (...)
36É ainda vulgar os professores acumularem a actividade docente com actividades no sector informal (vão para o «processo»18), como forma de conseguir condições mínimas de sobrevivência.

As Necessidades de Educação Ressentidas pela População das Cidades

37A chegada forçada de população às cidades, quer por consequência da guerra civil, quer pela luta pela sobrevivência e tentativa, virtual, de melhorar as suas condições de vida, mistura nestas, famílias pertencentes a diferentes etnias, comunicando em línguas regionais, muitas vezes expressando-se mal em português. 
38Embora, na prática, a língua veicular seja o português, a importância das línguas regionais e o reconhecimento da enorme massa de população rural que tenta sobreviver nas cidades traduz-se, por exemplo, nos noticiários em línguas regionais na TPA (Televisão Popular de Angola).
39O esforço de integração social das massas oriundas do campo passa pelo seu envolvimento em instituições próximas, que não são a comunidade aldeã mas pode ser a «organização de bairro», o «comité de bairro», «a igreja» e a «escola».
40A promoção social faz-se pela aquisição de habilitações e esta só se adquire na escola. Mesmo as famílias mais desfavorecidas se preocupam em mandar os filhos à escola, embora reconhecendo que estes, no «processo» conseguem rendimentos melhores do que quem anda ou andou na escola. «Ir à escola» é, na prática, uma estratégia de integração social, no contexto da cidade.

Os que ficam fora do Sistema Educativo

41Uma parte significativa da população das cidades fica fora do sistema educativo. A chegada recente à cidade e a necessidade de sobreviver, não permite a parte da população ter acesso à escola, dado que não sobram recursos para libertar as crianças do trabalho ou da mendicidade e muito menos para «pagar» a entrada na escola oficial ou a entrada e a mensalidade num dos múltiplos tipos de escolas privadas.
42Se a família não tem recursos mas consegue libertar algumas crianças do trabalho para as mandar à escola há, anualmente, um determinado número de vagas a serem preenchidas por crianças de idade mais avançada, isto é, entram no primeiro ano do I nível, alunos com dez ou onze anos e mesmo mais velhos. Neste caso, o aluno só precisa ter algum material escolar, no mínimo um caderno e um lápis e muitos acabam por abandonar a escola por não conseguirem adquirir um caderno no mercado. Outros, não têm possibilidade de conseguir uma «bata branca» e a pressão dos professores acaba por fazê-los desistir da escola.
43Este é um dos contingentes de analfabetos de Angola, os que vivem abaixo de níveis de sobrevivência, recentemente chegados à cidade, sem profissão e para muitos deles, a cidade é uma passagem, motivada pela guerra e pela miséria. São a franja que, oriunda das sociedades tributárias não conseguiram ligar-se ao aparelho do estado. É este grupo que, eventualmente, irá tomar o caminho de retorno para as sociedades de origem onde é possível desenvolver mecanismos tradicionais de sobrevivência.

Os que frequentam as escolas públicas das cidades

44Mesmo para frequentar uma escola pública, teoricamente gratuita, é necessário um significativo investimento familiar, justificado pela necessidade de reprodução e/ou promoção social.
45O necessário investimento reverte a favor da sobrevivência dos professores, como já se referiu, e consiste na sua essência, no pagamento informal de uma «taxa» de matrícula, proporcional ao nível de ensino, na compra de material didáctico essencial e ao pagamento informal de uma taxa de passagem de ano.
46Em muitas escolas é ainda necessário levar uma cadeira, mas noutras a maoiria das vezes uma carteira individual é partilhada por dois alunos. É ainda vulgar os alunos terem de se sentar numa pedra ou no chão no espaço da sala de aula num edíficio de cimento, de «pau a pique» ou ao ar livre.
  • 19 É de notar que muitos funcionários públicos, dos quais muitos professores, têm saído do sistema que (...)
47A este grupo pertencem quer os filhos dos funcionários públicos, pertencentes à classe-estado de nível baixo ou intermédio, quer dos pequenos empresários que desenvolvem a sua actividade no sector informal19.
48O rendimento destas famílias tem ainda de suportar o custo das «explicações» que permitem melhorar o nível de conhecimentos dos alunos mas também o rendimento dos professores.
49Independentemente do pagamento em dólares encontra-se ainda outras formas, particularmente nos níveis de ensino mais elevados e no ensino para adultos e que correspondem à oferta/ pedido de oferta de alguns bens (e mesmo favores sexuais).
50Este grupo, que se consegue apoderar do sistema de ensino público, conseguindo conhecimentos (as cunhas) e/ou recursos para contribuir para a manutenção do sistema, constitui a pequena burguesia, dinâmica e que luta para não se deixar destruir pelas contingências de uma economia em mudança. Por outro lado, as classes-estado de nível baixo e intermédio, não pertencendo aos níveis hierárquicos superiores do aparelho de Estado e do Partido, usufruem, devido às suas ligações, dos benefícios do sistema .
  • 20 Média de idades do Ensino Superior cerca de 30 anos; são estes que, na maioria, não tendo acesso a (...)
51É esta Pequena Burguesia que, com os Quadros Médios, frequenta as escolas quer do Ensino Básico quer do Ensino Médio quer mesmo do Ensino Superior. Muitos alunos do Ensino Médio já trabalham, desempenhando mesmo, alguns, as funções de professor e por outro lado, quase todos os alunos do Ensino Superior são funcionários do Estado ou de empresas privadas20.

2.4. O ensino privado. Uma tipologia das escolas privadas

52O contacto com a realidade educacional da sociedade central Angolana permitiu verificar a existência de escolas privadas cuja origem aconteceu num quadro formal, isto é, o seu surgimento respondeu a um quadro legal instituído. Por outro lado, muitas outras escolas surgem espontaneamente, para responder a necessidades específicas da população. O aparecimento destas escolas não tem o objectivo de pressionar o poder ou as instituições oficiais, mas antes de resolver os problemas de educação de múltiplos grupos sociais. Não havendo lugares para todos nas escolas existentes, todas do Estado (no período do partido único), e não existindo enquadramento legal para o funcionamento de escolas particulares, as salas onde se ensina a ler e a escrever vão surgindo. A estas escolas chamo «escolas espontâneas», em detrimento de «privadas», adjectivo usado neste trabalho para qualificar escolas que se enquadram nos objectivos políticos da legislação do ensino privado, regulamentado por decretolei de 1992.
53O Ensino Privado aparece oficialmente pela publicação do Dec. 21/91 de 22 de Junho e traduz, por um lado, a incapacidade do Estado em satisfazer a procura de educação, e por outro lado, a pressão exercida pela classe-estado e burguesia emergente desejosas de protagonizar dinâmicas próprias dos países capitalistas.
54Embora este movimento se tenha iniciado particularmente em Luanda, cidade onde esta realidade é mais visível, o interesse pelas escolas privadas vai alastrando a outras cidades, capitais de província.
55No período de partido único, face à incapacidade do Estado em garantir o ensino para todos, as classes sociais que não tinham recursos e relações suficientemente íntimas com o poder para conseguir um lugar numa sala de aula, começam por colocar os filhos em «salas de explicações». A classe-Estado envia, então, os filhos para o estrangeiro ou coloca-os nas escolas estrangeiras que sempre foram funcionando, mesmo no período do monopartidarismo.
56Esgotada a escolaridade nesses estabelecimentos, os filhos são então encaminhados para colégios fora, normalmente nos países dos colégios frequentados em Angola.
57Com a abertura ao capitalismo, aos interesses da classe-Estado juntam-se os interesses dos quadros superiores, quer nacionais quer estrangeiros, das empresas multinacionais a operar em Angola, esgotando assim a lotação das referidas escolas ligadas, muitas delas, às embaixadas.
58A publicação do decreto 21/91 vai de encontro às aspirações de vários sectores ligados è educação e em consequência:
59a) as «salas de explicações» vão solicitar a sua legalização e, por consequência, o seu reconhecimento como escolas privadas;
60b) as várias comunidades religiosas vão solicitar a desnacionalização das suas antigas instalações, com particular incidência para a Igreja Católica, considerada parceira privilegiada pela estrutura do ME, funcionando praticamente com os mesmos interesses das instituições do estado;
61c) alguns interesses económicos, ligados à classe-Estado, surgem com o objectivo de, recuperando antigas instalações deixadas pelos colonos, reconstituírem os antigos colégios.
62Contudo, a existência de legislação e mesmo de vontade política nos níveis mais elevados da estrutura do estado para permitir o desenvolvimento de ensino privado, não tem correspondência na prática das instituições ou de quem as representa com vista à abertura do sistema educativo a privados.
  • 21 Ministério da Educação. «I. Projecto Educação. Estudo sobre o Desenvolvimento do Ensino Particular (...)
63Com excepção da Igreja Católica, poucas são as pessoas ou instituições capazes de conseguir a legalização e funcionamento, sem obstáculos intransponíveis. Por este facto, os empreendimentos de maior importância aparecem sempre ligados à classe-Estado, cujo empenhamento e ligações político/partidárias permite levar a bom termo os projectos de constituição de escolas privadas. Mesmo outras comunidades religiosas que não sejam a Igreja Católica encontram dificuldades na legalização das suas escolas. O trabalho de campo realizado em Agosto de 1998 permitiu recolher documentação21 que, caso as propostas sejam implementadas pelo Ministério da Educação virão inviabilizar, a um nível muito mais elevado, o funcionamento de salas de aula onde se ensina a ler e a escrever. As propostas de apoio financeiro quer a escolas quer a alunos do ensino privado não passam mesmo de proposições teóricas dada a dificuldade manifesta de financiamento do próprio sistema público.

