segunda-feira, 9 de maio de 2016

ACTIVIDADES LÚDICAS A SEREM DESENVOLVIDAS NA COMUNIDADE DA LITERACIA

1. ACTIVIDADES LÚDICAS A SEREM DESENVOLVIDAS NA COMUNIDADE DA LITERACIA
1.1. O papel do educador
Para se ter dentro de instituições infantis o desenvolvimento de atividades lúdicas educativas, é de fundamental importância garantir a formação do professor e condições de atuação. Somente assim será possível o resgate do espaço de brincar da criança no dia-a-dia da escola ou creche.
"A esperança de uma criança, ao caminhar para a escola é encontrar um amigo, um guia, um animador, um líder - alguém muito consciente e que se preocupe com ela e que a faça pensar, tomar consciência de si de do mundo e que seja capaz de dar-lhe as mãos para construir com ela uma nova história e uma sociedade melhor". (ALMEIDA, 2004, p. 195)
No brincar espontâneo podemos registrar as ações lúdicas a partir da: observação, registro, análise e tratamento. Com isso, podemos criar para cada ação lúdica um banco de dados sobre o mesmo, subsidiando de forma mais eficiente e científica os resultados das ações. É possível também fazer o mapeamento da criança em sua trajetória lúdica durante sua vivência dentro de um jogo ou de uma brincadeira, buscando dessa forma entender e compreender melhor suas ações e fazer intervenções e diagnósticos mais seguros ajudando o indivíduo ou o coletivo. Com isso defini-se, a partir de uma escolha criteriosa, as ações lúdicas mais adequadas para cada criança envolvida, respeitando assim o princípio básico de individualidade de cada ser humano.
Já no brincar dirigido pode-se propor desafios a partir da escolha de jogos, brinquedos ou brincadeiras determinadas por um adulto ou responsável. Estes jogos orientados podem ser feitos com propósitos claros de promover o acesso a aprendizagens de conhecimentos específicos como: matemáticos, lingüísticos, científicos, históricos, físicos, estéticos, culturais, naturais, morais etc. E um outro propósito é ajudar no desenvolvimento cognitivo, afetivo, social, motriz, lingüístico e na construção da moralidade (nos valores). O educador tem como papel ser um facilitador das brincadeiras, sendo necessário mesclar momentos onde orienta e dirige o processo, com outros momentos onde as crianças são responsáveis pelas suas próprias brincadeiras.
É papel do educador observar e coletar informações sobre as brincadeiras das crianças para enriquecê-las em futuras oportunidades. Sempre que possível o educador deve participar das brincadeiras e aproveitar para questionar com as crianças sobre as mesmas. É importante organizar e estruturar o espaço de forma a estimular na criança a necessidade de brincar, também visando facilitar a escolha das brincadeiras. Nos jogos de regras o professor não precisa estimular os valores competitivos, e sim tentar desenvolver atitudes cooperativas entre as crianças. Que o mais importante no brincar é participar das brincadeiras e dos jogos.
A brincadeira permite à criança criar, imaginar e representar a realidade e as experiências por ela adquiridas. O bom brinquedo deve ser aquele com a qual a criança interage e que desperta sua imaginação. Uma boneca de pano, construída, quem sabe, por ela mesma, pode ser mais interessante do que uma boneca eletrônica, diante da qual ela se torna um mero espectador.
As atividades lúdicas fazem com que a criança aprenda com prazer, alegria, sendo relevante ressaltar que a educação lúdica está distante da concepção única de passatempo e de diversão. É de suma importância a utilização das brincadeiras e dos jogos no processo pedagógico, pois os conteúdos podem ser trabalhados por intermédio de atividades lúdicas contribuindo, dessa forma, para o crescimento global da criança.
Sabemos que a criança brinca porque gosta de brincar e, quando isso não acontece, alguma coisa pode não estar bem com ela. De modo geral, a criança traz consigo a inquietude da descoberta, da curiosidade e do querer aprender as coisas. Jogos e brincadeiras contribuem para o desenvolvimento motor, emocional e cognitivo da criança. É brincando com o mundo que ela aprende sobre ele e desenvolve a imaginação, a criatividade e a atenção. O brincar se torna cada vez mais importante na construção do conhecimento, oportunizando o prazer enquanto incorpora as informações e transforma as situações da vida real.




