segunda-feira, 9 de maio de 2016

TIPOS DE TRABALHOS CIENTÍFICO

INTRODUÇÃO
O trabalho científico consiste de informação científica organizada segundo padrões específicos, com o objectivo de facilitar a sua compreensão. Podemos comparar um trabalho científico a uma história, em que devem coexistir 3 partes harmónicas, princípio, meio e fim. O principal objectivo de um trabalho científico é comunicar uma observação ou uma ideia a um grupo de indivíduos potencialmente interessados. Esses indivíduos podem então fazer uso da observação, ou fazer avançar a ideia mediante as suas próprias observações.  Deve existir também, uma nítida ligação entre essas três partes.




O PRÉ REQUISITO LÓGICO DO TRABALHO CIENTIFICO
O trabalho científico em geral, do ponto de vista lógico, é um discurso completo. Tal discurso, em suas grandes linhas, pode ser narrativo, descritivo ou dissertativo. No sentido em que é tratado neste texto, o trabalho científico assume a forma dissertativa, pois seu objectivo é demonstrar, mediante argumentos, uma tese, que é uma solução proposta para um problema, relativo a determinado tema. 
 A demonstração baseia-se num processo de reflexão por argumentação, ou seja, baseia-se na articulação de  ideias e fatos, portadores de razões que comprovem aquilo que se quer demonstrar. Essa articulação é conseguida mediante  a apresentação de argumentos. Esses argumentos fundam-se nas conclusões dos raciocínios e nas conclusões dos processos de levantamento e caracterização dos fatos. 
 O raciocínio é um processo de pensamento pelo qua conhecimentos: são logicamente encadeados de maneira a produzirem novos; conhecimentos. Tal processo lógico pode ser dedutivo ou indutivo Dedução e indução são, pois, processos lógicos de raciocínio. 
 O levantamento e a caracterização de fatos são realizados mediante o processo de pesquisa, sobretudo da pesquisa experimental, de acordo com técnica específica.
A demonstração
 Uma monografia científica deve, pois, assumir a forma-lógica de demonstração de uma tese proposta hipoteticamente para solucionar um problema. 
 O problema é formulado sob a forma de uma enunciação de determinado tema, proposta de maneira interrogativa, pressupondo, portanto, pelo menos uma alternativa como resposta: é assim ou de outra maneira?; ou seja, pressupõe sempre a ruptura de harmonia existente numa afirmação assertiva. O problema, como já se viu, levanta uma dúvida, coloca um obstáculo que precisa ser superado; opta-se, então, por uma das alternativas, na busca  de uma evidência que está faltando.

Para se colocar o problema, é preciso que seja formulado de maneira clara em seus termos, definida e delimitada. E preciso esclarecer os termos, definindo-os devidamente. Daí a importância da definição. Os limites da problematização devem ser determinados, pois não se pode tratar de tudo ao mesmo tempo e sob os mais diversos aspectos.  
A demonstração da tese é realizada mediante uma sequência de argumentos, cada um provando uma etapa do discurso. A demonstração, de modo geral, utiliza-se mais do processo dedutivo. 
 Na demonstração de uma tese, pode-se proceder de maneira directa, quando se argumenta no sentido de provar que uma proposta de solução é verdadeira, sendo as demais falsas. E isto por decorrência das premissas. Nesse caso, trata-se de  encontrar as premissas verdadeiras, objectivamente verdadeiras, e depois aplicar-lhes os procedimentos lógicos do raciocínio. 
 A demonstração, porém, pode proceder de maneira indirecta quando se demonstra ser falsa a alternativa que se opõe contraditoriamente à tese proposta. Assim acontece quando se demonstra que da falsidade de uma tese decorrem consequências falsas; sendo o consequente falso, o antecedente também é falso.
Também se demonstra a falsidade de um enunciado quando se mostra que ele se opõe directamente ao princípio de não-contradição ou a outro princípio evidente. E o caso da redução ao absurdo. 
Note-se que os termos dissertação, demonstração, argumentação e raciocínio são tornados, muitas vezes, como sinónimos. Neste caso, torna-se a parte pelo todo, considerando-se de maneira generalizada um processo parcial desenvolvido durante o discurso.
E, pois, lícito dizer que o discurso é, na realidade, um raciocínio ou ainda uma argumentação. 