Uma tipologia da Escolas Privadas

a) As Escolas espontâneas

64São escolas ligadas às diferentes comunidades religiosas, com excepção da Igreja Católica. Grande parte da população das cidades de Angola é constituída por uma população rural, que procura a cidade porque a guerra e as suas consequências, como a minagem dos campos e a dificuldade de circulação de pessoas e bens, têm consequências muito práticas, como o perigo das actividades agrícolas em campos minados, as dificuldades na aquisição de sementes e alfaias por mais elementares que estas sejam, e mesmo a dificuldade de escoamento/troca de produtos.
65Neste contexto, a cidade acaba por ser um espaço mais seguro num compasso de espera interrompido por períodos de paz que vão criando expectativas mas não condições reais para o regresso às terras de origem. Assim, para quase todos, a cidade apresenta-se como um ambiente socialmente hostil onde, para sobreviver, a população procura esquemas de organização semelhantes aos que funcionam nas suas regiões de origem.
66Nas regiões rurais, é ainda o soba que é o interlocutor entre as populações e as autoridades do estado moderno, é o soba que pede o professor e que junto com a população lhe constrói a casa e a escola.
67Quando chega à cidade, a população rural integra-se nas comunidades religiosas, não tanto em função do «credo», mas antes em função da etnia de origem do chefe religioso. O pastor da Igreja substitui então, mesmo que provisoriamente, a autoridade tradicional, pelo que lhe é igualmente solicitado que resolva os seus problemas de educação. Se a integração na sociedade urbana passa pela escola, se o acesso não é para todos, então a instituição mais próxima da população, a Igreja, vai ter de resolver esse problema.
68Assim, junto ao edifício onde funciona o culto, começam a aparecer salas de aula, AS SALAS ANEXAS, antes e depois da existência de legislação que formalize o ensino privado. O número de salas de aula vai aumentando, longe dos locais de culto, nos «bairros», onde vivem as crianças.
  • 22 As escolas que não têm paralelismo pedagógico, isto é, que não cumprem os requisitos legais para se (...)
69Mais recentemente questões muito práticas, como o reconhecimento da qualidade pedagógica do ensino ministrado nessas escolas sem a necessidade dos alunos terem de fazer exames (e pagá-los22) nas escolas oficiais, tem levado os responsáveis por essas escolas a tentarem a sua legalização, o que normalmente se arrasta por vários anos.
  • 23 Devido às «taxas» informais de matrícula e de passagem de ano.
70Embora este tipo de escola seja privada, os alunos contribuem com uma mensalidade que permite essencialmente pagar aos professores, recrutados entre as famílias de crentes, normalmente ainda alunos do Ensino Médio Normal (onde se formam os professores) e manter a escola a funcionar. Esta mensalidade representa custos mais reduzidos do que os da escola oficial23.
71Uma importante particularidade de muitas destas escolas é o facto de aceitarem receber alunos e particularmente alunas com idades muito superiores às adequadas aos níveis de aprendizagem que necessitam frequentar. Estes alunos não tiveram acesso à escola pública, tendo-se, no entanto, candidatado ano após ano; pertencem aos estratos sociais mais desfavorecidos que se vão aproximando das Igrejas no processo de integração na cidade.

b) As antigas «Salas de Explicações»

72Após 1992, muitas «Salas de Explicações», frequentadas por quem não tinha acesso à escola, têm tentado a sua legalização. Embora o processo burocrático não seja intransponível quando as instituições têm alguma dimensão, muitas vezes, os entraves criados pelas estruturas do estado a pequenas escolas são difíceis de resolver pelos seus proprietários. 
73Assim, as condições físicas são um primeiro entrave, sempre exagerado pela circunstância de que «os proprietários querem é lucro e imediato», segundo o ponto de vista dos técnicos do Ministério da Educação, em vários níveis da estrutura.
74Neste sentido, são inúmeras as escolas privadas que, solicitando a sua legalização por já existirem, de facto, com conhecimento das respectivas delegações provinciais de educação, com alunos contabilizados, não são, de facto, escolas privadas legais. Isto é, o Ministério considera os alunos dessas escolas como integrados no sistema de ensino mas não reconhece a existência legal das escolas.
75O conhecimento da existência destas escolas chega à delegação provincial de educação pelas mãos dos interessados em legalizar a escola, dado que a própria delegação reconhece a dificuldade em controlar a proliferação de escolas, por falta de recursos.

c) As Escolas da Igreja Católica

76A Igreja Católica, particularmente após 1992 começou a receber as suas antigas instalações escolares, embora em estado de degradação maior ou menor, dependendo das funções que exerceram nos últimos anos, após a independência.
77A capacidade económica da instituição religiosa e a sua capacidade de mobilização de recursos económicos e igualmente a fácil articulação com o poder, herdado do período colonial, tem permitido a sua implementação no terreno como interlocutor privilegiado, em questões de educação.
78O reconhecimento oficial da incapacidade do Estado em resolver o problema da educação tem como uma das consequências o apelo a entidades privadas de reconhecida credibilidade que aparecem na cena pública como parceiros em questões de educação.
79Assim, a Igreja Católica apresenta-se mesmo com capacidade e aceitação da estrutura do Ministério para impor normas de funcionamento das estruturas do Ministério e alterar as existentes.
80O interregno entre o confiscar os bens da Igreja e a sua reposição não mudou muito a posição da Igreja Católica que continua a seleccionar os alunos dentro de determinados padrões sociais. Enquanto algumas escolas são destinadas à socialização dos excluídos, outras escolas contribuem para a reprodução da elite no poder.

d) Os Colégios ou Externatos

81Os interesses económicos que pretendem envolver-se em projectos de ensino com qualidade suficiente para oferecerem vantagens económicas, tentam aproveitar antigas instalações, negociando geralmente com o Estado a reconstrução de edifícios que, no período colonial, exerciam a mesma função ou similar.
82Conseguir instalações de dimensão suficiente para apresentar as melhores economias de escala não é fácil e normalmente a estratégia utilizada é a ligação dessas vontades a figuras influentes do aparelho do Estado. Sem o apadrinhamento do segmento dirigente da classe-Estado, o desenvolvimento de actividades de algum interesse económico, na área da educação, é muito difícil. Sem este apadrinhamento ao mais alto nível, os técnicos do Ministério usam o argumento de que, se os edifícios têm condições para o ensino particular também as têm para o ensino público.
83Os professores destas instituições são angariados entre os antigos professores do período colonial, outros são mesmo recrutados entre os quadros das empresas, embora para os níveis de ensino mais elevados.
84Dado que a mensalidade é relativamente elevada para o nível de vida de Angola (cem dólares em 1996), os alunos pertencem à classe-estado e aos quadros (portugueses e angolanos) de empresas multinacionais que operam no território. Para além da escola portuguesa, situação marginal relativamente à questão que se pretende estudar, são estas as escolas que apresentam melhores condições físicas e pedagógicas. A afluência de alunos é elevada e muitas vezes os pais têm de utilizar a mesma estratégia que a pequena burguesia em relação às escolas públicas: compram uma vaga a um dos professores da escola.
85Esta cedência de vagas aos professores constitui um comportamento generalizado das instituições, quer públicas quer privadas e que é útil, quer para os professores quer para os que pretendem o acesso a uma instituição escolar.

e) As escolas das ONG’s

86Embora muitas das ONG’s a operar em Angola se preocupem com as questões da educação, regra geral promovem a construção de escolas entregando-as posteriormente ao Ministério da Educação. Algumas, como a ADPP (Ajuda ao Desenvolvimento do Povo para o Povo) desenvolvem a sua actividade em várias áreas, embora a sua relação com o ensino seja mais a nível da formação de professores.
87A complexidade do funcionamento das ONG´s e o facto da educação ser só um segmento da sua actividade em Angola, não permitirá abordar este tipo de escolas neste trabalho.

2.5. Uma proposta de Diferenciação Social

88A observação da sociedade angolana, particularmente da sociedade de Luanda, pela óptica da educação, permitiu distinguir grupos sociais bem diferenciados, função essencialmente das estratégias que operacionalizam para terem acesso a algum tipo de educação.
89No limite inferior da sociedade de Luanda (e mesmo das outras cidades) encontramos os que, oriundos das sociedades tributárias e do interior, chegam à cidade e não conseguem integrar-se na sociedade central. São analfabetos na maioria e parte irá regressar às regiões de origem quando o ambiente político for propício. Tradicionalmente viviam duma agricultura de subsistência que a guerra tornou impraticável. Têm dificuldade de integração na cidade e alguns levam os filhos a frequentar as «salas anexas» das igrejas ou as «salas de explicações» (escolas a que chamamos «espontâneas»).
90A pequena burguesia é constituída por funcionários públicos pertencentes à classe-Estado de nível mais baixo e intermédio e pequenos empresários que desenvolvem a sua actividade no sector informal. Foi este grupo que se apropriou do ensino público.
91A classe-Estado de nível intermédio-superior e nível superior tem acesso às escolas privadas de nível elevado (colégios e externatos), às melhores escolas das comunidades religiosas (particularmente da Igreja Católica) e às bolsas de estudo ainda disponíveis, particularmente oferecidas pelas grandes empresas angolanas (como a Sonangol) e pelos países ocidentais. A este nível da classe-estado pertencem militares de patente elevada, outros são quadros superiores do MPLA., quadros superiores do Estado ou Novos Empresários saídos das fileiras das Forças Armadas, do Partido ou do Estado. Têm boas relações com as «diplomacias» ocidentais e mantêm, às vezes, os seus filhos nas escolas ligadas às embaixadas em Luanda (escola portuguesa, francesa, alemã). Findo o ensino ministrado nessas escolas, os filhos vão directamente para colégios dos países em questão, naturalmente com bolsas quer concedidas pelos países de acolhimento quer pelas empresas do estado.