1.2. Tipos da actividade lúdica
Quanto ao tipo de actividades lúdicas existentes, são muitas, podemos citar:
  • Desenhar;
  • Brincadeiras;
  • Jogos;
  • Danças;
  • Construir colectivamente;
  • Leituras;
  • Softwares educativos;
  • Passeios;
  • Dramatizações;
  • Cantos;
  • Teatro de fantoches, etc.
As actividades lúdicas podem ser uma brincadeira, um jogo ou qualquer outra actividade que permita tentar uma situação de interacção. Porém, mais importante do que o tipo de actividade lúdica é a forma como é dirigida e como é vivenciada, e o porquê de estar sendo realizada. Toda criança que participa de actividades lúdicas, adquire novos conhecimentos e desenvolve habilidades de forma natural e agradável, que gera um forte interesse em aprender e garante o prazer. Na educação infantil, por meio das actividades lúdicas a criança brinca, joga e se diverte. Ela também age, sente, pensa, aprende e se desenvolve. As actividades lúdicas podem ser consideradas, tarefas do dia-a-dia na educação infantil.
De acordo com Teixeira (1995), vários são os motivo que induzi os educadores a apelar às actividades lúdicas e utilizá-las como um recurso pedagógico no processo de ensino-aprendizagem.  Segundo Schwartz (2002), a criança é auto-motivada para qualquer prática, principalmente a lúdica, sendo que tendem a notar a importância de actividades para o seu desenvolvimento, assim sendo, favorece a procura pelo retorno e pela manutenção de determinadas actividades.
Huizinga (1996), diz que numa actividade lúdica, existe algo “em jogo” que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à acção.
Para  Schaefer (1994), as actividades lúdicas promovem ou restabelecem o bem estar psicológico da criança. No contexto de desenvolvimento social da criança é parte do repertório infantil e integra dimensões da interacção humana necessária na análise psicológica (regras, cadeias comportamentais, simulações ou faz-de-conta aprendizagem observacional e modelagem).
Toda a actividade lúdica pode ser aplicada em diversas faixas etárias, mas pode sofrer intervenção em sua metodologia de aplicação, na organização e no prover de suas estratégias, de acordo com as necessidades peculiares das faixas etárias. As atividades lúdicas têm capacidade sobre a criança de gerar desenvolvimento de várias habilidades, proporcionando a criança divertimento, prazer, convívio profícuo, estímulo intelectivo, desenvolvimento harmonioso, autocontrole, e auto-realização. O educador deverá propiciar a exploração da curiosidade infantil, incentivando o desenvolvimento da criatividade, das diferentes formas de linguagem, do senso crítico e de progressiva autonomia.  Como também ser activo quanto às crianças, criativo e interessado em ajudá-las a crescerem e serem felizes, fazendo das actividades lúdicas na educação Infantil excelentes instrumentos facilitadores do ensino-aprendizagem. As actividades lúdicas, juntamente com a boa pretensão dos educadores, são caminhos que contribuem para o bem-estar, entretenimento das crianças, garantindo-lhes uma agradável estadia na creche ou escola.  Certamente, a experiência dos educadores, além de somar-se ao que estou propondo, irá contribuir para maior alcance de objectivos em seu plano educativo.
As intuições infantis precisam ser acolhedoras, atraentes, estimuladoras, acessíveis ás crianças e ainda oferecer condições de atendimento ás famílias, possibilitando a realização de acções socioeducativas.
As crianças necessitam receber nas instituições de educação infantil:
  • Acções sistemáticas e continuadas que visam a fornecer informações;
  • Realizar vivências através de actividades lúdicas;
  • Aprimorar conhecimentos.
São vários os benefícios das actividades lúdicas, entre eles estão:
  • Assimilação de valores;
  • Aquisição de comportamentos;
  • Desenvolvimento de diversas áreas do conhecimento
  • Aprimoramento de habilidades;
  • Socialização.
1.3. O papel das actividades lúdicas no processo de desenvolvimento e aprendizagem
O jogo enquanto ferramenta de aprendizagem vai se desenvolver de forma positiva, se o educador souber trabalhar adequadamente com ele. É sabido que muitos vêem este tipo de actividade como actividade de disputa, onde há perdedores e ganhadores e uma grande parte dos docentes dissemina este conceito erróneo que se tem desta actividade. Quando se trabalha o corpo, a ludicidade e o jogo, desenvolvemos diversas potencialidades como a criatividade, o prazer, a interacção entre as pessoas, a cooperação, entre outras.
Devido o carácter sócio-histórico de Vygotsky, o qual aponta a brincadeira como uma actividade dominante na infância, em que através dela a criança expressa sua imaginação, conhece seu corpo e até mesmo cria suas próprias regras, verificamos que a brincadeira tem carácter essencial na formação e no desenvolvimento do indivíduo na sociedade. Todavia, constantemente nos deparamos com situações onde os jogos são relegados a um segundo plano.
O desenvolvimento da criança e seu consequente aprendizado ocorrem quando esta participa activamente: seja discutindo as regras do jogo, seja propondo soluções para resolvê-los. É de extrema importância que o professor também participe e que proponha desafios em busca de uma solução e de uma participação colectiva. O papel do educador neste caso será de mediador e este não delimitará mais a função de cada e nem como se deve jogar.
Outro teórico que percebe o jogo como actividade importante no desenvolvimento da criança, resultando em benefícios morais, intelectuais e físicos, é FROEBEL. Para este teórico, a falta de liberdade e a repressão repercutem negativamente, no que diz respeito ao estímulo da actividade espontânea, característica fundamental para o desenvolvimento.
Ele percebe o jogo como instrumento de ensino, no qual é possível trabalhar as diferentes disciplinas, tais como: Matemática, Ciências e outras. De acordo com Froebel:

“ Brincar é a fase mais importante da infância do desenvolvimento humano neste período-por ser a auto-ativa representação do interno a representação de necessidades e impulsos internos.” (FROEBEL, 1912, pp. 54-55)
Assim, semelhante ao pensamento de Vygotsky, que vê a interacção como acção que provoca intervenções no desenvolvimento da criança, Froebel, também concorda que os jogos interferem positivamente, pois no brincar a criança expõe sua capacidade representativa, o prazer e a interacção com outras crianças.
Desta forma, entendo que as actividades lúdicas cooperativas contribuem e oportunizam as crianças momentos de expressão, criação e de troca de informação, além de trabalhar a cooperação. Torna-se necessário também que o educador reavalie seus conceitos a respeito dessas actividades, principalmente com relação aos jogos, e que neste processo a criança tenha espaço para expressar sua fala, seu ponto de vista e suas sugestões. O professor ao propor algum tipo de actividade, deve deixá-lo à vontade, pois através da troca de experiências com outros colegas, da criatividade e busca de soluções, ele conseguirá construir seu próprio conhecimento.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

-  KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org) – O Brincar e suas teorias – São Paulo: Ed. Pioneira, 2002. 

- SANTOS, Carlos António – Jogos e Actividades Lúdicas – Editora Spirit –1998. 

- VYGOTSKY, L. A Formação Social da Mente. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1984.

TEIXEIRA, Carlos E. J. A ludicidade na escola. São Paulo: Loyola, 1995.

a comunicação no mundo globalizado

INTRODUÇÃO
Os sistemas de comunicação em tempo real determinam a estrutura de organização do planeta. O que se convencionou chamar de comunicação no mundo globalizado. Este trabalho pretende registrar algumas fases de abertura do mundo, na história das formas sociais que o processo de inter- nacionalização foi assumindo no correr do tempo. A interconexão generalizada das economias e das sociedades é, comefeito, o resultado do movimento de integração mundial que foi iniciado na virada do século XIX.
É um fenômeno gerado pela necessidade da dinâmica do capitalismo de formar uma aldeia global que permita maiores mercados para os países centrais (ditos desenvolvidos) cujos mercados internos já estão saturados. O processo de Globalização diz respeito à forma como os países interagem e aproximam pessoas, ou seja, interliga o mundo, levando em consideração aspectos econômicos, sociais, culturais e políticos. Com isso, gerando a fase da expansão capitalista, onde é possível realizar transações financeiras, expandir seu negócio até então restrito ao seu mercado de atuação para mercados distantes e emergentes, sem necessariamente um investimento alto de capital financeiro, pois a comunicação no mundo globalizado permite tal expansão, porém, obtêm-se como consequência o aumento acirrado da concorrência.