Dissertação é a forma geral do discurso e quer dizer que o discurso está pretendendo demonstrar uma tese mediante argumentos; demonstração é, pois, o conjunto sequenciado de operações lógicas que de conclusão em conclusão chega a uma conclusão final procurada; argumentação é entendida como urna operação, uma actividade executada durante a demonstração pelo uso dos argumentos; já raciocínio é um processo lógico de conhecimento, operação mental específica que pode servir inclusive de argumento para a demonstração.
A argumentação, ou seja, a operação com argumentos, apresentados com objectivo de comprovar uma tese, funda-se na evidencia racional e na evidência dos fatos. A evidência racional, por sua vez, justifica-se pelos princípios da lógica. Não se pode buscar fundamentos mais primitivos. A evidência é a certeza manifesta imposta pela força dos modos de actuação da própria razão. Surge veiculada pelos princípios epistemológicos e lógicos do conhecimento humano, tanto por ocasião do desdobramento do raciocínio, como por ocasião da presentificação dos fatos. 
 A apresentação dos fatos é a principal fonte dos argumentos científicos. Daí o papel das estatísticas e do levantamento experimental dos fatos; no campo ou no laboratório, a caracterização dos fatos é etapa imprescindível da  dissertação científica. 
 A argumentação formal que se desenvolve no discurso filosófico ou científico pressupõe devidamente analisadas as suas proposições em todos os elementos, devendo se ter sempre proposições afirmativas bem definidas e devidamente limitadas. De fato, é com as proposições que se formam os argumentos.   
Argumentar consiste, pois, em apresentar uma tese,  caracterizá-la devidamente, apresentar provas ou razões que estão a seu favor e concluir, se for o caso, pela sua validade. Para evitar que fiquem abertas margens para dúvidas, devem ser examinadas eventualmente as razões contrárias, tentando-se refutar a tese e prevenindo-se de objecções. 
 Esse processo é continuamente retomado e repetido no interior do discurso dissertativo que se compõe, com efeito, de etapas de levantamento de fatos, de caracterização de ideias  e de fatos, mediante processos de análise ou de síntese, de apresentação de argumentos lógicos ou tatuais, de configuração de conclusões. 
 O trabalho cientifico, do ponto de vista de seus aspectos lógicos, pode ser representado, esquematicamente, da seguinte forma:
 