3. Conclusões

92Em Angola, no que se refere à educação, a relação do Ministério da Educação com o Banco Mundial era mais uma relação de fachada com o objectivo de angariar fundos e apoios diplomáticos do que uma parceria com vista a reestruturar o sistema educativo do país.
93Se se considerar que a dependência da economia angolana do Banco Mundial não é tão importante em termos percentuais como, por exemplo, em relação a Moçambique, por outro lado, a instabilidade da situação política ainda não permite ver um rumo definido, na política educativa. O 1º Projecto do Banco Mundial prolongou-se num espaço que não cobria o território. Também o controle territorial das ONG’s não é muito evidente devido à instabilidade que se vive. No entanto, seria interessante verificar o papel do Banco Mundial no desenvolvimento e na via escolhida para esse desenvolvimento, sendo que o BM usa as políticas educacionais dos estados como instrumento e não como meio para chegar ao desenvolvimento.
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Bibliografia

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Notas

1 Patrick V. DIAS (1990), «Educação e Desenvolvimento na África subsahariana. Desajustamentos conceptuais e logros ideológicos», in Revista Internacional de Estudos Africanos, n.ºs 12-13, pp. 263-320.
2 Diríamos que, quando o crescimento económico se traduz no bem estar da população, isto é, em mais e melhor saúde, educação, habitação, então haverá desenvolvimento. Com  mais propriedade, K.  K. Prah [(1990), «Classe , ideologia e prática do desenvolvimento em África», in Revista Internacional de Estudos Africanos, 12-13, p. 185] considera que a ideia de desenvolvimento em África deve ultrapassar o estritamente económico. A frente cultural é uma das esfera das mais importantes em que o desenvolvimento se inscreve socialmente. A cultura deve ser entendida «como a soma total da criação do homem como animal social». Assim, «a cultura é a medida superior do desenvolvimento, uma vez que inclui as instituições económicas, políticas e outras instituições sociais, tanto ao nível material como não material». Donde Prah defende a tese (p. 186) de que «só o uso ilimitado e aperfeiçoado dos alicerces culturais africanos pode fornecer uma rampa de lançamento para o desenvolvimento africano. O desenvolvimento da «sociedade ocidental» em África só pode ser conseguido sobre fundamentos culturais puramente africanos».
3 «Educação não-formal é, como a educação formal, uma actividade organizada e sistemática, mas que, ao contrário desta, se dirige a certos grupos da população com vista a aprendizagens determinadas: formação profissional de jovens e adultos, vulgarização agrícola, educação sanitária e nutritiva, etc.», Lê Thânh KHÔI (1990), «Educação, cultura e desenvolvimento em África», in Revista Internacional de Estudos Africanos, nº.s 12-13, pp. 321-330.
4 Ressalvam-se em Moçambique a maior preocupação com a educação das raparigas , por ser um Estado sob forte influência muçulmana.
5 Com excepção da Nigéria.
6 «Public policy does not reflect demands of masses but rather the prevailing values of the elite. Changes in public policy will be incremental rather than revolutionary. Active elites are subject to relatively direct influence from apathetic masses. Elites influence masses more than elites», T. R. DYE (1978), Understanding Public Policy, Englewood Cliffs, New Jersey, Prentice-Hall, p. 26.
7 «O sistema educativo actual perdeu a sua função de dar legitimidade, de criar identidade, de qualificar e de distribuir posições por respeito à maioria da população; ele funciona para consolidar a estrutura autoritária de classe em proveito de grupos dominantes, em vez de assegurar a liberdade, a igualdade, a auto-determinação, a criação de competência e a auto-confiança da maioria dos sujeitos históricos, em cada uma das nossas sociedades», P. V. Dias, ibidem.
8 Segundo dados oficiais, 10 hab/km2 em 1995.
9 Fundação Calouste Gulbenkian, «Universidade Agostinho Neto: estudo global», Maio de 1987.
10 1º Projecto de Educação do Banco Mundial.
11 UNESCO-UNICEF-MEC, «Angola: opções para a reconstrução do sistema educativo. Estudo sectorial», tomos I e II, Dezembro 1993.
12 No trabalho de campo realizado em 1998 foi possível verificar a existência da FESA (Fundação Eduardo dos Santos), com capacidade de concentrar recursos significativos, alguns deles aplicados na reconstrução de escolas. O trabalho de campo não permitiu identificar a origem dos fundos da FESA. Registe-se, no entanto, que o curador da FESA era simultaneamente o Vice-Ministro para a Reforma Educativa.
13 Particularmente o Banco Mundial que financiou os estudos até 1998, a União Europeia, o Banco Africano para o Desenvolvimento, o FNUAP/ UNESCO, o Gabinete Africano das Ciências da Educação, a UNICEF, o SADC, British Council, Fundação Calouste Gulbenkian e a Embaixada Francesa.
14 Essas dificuldades não são de ordem técnica, como falta de transporte ou de segurança, mas de carácter económico. O MED não tem (não tinha, quer em 1996, quer em 1998) verbas para a circulação dos seus técnicos de estatística pelo território e, por outro lado, a própria estrutura do MED não propõe outra estratégia de fazer chegar os dados ao Departamento de Estatística. Ressalve-se a situação que deu origem ao documento do Gabinete de Estudos e Planeamento, sobre a «Situação Educacional em Angola, ano lectivo 1996», publicado em Luanda em Agosto de 1997 e que apresenta algumas das deficiências do sistema educativo do país.
15 «1. As delegações Provinciais e Municipais da Educação são orgãos desconcentrados que têm por funções executar a política educacional, acompanhar e controlar as orientações e directrizes superiormente definidas e recolher os dados operacionais para a concepção de medidas de âmbito local. 2. As Delegações Provinciais e Municipais de Educação estão sujeitas às orientações técnicas, normas e regulamento do Ministério da Educação e administrativamente do Governo Provincial». Decreto-Lei n.º 13/95 de 27 de Outubro, Estatuto Orgânico do MED, Cap. III, Secção VI, art.º 25.
16 Achille MBEMBE (1996), «Des rapports entre la rareté matérielle et la démocratie en Afrique Subsaharienne», in Societés Africaines et Diaspora, 1, pp. 13-39.
17 No território sob controle da UNITA as escolas continuam a funcionar com os programas oficiais do período colonial mais recente. Um representante da UNITA em Lisboa e contactos tidos próximo da cidade do Huambo (em território controlado pela UNITA) justificam esta situação pelo facto de a situação de guerra não ter permitido criar condições para que se fizesse uma reforma curricular adequada às necessidades de Angola.
18 A expressão «processo» é usada em Angola para significar actividades, normalmente informais, que se incluem nas estratégias de sobrevivência individuais e/ou familiares. Sai-se do Ministério, na hora do expediente para se ir para o processo; abandona-se o emprego, onde não se ganha o suficiente, onde não se ganha quase nada, para se ir para o processo, onde com sorte os rendimentos são mais elevados. O processo está quase sempre ligado ao comércio informal, nos inúmeros mercados existentes em Luanda.
19 É de notar que muitos funcionários públicos, dos quais muitos professores, têm saído do sistema quer para se dedicarem a actividades do sector terciário em empresas privadas quer do sector informal, como seja o comércio nos mercados que proliferam nas cidades e particularmente em Luanda.
20 Média de idades do Ensino Superior cerca de 30 anos; são estes que, na maioria, não tendo acesso a bolsas para o estrangeiro, investem nos recursos que o Estado ainda oferece e utilizam esses recursos na esperança de garantir a sua reprodução social.
21 Ministério da Educação. «I. Projecto Educação. Estudo sobre o Desenvolvimento do Ensino Particular em Angola», Setembro de 1997. Financiado pelo Banco Mundial.
22 As escolas que não têm paralelismo pedagógico, isto é, que não cumprem os requisitos legais para serem reconhecidas como ministrando um ensino do mesmo nível do oficial, solicitam exames para os seus alunos ao MED. O MED exige o pagamento de uma taxa por aluno, que não é fixa, dada a inflação galopante e que deve ser suficiente para pagar aos professores que elaboram as provas, o papel e todo o material didáctico necessário para concluir o processo. Em relação a este assunto foram as únicas informações que se conseguiram recolher junto da Delegação Provincial de Educação de Luanda. Ainda se deve considerar que estas escolas, sem paralelismo pedagógico, não são por isso escolas ilegais; são antes escolas que solicitaram autorização de funcionamento ou a sua legalização mas o seu processo ainda não está terminado, ou por estar incompleto ou ainda não cumprir todas as exigências da legislação. Um importante factor que impede a regularização da situação das escolas privadas é a difícil mobilidade dos técnicos do Ministério, que não têm à sua disposição meios de transporte que lhes permitam fazer as necessárias vistorias.
23 Devido às «taxas» informais de matrícula e de passagem de ano.
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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Maria João da Silva Mendes Ferreira, « Educação e Política em Angola. Uma proposta de diferenciação social », Cadernos de Estudos Africanos, 7/8 | 2005, 105-124.