COMUNICAÇÃO NUM MUNDO GLOBALIZADO
Os sistemas de comunicação em tempo real determinam a estrutura de organização do planeta. O que se convencionou chamar de comunicação no mundo globalizado. Este trabalho pretende registrar algumas fases de abertura do mundo, na história das formas sociais que o processo de internacionalização foi assumindo no correr do tempo. A interconexão generalizada das economias e das sociedades é, com efeito, o resultado do movimento de integração mundial que foi iniciado na virada do século XIX. Ampliando progressivamente o campo de circulação de pessoas, como também de bens materiais e simbólicos, os instrumentos de comunicação têm acelerado a in- corporação das sociedades particulares em grupos cada vez maiores, redefinindo continuamente as fronteiras físicas, intelectuais e mentais.
Comunicação é um campo de conhecimento acadêmico que estuda os processos de comunicação humana. Entre as subdisciplinas da comunicação, incluem-se a teoria da informação, comunicação intrapessoal, comunicação interpessoal, marketing, publicidade,,propaganda, relações,,públicas, análise,,do,,discurso, telecomunicações e Jornalismo.
Também se entende a comunicação como o intercâmbio de informação entre sujeitos ou objetos. Deste ponto de vista, a comunicação inclui temas técnicos (por exemplo,,as,,telecomunicações),,biológicos,,(por,,exemplo, fisiologia, função e evolução,e,,sociais,,(por,,exemplo,,jornalismo,,relação,,públicas,,publicidade,audiovisual e média.
A comunicação humana é um processo que envolve a troca de informações, e utiliza os sistemas simbólicos como suporte para este fim. Estão envolvidos neste processo uma infinidade de maneiras de se comunicar: duas pessoas tendo uma conversa face a face, ou através de gestos com as mãos, mensagens enviadas utilizando a internet, a fala, a escrita que permitem interagir com as outras pessoas e efetuar algum tipo de troca informacional.
No processo de comunicação em que está envolvido algum tipo de aparato técnico que intermedia os locutores, diz-se que há uma comunicação mediada.
O estudo da Comunicação é amplo e sua aplicação é ainda maior. Para a Semiótica, o ato de comunicar é a materialização do pensamento/sentimento em signos conhecidos pelas partes envolvidas. Estes símbolos são então transmitidos e reinterpretadas pelo receptor. Hoje, é interessante pensar também em novos processos de comunicação, que englobam as redes colaborativas e os sistemas híbridos, que combinam comunicação de massa e comunicação pessoal e comunicação horizontal.
O termo comunicação também é usado no sentido de transportes (por exemplo, a comunicação entre duas cidades através de trens).
Sociedade global, Aldeia global, Sociedade pós-industrial, Sociedade da informação, Sociedade em rede, Sociedade tecnológica, Sociedade do conhecimento. Não importa como chamemos o momento histórico-cultural que estamos experimentando, marcado por transformações de toda ordem, em qualquer parte do mundo. É fundamental, no entanto, reconhecer as mudanças surpreendentes movidas pelo advento das Tecnologias da Informação na Comunicação (TICs
SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
Os autores que discutem o vasto território da sociedade da Informação enfocam o assunto nos mais diferentes ângulos e objetivos, como também pelos mais distintos pressupostos teóricos. sociedade global, aldeia global, sociedade pós-industrial, sociedade da informação, sociedade em rede, sociedade tecnológica, sociedade do conhecimento, não importa a nomenclatura destinada à sociedade atual, pois todas elas têm algo em comum: discutem a sociedade a partir da mudança de paradigma causado pela avalanche de informações midiáticas. Esta teve seus primórdios com o telégrafo e as ondas radiofônicas, mas seu boom foi consolidado especialmente a partir dos anos 60, após a eclosão do fenômeno televisivo e, mais tarde, com o aperfeiçoamento do computador e o surgimento da Internet.
A sociedade global seria composta por um conjunto de ‘sociedades globais’ que se tocam, mas no fundo, excluem-se. Uma idéia elaborada em 1950 continua atual, a globalização acentuada pelas inovações tecnológicas faz com que as regiões locais participem de fenômenos globais – de consumo e midiáticos –, mantendo, porém, suas especificidades regionais (G. Guervitch apud Ortiz, 2003).
Alvin Toffler (1997) acredita que vivemos em uma sociedade pós-industrial. O autor popularizou suas idéias em especial em “A terceira onda”, quando desenvolveu o conceito de uma sociedade diferente da industrial e agrária ao discutir uma teoria pós-industrial. Ele debate as transformações na sociedade trazidas por ondas: 1. revolução agrícola, 2. revolução industrial e 3. revolução tecnológica. Com a convergência tecnológica – o computador aliado aos telefones celulares, TV Digital, TV a Cabo – permite-nos aferir que estamos no limiar da terceira onda, marcada pelas grandes mudanças que proporcionam as comunicações e a intensa troca de informações.
Com o extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico experimentado na segunda metade do século XX, estabeleceram-se as condições e o cenário para a convergência entre a informática, a eletrônica e a comunicação. Este fato leva o computador a centralizar funções que antes eram apresentadas por diversos meios comunicacionais. As tecnologias digitais, segundo Pierre Lévy, “surgiram como a infra-estrutura do ciberespaço, novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas também novo mercado da informação e do conhecimento” (1999). O ciberespaço abre caminhos para a cibercultura, pela qual a produção e a disseminação de informações são pautadas pelo dispositivo comunicacional todos-todos. Assim, não há apenas um emissor, mas milhares.
Assim como as ondas de Toffler, Pierre Lévy defende que a sociedade passou por três etapas: 1. as sociedades fechadas, voltadas à cultura oral; 2. as sociedades civilizadas, imperialistas, com uso da escrita; e, por último, 3. a cibercultura, relativa à globalização das sociedades. A cibercultura “corresponde ao momento em que nossa espécie, pela globalização econômica, pelo adensamento das redes de comunicação e de transporte, tende a formar uma única comunidade mundial, ainda que essa comunidade seja – e quanto! – desigual e conflitante” (1999). Revista Ciberlegenda/UFF - Ano 10 - número 20 - junho/2008
A imagem de aldeia global foi criada, na década de 1960, pelo canadense Marshall McLuhan. Autor de "O meio é a mensagem" previu as transformações sociais provocadas pela revolução tecnológica. Com a metáfora, queria dizer que o progresso tecnológico estava levando o planeta à mesma situação de uma aldeia, ou seja, a possibilidade de se intercomunicar diretamente com qualquer pessoa que nela vive. Por este princípio, o mundo seria interligado, com estreitas relações econômicas, políticas e sociais, fruto da evolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Essa profunda interligação entre todas as regiões do globo originaria uma poderosa teia de dependências mútuas e, desse modo, promoveria a solidariedade e a luta pelos mesmos ideais em prol do desenvolvimento sustentável da Terra, superfície e habitat desta ‘aldeia global’.
Sobre ‘a sociedade em rede’, Manuel Castells ressalta que a sociedade voltada ao uso da informação traz a idéia de que as novas tecnologias da informação estão integrando o mundo em redes interligadas globalmente. Estas se tornam fonte de formação, orientação e desorientação da sociedade. Por isso, “a informação representa o principal ingrediente de nossa organização social, e os fluxos de mensagens e imagens entre as redes constituem o encadeamento básico de nossa estrutura social”. Pode-se, assim, visualizar uma sociedade que mudou a dinâmica nas relações que envolvem troca de informações, migrando do meio geográfico (físico) para o meio virtual oferecido pelas redes. Com isso, há também transformações nas relações de poder. O poder está nas mãos de quem detém as conexões que ligam as redes como, por exemplo, os “fluxos financeiros assumindo o controle de impérios da mídia que influenciam os processos políticos” (1999).
Apesar de o mundo parecer unificado pelas redes e pela transposição das fronteiras, Othon Jambeiro (2000) atenta que o conceito de sociedade mundial não elimina o fato de existirem sociedades particulares, com culturas, etnias e tradições próprias – a noção de coexistência entre global e local.
Defende-se a crença de que haverá tantas sociedades da informação quantas forem as sociedades, porque cada sociedade usará as novas tecnologias e alternativas de serviços de acordo com suas necessidades prioritárias específicas e assim consolidará seu futuro. A construção de uma abrangente sociedade mundial da informação implicará a expansão das oportunidades de cada sociedade para realçar sua distinção. E tudo isso dependerá de uma imensa infra-estrutura, montada em nível mundial, sobre plataformas nacionais – integradas ou não, econômica e culturalmente, em macro-regiões (2000: 210-211). Revista Ciberlegenda/UFF - Ano 10 - número 20 - junho/2008
A infra-estrutura montada para integração das diversas sociedades já é realidade hoje, porém os países 3 produtores de tecnologia e conhecimento detêm a vantagem sobre os países pobres ao produzirem e comercializarem hardware e software. Estes monopolizam desde a produção de peças até o gerenciamento da rede; já os países pobres participam do processo como consumidores.