Fig. 1 - Tipos de trabalhos científicos
TIPOS DE TRABALHOS CIENTÍFICOS
Artigo
Texto com autoria declarada que apresenta e discute ideias, métodos, técnicas, processos e resultados nas diversas áreas do conhecimento, destinado à divulgação, através de periódicos.
Artigo Científico
Trata de determinado assunto resultante de pesquisa cientifica, destinado à divulgação através de uma publicação cientifica, sujeita à sua aceitação por julgamento.
Artigo científico pode ser entendido como um trabalho completo em si mesmo, mas possui dimensão reduzida. Köche afirma que “o artigo é a apresentação sintética, em forma de relatório escrito, dos resultados de investigações ou estudos realizados a respeito de uma questão”. Trata-se de um meio de actualização de informações e por isso, enquanto fonte de pesquisa, jamais pode ser ignorada por alunos e professores no processo de busca e aquisição de conhecimentos. Existem dois tipos de artigos: o original e o de revisão.
Crítica
Documento no qual é apreciado o mérito de uma obra literária, artística, cientifica, etc.
Dissertação
Documento que representa o resultado de um trabalho experimental, ou exposição de um estudo cientifico recapitulativo, de tema e bem delimitado em sua extensão, com o objectivo de reunir e interpretar informações. Deve evidenciar o conhecimento da literatura existente sobre o assunto e a capacidade de sistematização do candidato. É feito sob a orientação de um pesquisador, visando à obtenção do título de Mestre.
Ensaio
Documento relatando estudo sobre determinado assunto, porém menos aprofundado e/ou menor que um tratado formal e acabado, expondo ideias e opiniões sem base em pesquisa empírica.
Livros e Folhetos
Livros e folhetos são publicações avulsas, formadas por um conjunto sequenciado de folhas impressas e revestidas por capas. O folheto distingue-se do livro pelo número de páginas, deve ter, no mínimo 5 e no máximo 48 páginas.
Monografia
Documento que descreve um estudo minucioso sobre tema relativamente restrito. Frequentemente solicitado como “trabalho de formatura” ou “trabalho de conclusão” em cursos de graduação ou de pós-graduação “latu-senso”.
Conforme Bebber e Martinello, a monografia é “um estudo realizado com profundidade e seguindo métodos científicos de pesquisa e de apresentação de um assunto em todos os seus detalhes, como contributo à ciência respectiva”.
A monografia se define como um trabalho intelectual concentrado sobre um único assunto decorrente de um estudo que é realizado com profundidade e seguindo métodos científicos de pesquisa. Este tipo de trabalho pode assumir dois sentidos: o stritu e o latu.
Paper
Pequeno artigo científico, texto elaborado sobre determinado tema ou resultados de um projecto de pesquisa para comunicações em congressos e reuniões científicas, sujeitos à sua aceitação por julgamento.
O paper é um trabalho científico que tem como objectivo principal analisar um tema/questão/problema, por meio do desenvolvimento de um ponto de vista de quem o escreve. O paper geralmente trata do particular ou da essência do problema.
O paper tem como objectivo principal analisar um tema/questão/problema, por meio do desenvolvimento de um ponto de vista de quem o escreve. O paper geralmente trata do particular ou da essência do problema. Assim, a composição de um paper decorre do estudo e do posicionamento de quem o escreve.
Projecto de Pesquisa
Documento que descreve os planos, fases e procedimentos de um processo de investigação científica a ser realizado
Para Gil, projecto de pesquisa “é o documento explicitador das acções a serem desenvolvidas ao longo do processo de pesquisa”. Trata-se, portanto, do documento que nos permite planejar todas as acções inerentes à pesquisa.
Publicações
Publicações periódicas são editadas em intervalos prefixados, por tempo indeterminado, com a colaboração de diversos autores, sob a responsabilidade de um editor e/ou comissão editorial. Inclui assuntos diversos, segundo um plano definido.
Relatório Técnico-Científico
Documento que relata formalmente os resultados ou progressos obtidos em investigação de pesquisa e desenvolvimento, ou que descreve a situação de uma questão técnica ou científica.
O Relatório técnico-científico é um documento que relata formalmente os resultados ou progressos obtidos numa investigação. Descreve minuciosamente a situação de uma questão técnica ou científica.
Segundo Rauen, o Relatório se define como uma “[...] comunicação por escrito dos resultados de uma pesquisa, no qual se podem identificar: os passos da pesquisa, a revisão bibliográfica, a análise/interpretação dos dados e as conclusões estabelecidas”.
Trata-se de um tipo de trabalho que tem como finalidade descrever as etapas das investigações realizadas directamente na realidade (“in loco”). É capaz de apresentar, sistematicamente, informação suficiente para que se possam traçar conclusões e fazer recomendações à resolução de determinada situação-problema, caracterizando-se pela fidelidade, objectividade e exactidão de relato.
Resenha
É uma comunicação de pequeno porte relatando o resultado da avaliação sobre uma nova publicação (livro ou revista). A Resenha Crítica é uma modalidade de trabalho científico que consiste no desenvolvimento de uma síntese sobre uma obra, no sentido de expressar um juízo de valor acerca do assunto abordado. Corresponde à apreciação crítica de um texto com o objectivo de discussão das ideias nele contidas. Para desenvolver essa avaliação, é necessário que o resenhista recorra ao posicionamento de outros autores da comunidade científica.
Sinopse
Apresentação concisa de um artigo, obra ou documento.
Resumo
O resumo é a apresentação concisa das principais ideias de um texto. Resulta da capacidade analítica e compreensiva que o leitor adquire no momento em que faz sua leitura. Quanto mais se tem domínio e compreensão do texto, maior será a capacidade de síntese e de apresentação de forma breve.
Existem basicamente dois tipos de resumos: o indicativo e o informativo.


Ficha de leitura
A ficha de leitura é um instrumento adequado para se reter as informações resultantes de uma leitura. É o registo em algum suporte físico. Achar que a memória vai dar conta de armazenar tudo, é um grande engano. Na memória, infelizmente, não se pode confiar.
A ficha pode ser realizada com diferentes fins:
a) como instrumento de colecta de dados na realização de uma pesquisa bibliográfica;
b) como trabalho académico em disciplinas de graduação e pós-graduação;
c) como preparação de textos na apresentação oral de trabalhos em sala de aula;
d) como um instrumento auxiliar na leitura e registo das ideias de um texto.