Referência eletrónica

Maria João da Silva Mendes Ferreira, « Educação e Política em Angola. Uma proposta de diferenciação social », Cadernos de Estudos Africanos [Online], 7/8 | 2005, posto online no dia 17 Setembro 2013, consultado o 25 Abril 2017. URL : http://cea.revues.org/1070 ; DOI : 10.4000/cea.1070
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Maria João da Silva Mendes Ferreira

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terça-feira, 25 de abril de 2017

O Enfermeiro como Educador: Uma contribuição da didática e da metodologia dialética na atuação profissional



Luciana Angelo L. Campos

Resumo: A atuação do profissional enfermeiro na área de ensino apresenta-se como uma temática pertinente em um momento de transformações no ensino caracterizado por mudanças sociais e novas demandas educacionais da atualidade. Este estudo objetivou refletir sobre a formação deste profissional, o perfil exigido para uma atuação que atenda as necessidades do mercado de trabalho e principalmente dos educandos e a contribuição da didática e da metodologia dialética para a formação profissional do docente. Foi utilizada a metodologia de pesquisa bibliográfica em livros e artigos nacionais. Pode-se concluir que para uma excelente pratica educacional se faz necessário que se tenha conhecimento na área pedagógica e sobre o processo de ensino-aprendizagem e de todos os elementos envolvidos no processo: aluno, professor e objeto de estudo. Palavras- chave: enfermeiro- educador, formação, didática e dialética.