INTEGRAÇÃO PLANETARIA
Uma nova sociedade advinda da revolução tecnológica. Esta parece uma constatação unânime entre os argumentos que explicam esta integração planetária. Esta Revolução tecnológica supõe uma quebra de paradigma. Que paradigma? Para Thomas Khun, paradigma é o conjunto de problemas e soluções que dirigem as investigações de um grupo, num determinado tempo. Se aceitarmos esta noção, o momento de ‘ruptura’ aconteceu muito antes do advento da alta tecnologia.
Nos séculos XVI e XVII, o Ocidente viveu mudanças fundamentais em direção a um espírito crítico, impulsionado por descobertas revolucionárias na física e na astronomia, culminando nas realizações de Copérnico, Galileu e Newton. De uma idéia de que o mundo forma uma totalidade finita, ordenada, em que todas as coisas têm um lugar definido, como num imenso organismo (Paradigma Medieval ou Salvacionista), constitui-se uma noção de mundo como se fosse uma máquina – universo mecânico. A ‘máquina’ converteu-se na metáfora dominante na era moderna. Foi um caminho que os historiadores chamaram de a ‘Idade da Revolução Científica’ (Capra, 1993).
A ciência do século XVII baseou-se em novos métodos de investigação: a indução –, defendida por Francis Bacon, que envolvia a descrição matemática da natureza, e o método analítico de raciocínio concebido por Descartes – a dedução. “Cogito, ergo sum – Penso, logo existo” – a célebre dedução de Descartes, foi a chave para a enunciação do seu método, que
3 Manuel Castells (1999, p. 99) afirma que a primeira revolução da tecnologia da informação foi norte-americana, especificamente advinda da Califórnia. O Japão contribuiu com a base em Eletrônica e a popularização de produtos voltados à tecnologia da informação como videocassetes, fax, bips. A Inglaterra, França, Alemanha e Itália contribuem com as descobertas científicas que constituíram a base das novas tecnologias de Eletrônica e Biologia. “As empresas, instituições e inovadores norte-americanos não só participaram do início da revolução da década de 1970 como também continuaram a representar um papel de liderança na sua expansão, posição que provavelmente se sustentará ao entrarmos no século XXI”.  Revista Ciberlegenda/UFF - Ano 10 - número 20 - junho/2008
consiste em decompor pensamentos e problemas em suas partes componentes (particular) e em dispô-las em sua ordem lógica para se entender o todo (universal). Sua intenção era a emancipação do homem, desvencilhando-se de qualquer poder político ou religioso, tanto que imaginou o homem como sujeito. Mas ao colocar como princípio de verdade as idéias ‘claras e distintas’, Descartes motivou a separação entre sujeito pensante – ego cogitans – e a coisa extensa – res extensa. Em outras palavras, atribuiu a tarefa de reflexão à filosofia e a do conhecimento à ciência, estabelecendo um ‘pensamento disjuntivo’ (Morin, 2006: 11).
As grandes contribuições de Bacon e Descartes propiciaram a Isaac Newton a possibilidade de complementar o trabalho, ao desenvolver uma completa formulação matemática da concepção mecanicista da natureza. O universo newtoniano era, de fato, um gigantesco sistema mecânico que funcionava de acordo com leis matemáticas exatas. O Paradigma Mecanicista, fruto dessa Revolução Científica, portanto, orientou e modelou a ciência moderna, com sua tendência à quantificação, previsibilidade e controle, instituindo o primado do experimentalismo e do determinismo.
No mesmo sentido, a autonomia do ser humano conquista um marco decisivo com o Iluminismo. A Aufklarung de Kant objetivava permitir o acesso do homem à maioridade, pelo uso da razão, sacudindo todas as tutelas religiosas e políticas. Essa autonomia pela razão trouxe outras conseqüências, como “a atomização do homem, separado dos outros homens e desmembrado, ele próprio, em três papéis diferentes e às vezes contraditórios: o de cidadão, enquanto membro da sociedade política, o de burguês, enquanto agente econômico, e o de particular, enquanto indivíduo e membro de uma família” (Rouanet, 1987). Os ideais iluministas vislumbravam um ser livre, ser sujeito e ser livre como sinônimos. Mas a má interpretação dessa autonomia estabeleceu marcas indeléveis ao homem moderno: o individualismo se sobrepõe ao ser social, coletivo (Moreira in Medina e Greco, 1993: 135-153).
A cosmovisão moderna, que nos trouxe imensos benefícios através do incontestável e espetacular progresso tecnológico, ocasionou, no entanto, um padrão de atitudes determinado pela concepção moderna de mundo – racionalista, mecanicista e reducionista.
Este conjunto de fatores altera significativamente as relações de poder no Ocidente. A autonomia iluminista torna o homem o centro e a finalidade do mundo (visão antropocêntrica), imbuído da missão de ‘explorar os recursos do planeta’. A ascensão definitiva da burguesia e a Revista Ciberlegenda
própria Revolução Industrial, portanto, são consequências dessa rutura com o pensamento medieval (regido pela Escolástica Tomista). A separação do sagrado e do profano e, fundamentalmente, a disjunção das funções da Filosofia – reflexão – e da Ciência – produção de conhecimento – elaboraram um novo padrão de “problemas e soluções que dirigem as investigações de um grupo, num determinado tempo” (Khun).
Dessa forma, quando se destaca a ‘máquina a vapor’ como símbolo do progresso e do desenvolvimento, na Revolução Industrial, há que se refletir, ao mesmo tempo, como uma conquista do homem para substituir sua força física, mas também como decorrência de investimentos da burguesia – através da ciência e da tecnologia – para sua maior produção (e lucro). Esta reflexão também é necessária quando ressaltamos outros ícones das conquistas humanas, como o avião, os satélites, os ônibus espaciais ou as armas de destruição em massa. Sim, porque a produção do conhecimento (Ciência) dissociada do pensar (Filosofia) colocou muitos de seus esforços exclusivamente a serviço do poder e do lucro.
Se a penicilina foi desenvolvida em tempos de guerra, também foi a guerra o cenário para o aperfeiçoamento do rádio. A Guerra Fria – final da 2ª Guerra aos anos 80 –, não casualmente, foi um período de extraordinário progresso tecnológico. A corrida armamentista e a corrida espacial exigiram comunicações melhores e mais seguras, como os equipamentos de codificação, decifração e transmissão de mensagens – computadores. E aqui vale frisar que a própria Internet surgiu para uso militar.
Sobre o inegável e presente processo de globalização, a grande questão, nos parece, é como a sociedade – heterogênea – poderá desenvolver-se com competência e sabedoria para usufruir dos benefícios deste processo e contornar os seus inevitáveis problemas. O histórico jogo de hegemonia e contra-hegemonia nunca esteve tão evidente e precisa ser encarado e refletido.