Abstract: The role of professional nurses in the field of education presents itself as a relevant theme in a moment of transformation in education characterized by social change and new demands of education today. This study aimed to reflect on the training of professional, the profile required for a performance that meets the needs of the labor market and especially the students and the contribution of didactics and methodology of dialectic for training of teachers. We used the methodology of literature in books and articles nationals. It can be concluded that for a good educational practices is necessary to have knowledge in teaching and the teaching-learning process and everyone involved in the process: student, teacher and subject of study. Keywords: nurse-teacher, training, didactics and dialectics.
INTRODUÇÃO
Conforme a necessidade atual de se formar um profissional com características que atendam as perspectivas do mercado de trabalho contemporâneo é que vem se repensando a prática pedagógica do enfermeiro professor. O processo de redirecionamento na formação dos profissionais de enfermagem deve estar voltado para as transformações sociais. Portanto, o profissional de ensino em saúde deve integrar suas atividades á realidade dos alunos e incorporar aspectos inerentes à sociedade globalizada deste século. (RODRIGUES; SOBRINHO, 2007).
O enfermeiro é um educador por natureza, pois ele é responsável por orientar os pacientes em prol da prevenção de doenças e da promoção da saúde. Mais além de desenvolver atividades de educação em saúdeatendendo necessidades sociais, atua como docente em diversos níveis de educação escolar.
Essa realidade nos faz questionar: Qual tem sido a conduta de trabalho do professor enfermeiro frente à realidade atual?Os enfermeiros que atuam na área de educação estão preparados para enfrentar os conflitos no processo de trabalho educacional e social?Quais têm sido as crenças e valores que orientam a prática pedagógica dos enfermeiros-educadores?(VASCONCELOS; PRADO, 2004).
Segundo os autores citados acima, os profissionais enfermeiros que atuam na área educacional enfrentam diversos fatores que causam sofrimento e dificuldades no desenvolver de sua atividade pedagógica. Esses fatores vão desde os problemas de falta de valorização profissional, má remuneração, dificuldade em refletir, transmitir, compreender e ser compreendido pelo educando, capacitação técnico-pedagógica e deficiência no relacionamento com os alunos.
Para Rodrigues e Sobrinho(2007)é necessário que haja sempre a capacitação contínua de preparo técnico, teóricoe pedagógico inserida no contexto econômico, político, social e cultural para que haja transformações na atuação do enfermeiro-educador. Os sistemas educacionais modernos, atualizados, empreendedores, possuírem percepção e serem capazes de oferecer condições de trabalho atendendo aos anseios dos professores e alunos(VASCONCELOS; PRADO, 2004).
Para Rodrigues e Sobrinho(2007), a formação do educador é colocada como um dos principais fatores que podem levar à melhoria da educação. Assim, a reflexão a cerca da formação do docente enfermeiro é fundamental devido à complexidade da práticaprofissional inserida no processo de ensino-aprendizagem.
Vasconcelos e Prado(2004) afirmam que o enfermeiro educador entende que sua prática profissional exige competência e comprometimento, mais a partir daí deve ser repensado que o saber, o saber fazer e o saber ser, estão na mão do enfermeiro educador, condição principal de sua atividade de trabalho. Por isso que o planejamento de seu trabalho deve estar relacionado ao processo de ensino-aprendizagem.
O Ministério de educação e Cultura diz ainda que as definições de estratégias de educação que articule esses saberes, de aprender, de fazer, de conviver, de ser, visam desenvolver o aprender a aprender, a conviver junto, a valorização das condições éticas e humanas, como também, desenvolver atitudes e valores orientados para a cidadania e para a solidariedade. Todos esses atributossão indispensáveis à formação do enfermeiro e o educador em saúde deve assegurar-se através de estratégias de ensino baseados nessa perspectiva de educação. Educar para a cidadania ea participação plena na sociedade(FERNANDES, 2004)
È fundamental que o professor crie condições para que o aluno desenvolva sua criticidade, voltada para análise de problemas, substituindo explicações empíricas por princípios autênticos, refutando posições alienantes, tornando-se questionador. (VILLA; CADETE, 2001 apud FREIRE, 1979). O educando e o educador aprendem com a realidade, estabelecem uma relação dialógica, no qual ambos se beneficiam .O professor deixa de ser o detentor do saber para compartilhar conhecimentos com os alunos que chegam a escolas imbuídos de saberes e experiências que servirão de ponto de partida para o processo ensino-aprendizagem(VILLA;CADETE,2001).
Para Fernandes(2004), no desenvolvimento da aprendizagem, a postura que o professor assume diante do aluno, baseada no respeito, na confiança, na percepção do aluno como ser integral, favorece mudanças na forma de agir e sentir do aluno que se considera melhor no seu papel como pessoa e profissional.
Aescolha da pedagogia de ensino a ser aplicada, deve direcionar como o sujeito irá se comportar socialmente A postura reflexiva do aluno diante o objeto de estudo, permitirá uma posição crítica e o tornará capaz de tomar decisões acertadas diante das dificuldades(VILLA; CADETE, 2001).
Assim, exige-se do professor competências para a docência: ser competente em uma área do conhecimento, ou seja, dominar conhecimentos básicos e possuir certa experiência profissional, ter domínio na área pedagógica, que significa dominar o conceito de ensino-aprendizagem, integrando o desenvolvimento cognitivo, afetivo-emocional e de habilidades que significa utilizar estratégias adequadas (RODRIGUES; SOBRINHO, 2007 apud MASSETO, 2001).
O objetivo deste artigo foi repensar a respeito da formação do profissional enfermeiro que atua na área de ensino em âmbito escolar, analisar o perfil necessário para uma docência de qualidade e refletir sobre acontribuição da didática e do método dialético para a formaçãodo professor numa perspectiva reflexiva. Foi realizada uma revisão bibliográfica incluindo publicações em livros e artigos publicados em língua nacional.
Esta temática é de suma importância em virtude da necessidade de ampliar a concepção do enfermeiro educador a cerca da capacitação pedagógica fundamental à atuação docente, repensando sua prática, verificando quais estratégias permitem que o aluno seja atuante no processo de ensino-aprendizagem, ou seja, participativo na construção de seu conhecimento, dando oportunidade ao professor de exercer seu papel de educador com excelência. A discussão será apresentada em três tópicos: O professor no contexto social, a contribuição da didática para formação do professor e o método dialético.
FUNDAMENTAÇÂO TEÒRICA
O PROFESSOR NO CONTEXTO SOCIAL
Nas últimas décadas tem-se questionado a importância do professorno processo ensino- aprendizagem, principalmente pelo fácil acesso às informações fora da sala de aula proporcionado pelo avanço cientifico- tecnológico que ocorreu de forma avassaladora e atingiu todas as classes sociais. Essa realidade dá margem a questões como: o professorresponde as necessidades sociais da atualidade? Qual a função do ensino hoje?O quê ensinar? Como ensinar? (GASPARIN, 2005).
Diante de profundas mudanças que a modernidade desencadeou, onde a sociedade encontra-se em crise de valores e princípios, no qual somos levados a refletir e repensar nossas posições e atitudes,o papel do profissional de educação precisa ser analisado. Partindo da premissa de que a educação e o ensino fazem parte do contexto social e, como este se modifica, a educação e ensino também se tornam dinâmicos. Dessa forma é que educador precisa estar sempre se atualizando (HAIDT, 2003).
O trabalho do professor é parte primordial do processo educativo mais amplo e global pelo qual os membros da sociedade são preparados para a participação ativa na vida social. Para o funcionamento de uma sociedade é necessário que haja a prática educativa, ou seja, a educação (LIBÂNEO, 2003).
Um computador nunca poderá substituir um professor pelo fato de que lhe falta o privilégio humano de gesticular, de falar, de passar emoção, de vibrar com as conquistas dos alunos, de ser interrompido fazendo-lhe refazer sua linha de discussão, de debater e abrir-se ao diálogo(REI [ ] apud CHALITA, 2001). Portanto o professor é fundamental ao aluno, assim como o aluno é fundamental ao professor, é dessa interação que nasce o processo de ensino-aprendizagem, que se constroem conhecimentos, que nascem cidadãos críticos e atuantes na vida social (REI) [ ]
Para Libâneo (2003), a prática educativa é uma exigência da vida em sociedade, atribui ao indivíduo conhecimentos e experiências culturais que os tornam capazes de atuar no meio em que vive e transformá-lo em função das necessidades de todos os aspectos, políticos, sociais e econômicos da coletividade.
Ruiz (2000) afirma que, educadores e educadoras necessitam ser a ponte entre o aluno e a sociedade, percebendo as possibilidades da ação social e cultural na luta pela transformação do meio, através do encontro do aluno com o conhecimento.
Libâneo (2003) diz ainda que, o docente em seu exercício profissional deve permanentemente empenhar-se para instrução e educação dos seus alunos, de forma que desenvolvam e dominem conhecimentos básicos e habilidades, com o objetivo de capacitá-los no trabalho e enfrentar ativamente os problemas sociais.
Gabriel Chalita(2001), em seu livro "Educação - a solução é o afeto"diz que o professor em meio todos os aparatos materiais como computadores, laboratórios, quadras esportivas e materiais didáticos, sempre terá maior destaque. Sem o professor, grande agente do processo educacional, nenhum desses recursos tem valor, mesmo sendo importantes (REI) [ ].
Rei [ ] relata que desde os primórdios o professor tem função vital na construção de uma sociedade ativa. As escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles discutiam apenas o que era essencial, através da reflexão a cerca do mundo que os rodeavam e dos problemas que o atingiam. Dessa forma não perdiam tempo com conteúdos engessados, e a aula era preparada visando todo esse amadurecimento dos alunos (REI) [ ]
Para o exercício da profissão educacional há necessidade da formação do professor, não apenas a graduação e a pós-graduação, mas a formação continuada, para que acompanhe todo o processo de transformação social que ocorre permanentemente. Não basta que conheça especificamente uma disciplina e sim todas as áreas que perpassem a disciplina que leciona, e ainda mais importante, conhecer o aluno e todas as suas necessidades. Tudo que for inerente ao aluno deve ser de interesse do professor para que atue com maestria no processo educacional (REI) [ ]
O papel do profissional de educação precisa ser repensado justamente porque não pode mais agir de forma estanque e neutra. Não pode mais desenvolver sua atividade pautando-se em métodos e técnicas e conteúdos apenas. Não pode ser omisso e alheio aos problemas que atingem o homem e o meio em que vive. É exigida desse profissional uma posição concreta sobre tudo que acontece, sua opinião, suas crenças e idéias. É visto com alguém que tem opinião formada e pode dar um parecer sobre as coisas, dialogar e problematizar situações. (RUIZ, 2003)
Anastasiou [ ], afirma que cabe ao professor planejar, preparar e conduzir o processo contínuo de ações que possibilitem aos estudantes, até mesmo os que têm maiores dificuldades, irem aos poucos e conforme seu desenvolvimento, apreendendo o que se pretende oquadro teórico-prático, em momentos seqüenciais e de complexidade crescente. O professor que não prepara as aulas não tem seus objetivos alcançados, não respeita o aluno e a própria profissão.
O ponto de partida para o educador é acreditar naquilo que ensina, é ter convicção, só assim os alunos se sentirão mobilizados e se envolverão em seus ensinamentos(REI, [ ] apud CHALITA, 2001). Resgatar sua verdadeira função de professorde ensinar, orientar, preparar para a vida e dar condições aos alunos de adentrar a uma vida profissional é tarefa primordial na formação do educador. È buscando uma prática competente, assumindo uma responsabilidade para com seus educandos, que ele realizará a tarefa de transformar pelo conhecimento, pela conscientização(LINS, 2008).
De acordo com Sacristán e Gómez (1998) na sociedade contemporânea, a escola perdeu a supremacia na transmissão e distribuição da informação. Os meios de comunicação de massa, que estão em todos os cantos, oferecem de modo atrativo à maioria dos cidadãos uma grande bagagem de informações variadas. Tais informações vão criando de modo sutil e imperceptível concepções ideológicas que serão utilizadas para explicar e interpretar a realidade bem como tomar decisões. Os indivíduos chegam à escola com uma gama de informações e com poderosas e acríticas pré- concepções sobre os diferentes âmbitos da realidade.
É possível perceber, que os modernos meios de comunicação cumprem a função apenas da reprodução da cultura dominante do que a reelaboração critica da mesma, não se preocupam em oferecer ferramentas para que o sujeito se torne autônomo para um debate aberto e racional sobre qualquer aspecto da vida. Somente a escola pode cumprir essa missão. A partir da análise das pré- concepções e interesses dos educandos acerca da realidade, oferecer condições de questionamento e comparação para construção de uma nova visão, com base na troca de suas relações anteriores (SACRISTÁN, GÓMEZ 1998).
A CONTRIBUIÇÃO DA DIDÁTICA PARA A FORMAÇÃO DO PROFESSOR
Em todas as esferas da vida social existe a atividade educativa de formas diferentes de organização. A educação escolar é um sistema de instrução diferenciado porque possui propósitos intencionais, práticas sistematizadas e alto grau de organização. O conhecimento é democratizado, formando a capacidade de pensar criticamente os problemas e desafios postos pela sociedade. Dessa maneira, a formação profissional do professor visa à atividade específica de docência, sendo a didática e as metodologias especificas das matérias contribuintes para formação técnico- prática necessária a atuação profissional (LIBÂNEO, 2003).
Para Haidt (2003), a didática é definida como a ciência e a arte do ensino. Considera ao mesmo tempo a aprendizagem por parte do aluno e o ensino por parte do professor. Pode-se afirmar que a didática é o estudo da situação instrucional, ou seja, do processo de ensino- aprendizagem que enfatiza esta relação.
Nessa direção, Veiga (2005) diz que a didática é, essencialmente, compreendida e analisada do ponto de vista da concepção do ato de ensinar que coloca em evidencia a atuação do educador transmitindo diretamente conhecimentos específicos, conduzindo e estimulando democraticamente a aprendizagem do aluno, como também, no planejamento de atividades, almejando alcançar objetivos.
Bordenave e Pereira(2002), no livro "Estratégias de ensino-aprendizagem"apontam como uns dos principais problemas do ensino superior o professor. Muitos pela falta de preparação didática, demonstram insegurança no seu relacionamento com os alunos e, para manter sua autoridade e sua auto-imagem, recorrem a um comportamento de auto-proteção, como por exemplo, formalidade na comunicação, nível exagerado de exigência e complexidade nas provas, tom irônico e sarcástico para dominar aqueles que não correspondem com suas expectativas.
Visando a transformação da prática educativa desenvolvida pela escola, a didática traz como conteúdo o desenvolvimento de projetos adequados aos interesses dos alunos, da comunidade escolar e da sociedade, novas tecnologias de comunicação e educação, trabalhos interdisciplinares e coletivos e experiências de aprendizagem que valorizem a construção do conhecimento pela participação ativa dos alunos (VEIGA, 2005).
Nesse contexto, a didática, é uma disciplina pedagógica de natureza teórico- prática voltada para a compreensão do ensino e não está minimizada ao simples domínio das técnicas de orientação didática. Culmina a elaboração de pressupostos teóricos críticos, a discussão teórica dos problemas e os desafios da prática, a proposição de implicações metodológicas para o processo pedagógico no sentido de colaborar para a superação das relações de dominação (Arnoni, et al 2002).
Libâneo (2003) relata que a didática trata das relações e ligações importantes entre o ensino e a aprendizagem, investiga os fatores que influenciam esse processo, indica condições e meios para que o ensino realmente produza conhecimento. Portanto o estudo da didática permite maior segurança profissional, de modo que o professor ganhe base para pensar sua prática e melhore cada vez mais sua atuação e qualidade de seu trabalho.
Bordenave e Pereira (2002) declaram que o segredo do bom ensino é o entusiasmo pessoal do professor que vem de seu amor a ciência e aos alunos. Este entusiasmo só é possível mediante planejamento e metodologia adequados visando acima de tudo uma resposta positiva dos alunos em realizarem atividades por iniciativa própria lançando mão de esforço intelectual e moral que a aprendizagem exige.
Desse modo, a finalidade de se estudar didática é desmistificar o processo de ensino, campo principal da educação escolar. São os conteúdos dos programas e dos livros didáticos, os métodos eformas organizacionais do ensino, as atividades do professor e dos alunos e as diretrizes que regulam e orientam esse processo. È fundamental para o profissional que vai atuar na área de educação escolar o estudo do processo de ensino, é uma forma de garantir métodos seguros e eficazes para a assimilação dos conhecimentos. A didática tem essa função: estudar o processo de ensino e colaborar com a formação profissional do educador centrado na relação ensino-aprendizagem (LIBÂNEO, 2003).
O MÉTODO DIALÉTICO
A mediação pedagógico-dialética é uma relação dialética que caracterizao processo de ensino e o processo de aprendizagem, uma vez que, em ambos os sujeitos envolvidos lidam com saberes, o mediato e o imediato(ARNONI, 2006). Esse método de ensino considera que a realidade não pode ser diretamente apreendida pelo sujeito, sendo necessário que a mesma seja apreendida pelo pensamento e no pensamento, portanto, tendo a reflexão como condição fundamental (ANASTASIOU) [ ].
Na perspectiva da mediação dialética, o processo de ensino-aprendizagem é trabalhado com dois saberes; o saber científico e o saber cotidiano, ambos representandodiferentementeo ambiente natural e social. No desenvolver do trabalho educativo, esses saberes não são hierarquizados, e sim igualmente valorizados de forma que o saber cotidiano é imediato e o saber científico, mais elaborado e fruto de reflexão, o saber mediato. Assim, pela mediação dialética, se defrontam os dois saberes, gera-se a contradição, responsável pelo movimento do processo ensino-aprendizagem. Ocorre a superação do imediato pelo mediato, onde o aluno elabora suas sínteses, o saber propriamente aprendido. (ARNONI, 2004)
Para Arnoni(2006), a metodologia da mediação dialética consiste em uma proposição metodológica formada por uma seqüência de situações de ensino(processo de ensino) que potencializa ao aluno a aprendizagem do conteúdo trabalhado(processo de aprendizagem). Exige uma preparação organizada e articulada por parte de quem ensina. A mediação dialética possibilita ao professor planejar suas ações prevendo intervir de forma ativa no processo de aprendizagem, permitindo a elaboração do conhecimento pelo aluno.
O professor que age no contexto da reflexidade dialética desenvolve sua capacidade julgadora. È capaz de apropriar-se criticamente e permanentemente de uma realidade complexa. A teoria reflexiva tem o papel de oferecer aos professores perspectivas de análise para compreenderem os contextos históricos, sociais, culturais, organizacionais e de si mesmos como profissionais, nos quais se dá sua atividade docente, para nele intervir, transformando-os ( ARNONI, 2004))
Para Anastasiou [ ], isto quer dizer que a apreensão que o professor/pesquisador faz de seu objeto de estudo, considerando os elementos do movimento, contradição, alteração qualitativa, e outros, é uma apreensão dialética. O professor quando analisa, registra e organiza a síntese de seu estudo para enfim transmitir está explicitando, através de textos, aula expositiva, ou qualquer atividade, as relações que fez as suas descobertas e elementos que foram acrescentados pelapesquisa realizada.
Em cada situação de ensino, o conteúdo é retomado de forma diferenciada, e cada uma delas serve de base para novas abordagens e para reflexões mais profundas seguintes. Dessa formaas situações de ensino nunca são estanques e isoladas,ao contrário,são totalmente interligadas e interdependentes. A metodologia dialética é composta por momentos pedagógicos ou etapas que favorecem essa reflexão (ARNONI, 2006).
Resgatar, que é o ponto de partida para o processo de ensino. Desse momento são descobertos os saberes cotidianos e imediatos sobre o objeto de estudo e feito uma comparação com aquilo que se pretende ensinar. È o diagnóstico do conhecimento prévioou empírico a cerca do tema. Problematizar, que se caracteriza pelo momento de questionar o saber imediato em direção ao saber mediato que se pretende. Não pode ser uma problematização facilitada, nem dificultada em demasia, para que possa ser compreendida e percebida pelo pensamento e ser entendida(ARNONI, 2006)
Para a autora citada acima, ainda restam dois momentos: sistematizar, que se caracteriza pela internalização do conhecimento. È a elaboração da síntese pelo aluno com o intermédio do diálogo promovido pelo professor. Produzir, que provisoriamente é o ponto de chegada do processo de ensino, de forma que logo será superado por novas sínteses. È um saber mais completo que se tinha no primeiro momento.
Para Anastasiou [ ], enquanto método tradicional visa à memorização, dando ênfase a aulas expositivas e questionários corrigidos e decorados, a metodologia dialética defende a construção do conhecimento no pensamento e pelo pensamento do aluno através de suas relações e com a mediação do professor.
A metodologia dialética entende o homem como ser ativo e de relações. Dessa forma, o conhecimento é construído pelo indivíduo a partir da interação com o mundo que o cerca. Assim, os conteúdos que são abordados na escola devem ser analisados, refletidos e reelaborados pelos alunos. O resultado é a construção do conhecimento próprio educando. A metodologia dialética aponta ser necessária a mobilização para o conhecimento, a construção do conhecimento e elaboração da síntese do conhecimento, fases inseparáveis e que devem fazer parte da preocupação do professor(VASCONCELLOS, 1992).
Segundo Vasconcellos(1992), o professor deve despertar o interesse pelo objeto de estudo. Fazer com que o aluno tenha vontade de saber mais sobre o que se pretende ensinar. Deve atribuir significado ao conteúdo de forma que se torne importante para o educando. Deve permitir que o aluno passe pelos três momentos da construção do conhecimento: síncrese, análise e síntese.E através do método dialético que vai do abstrato para o concretoconsiderando tal movimento do pensamento elaborar seu conhecimento particular e único.
Nesse contexto, é necessário planejar e desenvolver o trabalho educativo na perspectiva da mediação dialética, cujo cerne é a contradição. Dessa maneira, será possível a construção de sínteses onde os alunos poderão realmente aprender. Parao trabalho educativo possibilitar, de forma direta e intencionalmente, que cada aluno internalize os saberes científicos, produzidos pela humanidade, histórica e coletivamente, é fundamental que se adote os fundamentos da mediação dialética como embasamento pedagógico(ARNONI, 2004).
CONCLUSÃO
A reflexão sobre a formação do profissional enfermeiro que atua na área de educação nos permite afirmar que a prática educacional exige uma formação específica onde sejam considerados o processo de ensino-aprendizagem e os elementos que nele são envolvidos: o professor, o aluno e o objeto de estudo.
Dessa forma acredita-se que a relação de ensino-aprendizagem está diretamente relacionada à interação professor-aluno e suas trocas de saberes. È fundamental que o professor no momento do planejamento de suas atividades considere as experiências de seus alunos e a realidade de cada um para desenvolver seu papel de educador com qualidade.
O conhecimento na área pedagógica e implementação de estratégias que valorizem o educando como ser singular e capaz de participar ativamente do processo educacional possibilitam uma atuação docente que desencadeia a construção do conhecimento pelo alunoque será capaz de participar da vida em sociedade de forma significativa. Um bom educador em enfermagem tem de ter muito mais que boa vontade, tem de ter um perfil que se caracterizana preocupação com a formação crítica do aluno.
Nesse contexto, é de fundamental importância que se estabeleçam programas de educação continuada onde o educando possa refletir sua prática educacional, avaliar sua conduta e promover mudanças na forma de sentir, pensar e atuar das pessoas em relação a si mesmas e aos outros.
O enfermeiro educador necessita desenvolver a consciência de que não é o detentor do saber e nem o centro do processo educacional, e sim direcionar toda atividade profissional ao desenvolvimentoemocional, político e social do aluno para que possa colaborar realmente com a formação de profissionais éticos e capazes de superar dificuldades de qualquer natureza.
 INTRODUÇÃO

Conforme a necessidade atual de se formar um profissional com características que atendam as perspectivas do mercado de trabalho contemporâneo é que vem se repensando a prática pedagógica do enfermeiro professor. O processo de redirecionamento na formação dos profissionais de enfermagem deve estar voltado para as transformações sociais. Portanto, o profissional de ensino em saúde deve integrar suas atividades á realidade dos alunos e incorporar aspectos inerentes à sociedade globalizada deste século. (RODRIGUES; SOBRINHO, 2007).

O enfermeiro é um educador por natureza, pois ele é responsável por orientar os pacientes em prol da prevenção de doenças e da promoção da saúde. Mais além de desenvolver atividades de educação em saúde atendendo necessidades sociais, atua como docente em diversos níveis de educação escolar.

Essa realidade nos faz questionar: Qual tem sido a conduta de trabalho do professor enfermeiro frente à realidade atual?Os enfermeiros que atuam na área de educação estão preparados para enfrentar os conflitos no processo de trabalho educacional e social?Quais têm sido as crenças e valores que orientam a prática pedagógica dos enfermeiros-educadores?(VASCONCELOS; PRADO, 2004).

Segundo os autores citados acima, os profissionais enfermeiros que atuam na área educacional enfrentam diversos fatores que causam sofrimento e dificuldades no desenvolver de sua atividade pedagógica. Esses fatores vão desde os problemas de falta de valorização profissional, má remuneração, dificuldade em refletir, transmitir, compreender e ser compreendido pelo educando, capacitação técnico-pedagógica e deficiência no relacionamento com os alunos.

Para Rodrigues e Sobrinho(2007)é necessário que haja sempre a capacitação contínua de preparo técnico, teórico e pedagógico inserida no contexto econômico, político, social e cultural para que haja transformações na atuação do enfermeiro-educador. Os sistemas educacionais modernos, atualizados, empreendedores, possuírem percepção e serem capazes de oferecer condições de trabalho atendendo aos anseios dos professores e alunos(VASCONCELOS; PRADO, 2004).

Para Rodrigues e Sobrinho(2007), a formação do educador é colocada como um dos principais fatores que podem levar à melhoria da educação. Assim, a reflexão a cerca da formação do docente enfermeiro é fundamental devido à complexidade da prática profissional inserida no processo de ensino-aprendizagem.

Vasconcelos e Prado(2004) afirmam que o enfermeiro educador entende que sua prática profissional exige competência e comprometimento, mais a partir daí deve ser repensado que o saber, o saber fazer e o saber ser, estão na mão do enfermeiro educador, condição principal de sua atividade de trabalho. Por isso que o planejamento de seu trabalho deve estar relacionado ao processo de ensino-aprendizagem.

O Ministério de educação e Cultura diz ainda que as definições de estratégias de educação que articule esses saberes, de aprender, de fazer, de conviver, de ser, visam desenvolver o aprender a aprender, a conviver junto, a valorização das condições éticas e humanas, como também, desenvolver atitudes e valores orientados para a cidadania e para a solidariedade. Todos esses atributos são indispensáveis à formação do enfermeiro e o educador em saúde deve assegurar-se através de estratégias de ensino baseados nessa perspectiva de educação. Educar para a cidadania e a participação plena na sociedade(FERNANDES, 2004)

È fundamental que o professor crie condições para que o aluno desenvolva sua criticidade, voltada para análise de problemas, substituindo explicações empíricas por princípios autênticos, refutando posições alienantes, tornando-se questionador. (VILLA; CADETE, 2001 apud FREIRE, 1979). O educando e o educador aprendem com a realidade, estabelecem uma relação dialógica, no qual ambos se beneficiam .O professor deixa de ser o detentor do saber para compartilhar conhecimentos com os alunos que chegam a escolas imbuídos de saberes e experiências que servirão de ponto de partida para o processo ensino-aprendizagem(VILLA;CADETE,2001).

Para Fernandes(2004), no desenvolvimento da aprendizagem, a postura que o professor assume diante do aluno, baseada no respeito, na confiança, na percepção do aluno como ser integral, favorece mudanças na forma de agir e sentir do aluno que se considera melhor no seu papel como pessoa e profissional.