DESAFIOS DA COMUNICAÇAO NO SÉCULO XXI
Estas críticas ao fascínio, pela Revolução Tecnológica estão longe de um fatalismo. Em pleno apartheid, Mandela e Biko persistiram que as crianças sul-africanas aprendessem o idioma predominante – o inglês –, pois tinham consciência de que as lutas pela igualdade de direitos e de oportunidades dependiam da apropriação dos recursos do colonizador Revista Ciberlegenda/UFF - Ano 10 - número 20 - junho/2008
europeu, inclusive a língua. Na mesma linha de raciocínio, o que pretendemos é sustentar a necessidade de toda a sociedade apropriar-se dos produtos e dos recursos dessa Revolução Tecnológica. É necessário, no entanto, que esse processo de apropriação seja refletido por uma visão sistêmica, complexa.
Seria uma limitação intelectual imperdoável negar as possibilidades das Tecnologias de Informação na Comunicação. A eficiência e a agilidade que proporcionam para a comunicação entre pessoas permitem vislumbrar avanços incalculáveis em todos os campos, em especial na educação, enfoque que pretendemos nos concentrar a partir de agora nesta reflexão.
Renne Descartes, nos anos que antecederam a publicação de ‘O discurso do método’, manteve um debate com alguns interlocutores. A troca de mensagens – um-um, como lembra Lévy – levava meses. E a cada senão, objeção ou sugestão, a reelaboração e a resposta levavam outros tantos meses. Se Descartes e seus colegas filósofos vivessem hoje, bem que poderiam realizar os debates via teleconferência, pelo dispositivo comunicacional todos-todos, a que se refere Lévy4.
O desenvolvimento de equipamentos cada vez mais eficazes permite o aperfeiçoamento da organização, catalogação e armazenamento de informações. As múltiplas vias de buscas, da mesma forma, possibilitam o acesso a bens culturais por um público cada vez maior. O acervo historicamente acumulado tem lugar amplo e seguro para sua preservação e fruição no ciberespaço. Não só a localização de obras está facilitada, como as próprias bibliotecas virtuais se multiplicam pelo mundo. Para citar alguns poucos exemplos, temos o portal Domínio Público5, que disponibiliza obras consagradas, muitas delas com edições esgotadas, e em nossa área especificamente outros como Portcom6, conectado à Intercom7, que cataloga trabalhos na área de Ciências da Comunicação, ou a Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação8. As revistas
4 Para Pierre Lévy, o dispositivo comunicacional pode ser distinguido em três categorias: 1. Um-todos: um emissor envia suas mensagens a um grande número de receptores. Ex: rádio, imprensa e televisão. 2. Um-um: relações estabelecidas entre indivíduo a indivíduo, ponto a ponto. Ex: telefone, correio. 3. Todos-todos: dispositivo comunicacional original, possibilitado pelo ciberespaço, pois permite “que comunidades constituam de forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto comum”.
científicas, de associações profissionais ou de segmentos organizados crescem em número e variedade em escala geométrica.
Esta alta tecnologia também pode e deve estar a serviço da capacitação – acelerada – da população. A educação a distância (EAD) já está presente e caminha como alternativa concreta para a formação e/ou aperfeiçoamento de segmentos expressivos da população. Assim também, a revolução tecnológica poderá chegar ainda com mais força na educação fundamental. A TV interativa, os computadores, a internet, entre outros recursos, poderão ser instrumentos decisivos para o enriquecimento cultural e formação de cidadãos.
A par desses poucos exemplos sobre a relevância das TICs no campo da educação, cabe questionar com que ‘paradigma’ esses recursos são ou serão usufruídos pela população. Voltamos, então, a sublinhar a necessidade de discutir o tema por um pensamento complexo.
As reflexões e os experimentos do século XX apresentam o confronto com o pensamento mecânico, finalista, exato, reducionista, simplificador, fatalista e autoritário dos paradigmas fundamentados na certeza. Nessa trilha, os estudos no campo da Física, com a teoria da Relatividade e a teoria Quântica, levaram alguns cientistas a voltarem os olhos para o Oriente, verificando uma forma de encarar o mundo bastante semelhante à maneira como as sabedorias orientais o vêem – há milênios. A essência dessa visão, como salienta Capra, é a consciência da unidade e da inter-relação de todas as coisas e eventos, a experiência de todos os fenômenos do mundo como manifestações de uma unidade básica. Todas as coisas são encaradas como partes interdependentes e inseparáveis do todo cósmico; em outras palavras, como manifestações diversas da mesma realidade última (Capra, 1995).
Compartilhando esse caminhar, pode-se dizer que se esboça um paradigma, ainda em construção, mas que expressa a insuficiência de respostas dos modelos anteriores. Do pensamento reducionista e simplificador, o paradigma emergente baseia-se no pensamento complexo. Edgar Morin ressalta que o pensamento disjuntivo/reducionista é mutilador e conduz a ações mutiladoras, porque distingue, separa, reduz e simplifica. O desafio, assim, é pensar um paradigma que permita distinguir sem separar, associar sem identificar ou reduzir, num princípio dialógico e translógico. Por esse caminho, Edgar Morin expõe a noção de complexidade por três ângulos: primeiro como um tecido (complexus - o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados - coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Depois, vê Revista Ciberlegenda/UFF - Ano 10 - número 20 - junho/2008
A complexidade como o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal. Por fim, entende que a vida é não uma substância, mas um fenômeno de auto-eco-organização extraordinariamente complexo que produz autonomia (Morin, 13-16).
Postas essas noções, vejamos algumas constatações sobre a presença da alta tecnologia no meio educacional que, a nosso ver, ainda não foram suficientemente debatidas, pelo menos por aqueles que as encaram apenas com a visão simplista do encantamento:
INCLUSÃO E EXCLUSÃO DIGITAL
O estudo ‘Informação e desenvolvimento em uma sociedade digital’9 mostra que apenas 10% da população angolana está incluída no mundo digital. O mapa da exclusão, por regiões, é ainda mais aterrador. Por exemplo, apenas 5,41% dos sergipanos têm acesso a computador. Miranda e Mendonça (2006) levantam algumas questões (ou dúvidas) relevantes que possam contribuir para a compreensão desse quadro, entre as quais destacamos:
• A tecnologia está disponível e acessível a todas as pessoas e organizações
• A tecnologia disponível é adequada às necessidades e condições locais
• A tecnologia está disponível a um preço acessível para a população
• A população tem a capacitação e os conhecimentos necessários para o uso efetivo da tecnologia
• Ela sabe como usar a tecnologia e conhece seu potencial de uso?
• Está disponível um conteúdo local relevante, especialmente em termos de linguagem
• Há restrições à utilização da tecnologia com base em gênero, raça ou outros fatores socioculturais
• O ambiente econômico local é propício ao uso da tecnologia? A tecnologia faz parte do desenvolvimento econômico local? O que é preciso fazer para integrar a tecnologia ao desenvolvimento econômico local?
• Existe vontade política da parte do governo para promover a integração tecnológica de toda a sociedade e apoio popular para o processo de tomada de decisão do governo?

Diante dessas questões, os autores argumentam que o Programa Sociedade da Informação (criado pelo Governo Federal) como uma iniciativa plausível. Este traz como objetivos integrar,
9 De Antonio Miranda, doutor em Ciências da Comunicação pela USP; Professor titular do CID/UnB; e Ana Valéria Mendonça, doutoranda em Ciência da Informação pela UnB; pesquisadora do grupo Comunicação, Educação e Sociedade
coordenar e fomentar ações para a utilização de tecnologias de informação, educação e comunicação, de forma a contribuir para a inclusão social de todos os brasileiros na nova sociedade e, ao mesmo tempo, contribuir para que a economia do país tenha condições de competir no mercado global. Por este ponto de vista, portanto, investir na inclusão digital não significa apenas alfabetizar tecnologicamente os indivíduos, as famílias e comunidades, mas também inserir conteúdos, avaliar seus processos de recepção e mediação, tendo como finalidade a aplicabilidade social desses conteúdos trabalhados a partir de conceitos e práticas da alfabetização da informação junto às escolas, por conseqüência, junto aos professores e alunos, a fim de que a sociedade esteja bem preparada para os desafios da informação e do desenvolvimento tecnológico.
Se o Programa Sociedade da Informação sinaliza uma ‘vontade política’ para encarar o desafio da inclusão, segmentos organizados da sociedade também parecem ter consciência de que o enfrentamento a este desafio deve ser amplificado. O Comitê para Democratização da Informática é uma organização não-governamental que procura promover a inclusão social utilizando a tecnologia da informação como um instrumento para a construção e o exercício da cidadania. Suas Escolas de Informática e Cidadania, criadas principalmente em parceria com organizações comunitárias, implementam programas educacionais no Brasil e no exterior, com o objetivo de mobilizar os segmentos excluídos da sociedade para a transformação da sua realidade. A organização desenvolve projetos que atendem a comunidades de baixa renda, públicos com necessidades especiais, portadores de transtornos psiquiátricos, jovens em situação de rua, presidiários, populações indígenas e comunidades carcerárias, entre outros.
Apesar de respeitar e reconhecer a relevância destas iniciativas, temos que relativizar alguns pontos que merecem atenção.
Quando o ministro da Educação Paulo Renato Souza, em 1997, promoveu ampla distribuição de televisores, videocassetes e antenas parabólicas às escolas, Rubem Alves desferiu uma crítica ácida e bem humorada sobre o assunto. Recorreu a uma de suas metáforas para aliar o processo de ensinar e aprender ao de degustar. Comparou as técnicas (e tecnologias de ensino) aos apetrechos de cozinha necessários ao preparo da comida. Alertou, então, que a parafernália eletrônica então disponibilizada aos professores não são mais do que panelas a serviço do cozinheiro. Então disparou: — A questão não é mudar as panelas. A questão é mudar o menu. Revista Ciberlegenda
O mesmo fascínio que se teve a televisores e antenas parabólicas, em 1997, vem ocorrendo com presidentes, ministros, governadores, prefeitos... como se as máquinas resolvessem, por si, todos os problemas da educação. Com raras exceções, ao que parece, as preocupações levantadas pelo Programa Sociedade da Informação não estão sendo consideradas.
Em Campo Grande, MS, 100% das escolas estaduais e municipais dispõe de salas de informática. Subutilizadas! O estudo “O Computador como instrumento didático”, de Jacir Alfonso Zanatta, assinala que em todas as escolas visitadas durante a sua pesquisa não havia projeto pedagógico adequado ou compatível à tecnologia disponível. Mais que isso, constatou que a maioria dos professores não dominava esses recursos. É claro que estas considerações, levantadas em 2002, não podem ser generalizadas ao país e ao presente momento, mas é uma sinalização significativa.
As próximas gerações, já nascidas e formadas convivendo com esta alta tecnologia, provavelmente terão mais tranqüilidade para otimizar o uso desses recursos. Mas cabe a nossa Revista Ciberlegenda
geração, inevitavelmente, preparar as próximas para que isso se concretize. Para tanto, cabe retornar à questão posta inicialmente:
- Como o homem poderá conduzir-se nessa galáxia de enésimas vias, na busca de seus objetivos fundamentais de liberdade e bem-estar? Ou seja, como vai cumprir sua finalidade – primeira e última – de humanização?

ÉTICA DO SUJEITO RESPONSÁVEL
Edgar Morin lembra-nos que uma condição indispensável para nossos tempos é a restauração do sujeito responsável. Para tanto, num primeiro momento, propõe a necessidade do exercício ético que leva a cada um a reconhecer-se responsável. Esta exige a noção de religação, que engloba o que faz comunicar, associar, solidarizar, fraternizar e se opõe a tudo que fragmenta e disjunta – ignorância do outro, do humano, egocentrismo. Esta ética também supõe a regra do debate, da argumentação ao invés dos julgamentos de autoridade. Da mesma forma, incentiva a compreensão mais que a explicação – a compreensão permite conhecer o sujeito enquanto sujeito e tende a reumanizar o conhecimento político. Morin coloca que o único meio capaz de tentar quebrar o ciclo infernal de intolerância entre os homens é a irrupção da magnanimidade, da clemência, da generosidade, da nobreza. No mesmo sentido, o autor faz um apelo à boa vontade de todos, para que se associem entre si para salvar a humanidade do desastre. Por fim, por mais que essa tarefa possa parecer impossível, exorta a um espírito de resistência contra a barbárie, que fermente um germe para o futuro (in Carvalho et alli, 1998).
Iniciativas como o Programa Sociedade da Informação ou o Comitê para Democratização da Informática, portanto, passam por um componente ético insubstituível. Passa pela humanização. O que queremos para nossos descendentes