A escolha da pedagogia de ensino a ser aplicada, deve direcionar como o sujeito irá se comportar socialmente A postura reflexiva do aluno diante o objeto de estudo, permitirá uma posição crítica e o tornará capaz de tomar decisões acertadas diante das dificuldades(VILLA; CADETE, 2001).

Assim, exige-se do professor competências para a docência: ser competente em uma área do conhecimento, ou seja, dominar conhecimentos básicos e possuir certa experiência profissional, ter domínio na área pedagógica, que significa dominar o conceito de ensino-aprendizagem, integrando o desenvolvimento cognitivo, afetivo-emocional e de habilidades que significa utilizar estratégias adequadas (RODRIGUES; SOBRINHO, 2007 apud MASSETO, 2001).

O objetivo deste artigo foi repensar a respeito da formação do profissional enfermeiro que atua na área de ensino em âmbito escolar, analisar o perfil necessário para uma docência de qualidade e refletir sobre a contribuição da didática e do método dialético para a formação do professor numa perspectiva reflexiva. Foi realizada uma revisão bibliográfica incluindo publicações em livros e artigos publicados em língua nacional.

Esta temática é de suma importância em virtude da necessidade de ampliar a concepção do enfermeiro educador a cerca da capacitação pedagógica fundamental à atuação docente, repensando sua prática, verificando quais estratégias permitem que o aluno seja atuante no processo de ensino-aprendizagem, ou seja, participativo na construção de seu conhecimento, dando oportunidade ao professor de exercer seu papel de educador com excelência. A discussão será apresentada em três tópicos: O professor no contexto social, a contribuição da didática para formação do professor e o método dialético.

FUNDAMENTAÇÂO TEÒRICA

O PROFESSOR NO CONTEXTO SOCIAL

Nas últimas décadas tem-se questionado a importância do professor no processo ensino- aprendizagem, principalmente pelo fácil acesso às informações fora da sala de aula proporcionado pelo avanço cientifico- tecnológico que ocorreu de forma avassaladora e atingiu todas as classes sociais. Essa realidade dá margem a questões como: o professor responde as necessidades sociais da atualidade? Qual a função do ensino hoje?O quê ensinar? Como ensinar? (GASPARIN, 2005).

Diante de profundas mudanças que a modernidade desencadeou, onde a sociedade encontra-se em crise de valores e princípios, no qual somos levados a refletir e repensar nossas posições e atitudes, o papel do profissional de educação precisa ser analisado. Partindo da premissa de que a educação e o ensino fazem parte do contexto social e, como este se modifica, a educação e ensino também se tornam dinâmicos. Dessa forma é que educador precisa estar sempre se atualizando (HAIDT, 2003).

O trabalho do professor é parte primordial do processo educativo mais amplo e global pelo qual os membros da sociedade são preparados para a participação ativa na vida social. Para o funcionamento de uma sociedade é necessário que haja a prática educativa, ou seja, a educação (LIBÂNEO, 2003).

Um computador nunca poderá substituir um professor pelo fato de que lhe falta o privilégio humano de gesticular, de falar, de passar emoção, de vibrar com as conquistas dos alunos, de ser interrompido fazendo-lhe refazer sua linha de discussão, de debater e abrir-se ao diálogo(REI [ ] apud CHALITA, 2001). Portanto o professor é fundamental ao aluno, assim como o aluno é fundamental ao professor, é dessa interação que nasce o processo de ensino-aprendizagem, que se constroem conhecimentos, que nascem cidadãos críticos e atuantes na vida social (REI) [ ]

Para Libâneo (2003), a prática educativa é uma exigência da vida em sociedade, atribui ao indivíduo conhecimentos e experiências culturais que os tornam capazes de atuar no meio em que vive e transformá-lo em função das necessidades de todos os aspectos, políticos, sociais e econômicos da coletividade.

Ruiz (2000) afirma que, educadores e educadoras necessitam ser a ponte entre o aluno e a sociedade, percebendo as possibilidades da ação social e cultural na luta pela transformação do meio, através do encontro do aluno com o conhecimento.

Libâneo (2003) diz ainda que, o docente em seu exercício profissional deve permanentemente empenhar-se para instrução e educação dos seus alunos, de forma que desenvolvam e dominem conhecimentos básicos e habilidades, com o objetivo de capacitá-los no trabalho e enfrentar ativamente os problemas sociais.

Gabriel Chalita(2001), em seu livro "Educação - a solução é o afeto"diz que o professor em meio todos os aparatos materiais como computadores, laboratórios, quadras esportivas e materiais didáticos, sempre terá maior destaque. Sem o professor, grande agente do processo educacional, nenhum desses recursos tem valor, mesmo sendo importantes (REI) [ ].

Rei [ ] relata que desde os primórdios o professor tem função vital na construção de uma sociedade ativa. As escolas de Sócrates, Platão e Aristóteles discutiam apenas o que era essencial, através da reflexão a cerca do mundo que os rodeavam e dos problemas que o atingiam. Dessa forma não perdiam tempo com conteúdos engessados, e a aula era preparada visando todo esse amadurecimento dos alunos (REI) [ ]

Para o exercício da profissão educacional há necessidade da formação do professor, não apenas a graduação e a pós-graduação, mas a formação continuada, para que acompanhe todo o processo de transformação social que ocorre permanentemente. Não basta que conheça especificamente uma disciplina e sim todas as áreas que perpassem a disciplina que leciona, e ainda mais importante, conhecer o aluno e todas as suas necessidades. Tudo que for inerente ao aluno deve ser de interesse do professor para que atue com maestria no processo educacional (REI) [ ]

O papel do profissional de educação precisa ser repensado justamente porque não pode mais agir de forma estanque e neutra. Não pode mais desenvolver sua atividade pautando-se em métodos e técnicas e conteúdos apenas. Não pode ser omisso e alheio aos problemas que atingem o homem e o meio em que vive. É exigida desse profissional uma posição concreta sobre tudo que acontece, sua opinião, suas crenças e idéias. É visto com alguém que tem opinião formada e pode dar um parecer sobre as coisas, dialogar e problematizar situações. (RUIZ, 2003)

Anastasiou [ ], afirma que cabe ao professor planejar, preparar e conduzir o processo contínuo de ações que possibilitem aos estudantes, até mesmo os que têm maiores dificuldades, irem aos poucos e conforme seu desenvolvimento, apreendendo o que se pretende o quadro teórico-prático, em momentos seqüenciais e de complexidade crescente. O professor que não prepara as aulas não tem seus objetivos alcançados, não respeita o aluno e a própria profissão.

O ponto de partida para o educador é acreditar naquilo que ensina, é ter convicção, só assim os alunos se sentirão mobilizados e se envolverão em seus ensinamentos(REI, [ ] apud CHALITA, 2001). Resgatar sua verdadeira função de professor de ensinar, orientar, preparar para a vida e dar condições aos alunos de adentrar a uma vida profissional é tarefa primordial na formação do educador. È buscando uma prática competente, assumindo uma responsabilidade para com seus educandos, que ele realizará a tarefa de transformar pelo conhecimento, pela conscientização(LINS, 2008).

De acordo com Sacristán e Gómez (1998) na sociedade contemporânea, a escola perdeu a supremacia na transmissão e distribuição da informação. Os meios de comunicação de massa, que estão em todos os cantos, oferecem de modo atrativo à maioria dos cidadãos uma grande bagagem de informações variadas. Tais informações vão criando de modo sutil e imperceptível concepções ideológicas que serão utilizadas para explicar e interpretar a realidade bem como tomar decisões. Os indivíduos chegam à escola com uma gama de informações e com poderosas e acríticas pré- concepções sobre os diferentes âmbitos da realidade.

É possível perceber, que os modernos meios de comunicação cumprem a função apenas da reprodução da cultura dominante do que a reelaboração critica da mesma, não se preocupam em oferecer ferramentas para que o sujeito se torne autônomo para um debate aberto e racional sobre qualquer aspecto da vida. Somente a escola pode cumprir essa missão. A partir da análise das pré- concepções e interesses dos educandos acerca da realidade, oferecer condições de questionamento e comparação para construção de uma nova visão, com base na troca de suas relações anteriores (SACRISTÁN, GÓMEZ 1998).

A CONTRIBUIÇÃO DA DIDÁTICA PARA A FORMAÇÃO DO PROFESSOR

Em todas as esferas da vida social existe a atividade educativa de formas diferentes de organização. A educação escolar é um sistema de instrução diferenciado porque possui propósitos intencionais, práticas sistematizadas e alto grau de organização. O conhecimento é democratizado, formando a capacidade de pensar criticamente os problemas e desafios postos pela sociedade. Dessa maneira, a formação profissional do professor visa à atividade específica de docência, sendo a didática e as metodologias especificas das matérias contribuintes para formação técnico- prática necessária a atuação profissional (LIBÂNEO, 2003).

Para Haidt (2003), a didática é definida como a ciência e a arte do ensino. Considera ao mesmo tempo a aprendizagem por parte do aluno e o ensino por parte do professor. Pode-se afirmar que a didática é o estudo da situação instrucional, ou seja, do processo de ensino- aprendizagem que enfatiza esta relação.

Nessa direção, Veiga (2005) diz que a didática é, essencialmente, compreendida e analisada do ponto de vista da concepção do ato de ensinar que coloca em evidencia a atuação do educador transmitindo diretamente conhecimentos específicos, conduzindo e estimulando democraticamente a aprendizagem do aluno, como também, no planejamento de atividades, almejando alcançar objetivos.

Bordenave e Pereira(2002), no livro "Estratégias de ensino-aprendizagem"apontam como uns dos principais problemas do ensino superior o professor. Muitos pela falta de preparação didática, demonstram insegurança no seu relacionamento com os alunos e, para manter sua autoridade e sua auto-imagem, recorrem a um comportamento de auto-proteção, como por exemplo, formalidade na comunicação, nível exagerado de exigência e complexidade nas provas, tom irônico e sarcástico para dominar aqueles que não correspondem com suas expectativas.

Visando a transformação da prática educativa desenvolvida pela escola, a didática traz como conteúdo o desenvolvimento de projetos adequados aos interesses dos alunos, da comunidade escolar e da sociedade, novas tecnologias de comunicação e educação, trabalhos interdisciplinares e coletivos e experiências de aprendizagem que valorizem a construção do conhecimento pela participação ativa dos alunos (VEIGA, 2005).

Nesse contexto, a didática, é uma disciplina pedagógica de natureza teórico- prática voltada para a compreensão do ensino e não está minimizada ao simples domínio das técnicas de orientação didática. Culmina a elaboração de pressupostos teóricos críticos, a discussão teórica dos problemas e os desafios da prática, a proposição de implicações metodológicas para o processo pedagógico no sentido de colaborar para a superação das relações de dominação (Arnoni, et al 2002).

Libâneo (2003) relata que a didática trata das relações e ligações importantes entre o ensino e a aprendizagem, investiga os fatores que influenciam esse processo, indica condições e meios para que o ensino realmente produza conhecimento. Portanto o estudo da didática permite maior segurança profissional, de modo que o professor ganhe base para pensar sua prática e melhore cada vez mais sua atuação e qualidade de seu trabalho.

Bordenave e Pereira (2002) declaram que o segredo do bom ensino é o entusiasmo pessoal do professor que vem de seu amor a ciência e aos alunos. Este entusiasmo só é possível mediante planejamento e metodologia adequados visando acima de tudo uma resposta positiva dos alunos em realizarem atividades por iniciativa própria lançando mão de esforço intelectual e moral que a aprendizagem exige.

Desse modo, a finalidade de se estudar didática é desmistificar o processo de ensino, campo principal da educação escolar. São os conteúdos dos programas e dos livros didáticos, os métodos e formas organizacionais do ensino, as atividades do professor e dos alunos e as diretrizes que regulam e orientam esse processo. È fundamental para o profissional que vai atuar na área de educação escolar o estudo do processo de ensino, é uma forma de garantir métodos seguros e eficazes para a assimilação dos conhecimentos. A didática tem essa função: estudar o processo de ensino e colaborar com a formação profissional do educador centrado na relação ensino-aprendizagem (LIBÂNEO, 2003).

O MÉTODO DIALÉTICO

A mediação pedagógico-dialética é uma relação dialética que caracteriza o processo de ensino e o processo de aprendizagem, uma vez que, em ambos os sujeitos envolvidos lidam com saberes, o mediato e o imediato(ARNONI, 2006). Esse método de ensino considera que a realidade não pode ser diretamente apreendida pelo sujeito, sendo necessário que a mesma seja apreendida pelo pensamento e no pensamento, portanto, tendo a reflexão como condição fundamental (ANASTASIOU) [ ].

Na perspectiva da mediação dialética, o processo de ensino-aprendizagem é trabalhado com dois saberes; o saber científico e o saber cotidiano, ambos representando diferentemente o ambiente natural e social. No desenvolver do trabalho educativo, esses saberes não são hierarquizados, e sim igualmente valorizados de forma que o saber cotidiano é imediato e o saber científico, mais elaborado e fruto de reflexão, o saber mediato. Assim, pela mediação dialética, se defrontam os dois saberes, gera-se a contradição, responsável pelo movimento do processo ensino-aprendizagem. Ocorre a superação do imediato pelo mediato, onde o aluno elabora suas sínteses, o saber propriamente aprendido. (ARNONI, 2004)

Para Arnoni(2006), a metodologia da mediação dialética consiste em uma proposição metodológica formada por uma seqüência de situações de ensino(processo de ensino) que potencializa ao aluno a aprendizagem do conteúdo trabalhado(processo de aprendizagem). Exige uma preparação organizada e articulada por parte de quem ensina. A mediação dialética possibilita ao professor planejar suas ações prevendo intervir de forma ativa no processo de aprendizagem, permitindo a elaboração do conhecimento pelo aluno.

O professor que age no contexto da reflexidade dialética desenvolve sua capacidade julgadora. È capaz de apropriar-se criticamente e permanentemente de uma realidade complexa. A teoria reflexiva tem o papel de oferecer aos professores perspectivas de análise para compreenderem os contextos históricos, sociais, culturais, organizacionais e de si mesmos como profissionais, nos quais se dá sua atividade docente, para nele intervir, transformando-os ( ARNONI, 2004))

Para Anastasiou [ ], isto quer dizer que a apreensão que o professor/pesquisador faz de seu objeto de estudo, considerando os elementos do movimento, contradição, alteração qualitativa, e outros, é uma apreensão dialética. O professor quando analisa, registra e organiza a síntese de seu estudo para enfim transmitir está explicitando, através de textos, aula expositiva, ou qualquer atividade, as relações que fez as suas descobertas e elementos que foram acrescentados pela pesquisa realizada.

Em cada situação de ensino, o conteúdo é retomado de forma diferenciada, e cada uma delas serve de base para novas abordagens e para reflexões mais profundas seguintes. Dessa forma as situações de ensino nunca são estanques e isoladas,ao contrário,são totalmente interligadas e interdependentes. A metodologia dialética é composta por momentos pedagógicos ou etapas que favorecem essa reflexão (ARNONI, 2006).

Resgatar, que é o ponto de partida para o processo de ensino. Desse momento são descobertos os saberes cotidianos e imediatos sobre o objeto de estudo e feito uma comparação com aquilo que se pretende ensinar. È o diagnóstico do conhecimento prévio ou empírico a cerca do tema. Problematizar, que se caracteriza pelo momento de questionar o saber imediato em direção ao saber mediato que se pretende. Não pode ser uma problematização facilitada, nem dificultada em demasia, para que possa ser compreendida e percebida pelo pensamento e ser entendida(ARNONI, 2006)

Para a autora citada acima, ainda restam dois momentos: sistematizar, que se caracteriza pela internalização do conhecimento. È a elaboração da síntese pelo aluno com o intermédio do diálogo promovido pelo professor. Produzir, que provisoriamente é o ponto de chegada do processo de ensino, de forma que logo será superado por novas sínteses. È um saber mais completo que se tinha no primeiro momento.

Para Anastasiou [ ], enquanto método tradicional visa à memorização, dando ênfase a aulas expositivas e questionários corrigidos e decorados, a metodologia dialética defende a construção do conhecimento no pensamento e pelo pensamento do aluno através de suas relações e com a mediação do professor.

A metodologia dialética entende o homem como ser ativo e de relações. Dessa forma, o conhecimento é construído pelo indivíduo a partir da interação com o mundo que o cerca. Assim, os conteúdos que são abordados na escola devem ser analisados, refletidos e reelaborados pelos alunos. O resultado é a construção do conhecimento próprio educando. A metodologia dialética aponta ser necessária a mobilização para o conhecimento, a construção do conhecimento e elaboração da síntese do conhecimento, fases inseparáveis e que devem fazer parte da preocupação do professor(VASCONCELLOS, 1992).

Segundo Vasconcellos(1992), o professor deve despertar o interesse pelo objeto de estudo. Fazer com que o aluno tenha vontade de saber mais sobre o que se pretende ensinar. Deve atribuir significado ao conteúdo de forma que se torne importante para o educando. Deve permitir que o aluno passe pelos três momentos da construção do conhecimento: síncrese, análise e síntese. E através do método dialético que vai do abstrato para o concreto considerando tal movimento do pensamento elaborar seu conhecimento particular e único.

Nesse contexto, é necessário planejar e desenvolver o trabalho educativo na perspectiva da mediação dialética, cujo cerne é a contradição. Dessa maneira, será possível a construção de sínteses onde os alunos poderão realmente aprender. Para o trabalho educativo possibilitar, de forma direta e intencionalmente, que cada aluno internalize os saberes científicos, produzidos pela humanidade, histórica e coletivamente, é fundamental que se adote os fundamentos da mediação dialética como embasamento pedagógico(ARNONI, 2004).

CONCLUSÃO
A reflexão sobre a formação do profissional enfermeiro que atua na área de educação nos permite afirmar que a prática educacional exige uma formação específica onde sejam considerados o processo de ensino-aprendizagem e os elementos que nele são envolvidos: o professor, o aluno e o objeto de estudo.


Dessa forma acredita-se que a relação de ensino-aprendizagem está diretamente relacionada à interação professor-aluno e suas trocas de saberes. È fundamental que o professor no momento do planejamento de suas atividades considere as experiências de seus alunos e a realidade de cada um para desenvolver seu papel de educador com qualidade.


O conhecimento na área pedagógica e implementação de estratégias que valorizem o educando como ser singular e capaz de participar ativamente do processo educacional possibilitam uma atuação docente que desencadeia a construção do conhecimento pelo aluno que será capaz de participar da vida em sociedade de forma significativa. Um bom educador em enfermagem tem de ter muito mais que boa vontade, tem de ter um perfil que se caracteriza na preocupação com a formação crítica do aluno.

Nesse contexto, é de fundamental importância que se estabeleçam programas de educação continuada onde o educando possa refletir sua prática educacional, avaliar sua conduta e promover mudanças na forma de sentir, pensar e atuar das pessoas em relação a si mesmas e aos outros.

O enfermeiro educador necessita desenvolver a consciência de que não é o detentor do saber e nem o centro do processo educacional, e sim direcionar toda atividade profissional ao desenvolvimento emocional, político e social do aluno para que possa colaborar realmente com a formação de profissionais éticos e capazes de superar dificuldades de qualquer natureza.

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