INTEGRAÇÃO CULTURAL E A COMUNICAÇÃO
Como nós seres humanos só podemos descobrir-nos nos espelhos deformantes que a cultura nos oferece, hoje podemos constatar que o pesadelo do homem-máquina, tão perseguido pelo Ocidente, também serviu para ratificar de maneira profunda e certeira a autêntica dimensão do humano. O que caracteriza nosso pensamento, nossa cognição, o que nenhuma máquina jamais poderá suplantar, é precisamente esse componente afetivo presente em todas as manifestações da convivência interpessoal (Restrepo, 1998). Revista Ciberlegenda
O professor Edmir Perroti, desde a década de 1980, nos alerta para o processo de ‘confinamento cultural’ característico em nossos dias. O crescimento urbano, o crescente aumento de famílias que trabalham fora (e mais horas diárias), o aumento da violência, entre outros fatores, fazem os muros e as grades ficarem cada vez mais altos. Para manter seus filhos ocupados com boas atividades, essas famílias estimulam que estes façam cursos de línguas, música, pratiquem esportes, etc. O ‘confinamento’ de crianças e adolescentes se dá nesses ambientes ‘educativos’ – pois nem sempre privilegiam as ações coletivas ou de sociabilidade – ou no reduto restrito do lar, naquela época já bastante influenciada pela televisão e pelos videogames. Este estado de confinamento inspira, entre tantos fatores, o isolamento, o individualismo – mais que a vida pública (política), que o espírito de cooperação e solidariedade. Cabe aqui destacar que tal individualismo é tanto uma influência da modernidade, como – e principalmente – conseqüência de uma interpretação equivocada da autonomia iluminista de Descartes e de Kant.
O fato é que a proposta educativa de Perrotti, desde aquela época, era a de criação e/ou transformação de espaços públicos em lugares de ‘desconfinamento cultural’. Um dos projetos que levou a frente parece colher bons frutos. Perrotti orientou a implantação de redes de bibliotecas inovadoras nas escolas municipais de São Bernardo do Campo, Diadema e Jaguariúna, no estado de São Paulo. Nessas ‘estações de conhecimento’, como as denomina, além de o espaço ser mobiliado e especialmente disposto para a aprendizagem, há o estímulo de suportes tecnológicos, como o computador e a televisão. É uma espécie de centro cultural, onde as informações produzidas nas salas de aula circulam. O mero exercício escolar vira conhecimento, pois tem qualidade de linguagem para circular entre os usuários e se torna público.
Mas Perroti não se preocupou somente com a adequação de espaços e a disponibilidade de equipamentos. Para ele, é fundamental o ‘toque humano’. O que chama de ‘infoeducador’ é uma espécie de agente cultural, responsável por animar, contar histórias, promover as conexões entre o que estão estudando com a vida. Por isso, a formação de infoeducadores é uma das principais metas do projeto, pois têm a possibilidade de agregar ao ambiente educativo – e de desconfinamento – o componente afetivo presente em todas as manifestações da convivência interpessoal, como recomenda Restrepo. Revista Ciberlegenda/UFF - Ano 10 - número 20 - junho/2008
Projetos como este, renovam nossas esperanças para responder à questão - O que queremos para nossos descendentes? Com estes pontos de vista em mente, cabe a todos nós refletir sobre as “Tendências no século XXI”. Mais que tendências, devemos encará-las como desafios de preparação das novas gerações. Como podemos contribuir para:
Que a tecnologia esteja disponível e acessível a todas as pessoas e organizações; que esta seja adequada às necessidades e condições locais; em preço acessível para a população; que a população tenha a capacitação e os conhecimentos necessários para o uso efetivo; que haja um conteúdo local relevante disponível.
Fundamentalmente, parece que nos cabe o esforço de um amadurecimento e uma consciência de que todos esses recursos devem atender efetivamente a um projeto humanizador. Se a comunidade global é desigual e conflitante (Lévy), há que se ter boa vontade para que não se acentuem as desigualdades e as diferenças não se transformem em intolerância. Se nesta sociedade as relações de poder são determinadas pela capacidade de conexões das redes (Castells), há que se ter generosidade e nobreza para reumanizar o conhecimento político, e isto se torne meio de ligar, religar, solidarizar. A apropriação de toda a alta tecnologia deve, essencialmente, dar-se pela restauração do sujeito-responsável, que coloque todos os seus esforços, pela ação e pela reflexão (pensar bem), para que nosso futuro não seja determinado somente pelo poder e pelo lucro, mas pela riqueza que a vida pode proporcionar. Pois senão continuaremos sendo apenas ‘partes’ (indivíduos egocêntricos) e as máquinas da alta tecnologia continuarão sendo apenas máquinas.
Não podemos em todos os domínios em que estamos engajados, os da pesquisa e os do ensino, os da mediação social e os das responsabilidades econômicas e cidadãs, atuar juntos para ‘trabalhar para pensar bem’, para construir esse próximo passo que constrói o nosso caminho? (Morin, 2000).



CONCLUSÃO
Finalizando considero que o sistema em que vivemos, onde o consumo, o capital e a venda imperam como fatores preponderantes, percebe-se as muitas desigualdades e diversidades de uma sociedade global que se organiza mediante uma iniqüidade que condiciona o dia-a-dia das pessoas, levando-as a serem pautadas pelos fluxos do mercado, pelo consumo desnecessário e pela busca do capital exagerado.
Analisei que os meios de comunicação de massa, fruto deste aviltamento do sistema vigente, são os grandes responsáveis por uma comunicação vertical, em que as mensagens são produzidas e emitidas para a grande maioria através de impressões e interesses de uma minoria que detém o poder, que monopoliza a comunicação, derramando mercadorias que eles acham necessárias, suficientes e verdadeiras para a sociedade. E a Televisão, tão conhecida de nosso dia-adia, se torna um instrumento ora fascinante, ora assustador diante deste contexto globalizante. Ela é à base de um profundo estudo sobre como os meios de comunicação de massa se constituem e operam no desenvolvimento da sociedade. É o exemplo concreto da magnitude que a mídia tem sobre nossas vidas. Por isso, não é à toa, que cada dia mais, grupos menores detêm o poder desse tão precioso “diamante”. Precisamos ficar atentos e alertas a todas as mudanças e manifestações a cerca da comunicação no Mundo globalizado.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Rubem. Qualidade em educação in Folha de S. Paulo – 31/07/1997 p2. São Paulo. Empresa Jornalística Folha da Manhã, 1997.
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo. Cultrix,
MASUDA, Yoneji. A sociedade da informação como sociedade pós-industrial. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1982.
MCLUHAN, Marshall. O meio é a mensagem. Rio de Janeiro: Record,1969.
ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 2003.
CULAU, D. C.  Comunicação e Sustentabilidade: uma questão de difusão global ou local?.
Comunicação e Contemporaneidade. V.2, n.2. p. 16-22, nov./dez. 2000.
IANNI, O. Teorias da Globalização. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
NOVAES, A.(Org.). Rede Imaginária: televisão e democracia. Secretaria Municipal de Cultura:
São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
PAIVA, R. O espírito comum: comunidade, mídia e globalismo. Petrópolis: Vozes, 1998.
THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Tradução de Wagner de

Oliveira Brandão; Revisão da tradução Leonardo Avritze. Petrópolis – RJ: Vozes, 1998.

A decisão

INTRODUÇÃO
A articulação deste discurso com a prática real passa necessariamente por analisar, fundamentar  e operacionalizar os conceitos essenciais relativos ao currículo e à sua gestão, de modo a procurar formas de gerir e organizar a escola com mais eficácia e qualidade e com maior satisfação e sucesso - quer  para os profissionais que nela trabalham quer, sobretudo,  para os alunos que a frequentam e a quem ela se destina.   Esses conceitos essenciais são os de currículo, gestão curricular e profissionalidade os que afinal estavam em presença no relato com que se iniciou este texto: o currículo que me apresentaram, vinha contido no manual, a gestão que me foi proposta traduzia-se na ocupação/programação  semanal das horas distribuídas,  seguindo o manual e “dando notas” após o teste, a profissionalidade em que me introduziu o velho director traduzia-se em  dar cumprimento a estas directrizes, integrando-me, o melhor que pudesse, no grupo de colegas.



NÍVEIS DE DECISÃO: CENTRAL, INSTITUCIONAL, GRUPAL OU INDIVIDUAL; PESSOAL E INTERPESSOAL
As decisões sobre o currículo implicam sempre uma variedade de níveis de amplitude:
 O  nível central - Que é preciso aprender nas escolas de um país? Que modos de ensinar são recomendados.
 O nível institucional - Como vai a escola A ou B  assegurar eficazmente as aprendizagens aos seus alunos, no concreto? Que opções toma como escola? Que face quer ter para o público, valorizando e afirmando-se sobretudo em quê?
 O nível grupal - Que decisões particulares é preciso tomar ao nível dos grupos de professores (formais, instituídos ou informais?)
 O nível individual - Que fazer cada dia na acção educativa concreta, face aos alunos com que se trabalha?
Se considerarmos, por outro lado,  não só os níveis de amplitude das decisões, mas também a sua natureza, podemos ainda identificar outros tipos de decisão:   decisões de natureza pessoal - a preferência por uma estratégia, a forma de dispor os alunos, as iniciativas pessoais  decisões de natureza interpessoal - trabalhar uma estratégia em articulação com os outros do grupo (por exemplo, aplicar técnicas de desenvolvimento da capacidade de observação ou registo, priorizar a realização de tarefas de apresentação estruturada de ideias pelos alunos).
 Os  dois níveis não se confundem, mas podem e devem articular-se.  Se um grupo de professores decide trabalhar o sentido de observação nos alunos (decisão grupal, gestão curricular de uma aprendizagem ), cada um deles vai ainda operacionalizar outro nível de decisão - com que actividades vai desenvolver essa aprendizagem? Para realizar essa decisão terá de gerir o processo de aprendizagem, tendo em conta: Num exemplo oposto, uma direcção assiociativa ou desportiva colegial, por exemplo, as decisões e a gestão são assumidas paritariamente pelos elementos do órgão de direcção. Contudo é óbvio que as decisões têm contributos mais influentes de alguns dos membros do órgão do que de outros.
 Ou seja, importa distinguir, ao falar de decisões, os agentes ( os responsáveis pela assunção da decisão) dos parceiros ( os intervenientes e interlocutores), bem como não confundir  o tipo de instância decisora (individual, grupal, colegial) do modo como essa instância exerce a função de decidir (mais ou menos participado, mais ou menos partilhado com outros).
 Servem  estes exemplos para ilustrar o seguinte:
A gestão e as decisões que ela implica envolvem sempre uma diversidade de parceiros, com graus diversos de intervenção no processo a gestão é assumida por quem tem a responsabilidade funcional mas pressupõe negociação entre parceiros e consideração dos seus interesses e perspectivas;
 Os parceiros não coincidem sempre com os intervenientes na decisão (os agentes) alguns parceiros serão agentes, outros não, dependendo da sua implicação, papel e responsabilidade funcional na actividade em causa e nas decisões respectivas.
 Assim, por exemplo, os doentes e as famílias dos doentes são parceiros a ouvir nas decisões da gestão de um hospital, mas não são decisores directos.  Os empresários de uma região são parceiros nas decisões da escola, mas não são agentes dessa decisão. 
Os pais, sendo parceiros privilegiados, também não são decisores directos  na escola, mas poderá haver campos da acção da escola em que o sejam , em parceria com os responsáveis da escola (p.e. a organização dos tempos livres ou de um centro de recursos).
 No caso da educação escolar actual, o professor é o responsável pela função de ensinar e a escola a instituição a quem compete essa função e que responde socialmente por ela.  Ao nível local e institucional eles são assim os decisores e os responsáveis directos, no quadro de uma responsabilidade nacional que é a que cabe à administração central e ao governo de cada país.A escola funciona como instituição social, interagindo com muitos outros parceiros, a dois níveis:
•  os mais directamente interessados  - pais e empregadores
•  a comunidade em sentido global, com as suas outras instituições, serviços e actividades,  a quem interessa a educação e a sua qualidade, enquanto componente da melhoria da vida social e do bem-estar da comunidade.
Assim as decisões da escola terão que resultar da interacção com estes dois tipos de parceiros, sem que isso signifique substituição da sua responsabilidade ao nível das decisões que lhe cabem.




CONCLUSÃO
Chega-se a conclusão de que o exercício profissional numa perspectiva de gestão da acção curricular implica que a formação dos docentes (inicial e contínua) se oriente no sentido dessa filosofia e que integre determinadas áreas de conhecimento, como Teoria das Organizações, Gestão Estratégica, Teoria e Gestão Curricular, entre outras.  Mas essas áreas já existem nos planos de formação inicial de muitas instituições;  numerosos  professores já frequentaram muitas acções de formação nesses domínios ou muito próximos.  E contudo essa  formação, que é fundamental, não garante, por si, a autonomia crescente do profissional neste domínio. Toda e qualquer formação extrínseca não atinge a mudança de práticas se não for apropriada pelos próprios no seu trabalho conjunto face às situações.  O conhecimento teórico é base fundamental, mas muito mais essencial é utilizá-lo para  aprender a teorizar as situações, a produzir e reconstruir conhecimento a partir delas.  Caso contrário, o conhecimento permanece como informação inerte e não se transforma num ^”saber em uso”, corporizado em competências de acção e reflexão.



BIBLIOGRAFIA

ü  Roldão, M.C.  – Gestão Curricular – Fundamentos e Práticas. ME-DEB , 1999