CONCLUSÃO
Mediante os postulados, pode parecer um tanto quanto complicado ao autor elaborar seu artigo, mas o que na verdade ocorre é que, frente a tal incumbência, ele descobrirá pontos relevantes que o permitirão desenvolver habilidades, tais como: a de sintetizar suas ideias frente ao contexto científico, a de seleccionar de forma concisa e ao mesmo tempo precisa as fontes bibliográficas que lhe servirão de apoio, bem como a de avaliar melhor os dados colectados e apresentar os resultados obtidos, entre outros aspectos. A produção pode ser realizada de forma provisória, por meio de um projecto de pesquisa, o qual delimitará as bases que fundamentarão o trabalho a ser realizado. Foi de grande relevância fazer pesquisar este tema que de facto aumentou a minha capacidade de aprendizagem concernente ao que diz respeito a trabalhos científicos.




BIBLIOGRAFIA
ü  LAKATOS, Ena. Metodologia do Trabalho cientifico.5ª ed, São Paulo; editora Atlas: 2003.
ü  ANDRADE, Maria Margarida. Metodologia do Trabalho cientifico 6ª ed. São Paulo :Atlas, 2003.

ü  SEVERINO, Jaquim, Metodologia do Trabalho Cientifico,2ª ed, São Paulo Cortez Editora, 2001.

Vida e obra de Alda Lara

INTRODUÇÃO
Neste trabalho poderemos falar detalhadamente da poetisa Alda Lara que deu muito contributo nos textos poéticos de Angola. É muito importante falar dos grandes autores que deram muito do seu saber para a libertação de Angola na era colonial e deram muitos incentivos nos nossos antepassados para que despertassem de como o colono estava a interagir com os produtos de Angola. Por sua vez Alda Lara contribui de uma forma literal com poesias para despertar a visão dos irmãos angolanos que naquele tempo trabalhavam com a mão de obra muito barata. E neste trabalho tratamos de muitos assuntos que tocam nos aspecto ligados a literatura.



A ESCRITA FEMININA NO PANORAMA LITERÁRIO AFRICANO EM LÍNGUA PORTUGUESA

A produção literária de autoria feminina ainda é muito incipiente nos países africanos de língua portuguesa. Isto constitui um paradoxo, já que durante as lutas libertárias as mulheres desempenharam importante papel político nas organizações que lutavam contra o colonialismo. No cenário literário angolano figura como precursora na poesia Alda Lara, autora de Poemas (1966), Poesia (1979) e de um livro de contos intitulado Tempo de Chuva (1973). A temática de sua obra é a opressão, que assola homens e mulheres em geral, e, apesar de abordar questões universais como a fraternidade, a solidariedade e a paz, seu enfoque poético está direccionado para as formas de acção feminina na busca do espaço sonhado, em especial nos anos de 1950-1960, quando se intensificava o projecto libertário angolano.
Trilhando entre o «eu», o sonho e o povo, características que a aproximam de Alda Lara, Noémia de Sousa direcciona seus versos para apreender o próprio «eu» como expressão da subjectividade feminina repleta de imagens que corporificam os desejos «espirituais, admirações, dores e sensações». Numa leitura intertextual entre «Negra», de Noémia de Sousa, e «Prelúdio», de Alda Lara, verifica-se a força da voz poética feminina, que no dizer de Inocência Mata, em Literatura Angolana: silêncios e falas de uma voz inquieta, se liga à ideia de regresso e comunhão com a Terra, com o Povo e com a causa colectiva.
As marcas da oralidade e da História permeiam a poesia de Alda Lara.
Entre os temas propostos pelas escritoras, está o repensar da condição feminina, num cenário social marcado pela opressão, pela submissão feminina e pelas guerras coloniais que silenciaram a confraternização presente no ritual do contar estórias em volta das fogueiras. Mas há também lugar para o amor revivificado na intersecção dos tempos, ponto de convergência entre tradição e modernidade.
A poética e a prosa femininas nas comunidades africanas de língua portuguesa colocam o leitor diante de cenas e sinais de mulheres em espera e acção, em silêncio e canto, em cansaço e renovação, metaforizadas por vozes marcadamente orais que aproximam os sentidos na reescrita literária, reinventando imageticamente o papel da mulher nessas comunidades.  
A poetisa Alda Lara aparece na antologia [revista Mensagem] com alguns de seus mais conhecidos poemas. As características mais significativas de sua poesia são, sem dúvida, a expressão de um grande amor ao seu semelhante e a acolhida ao sofrimento do outro. Estas características podem privilegiar visões contrastantes sobre a beleza da natureza e o sofrimento do angolano (conforme “Prelúdio”) ou declarar um amor intenso a Angola, valendo-se da poesia para descrever as belezas “das acácias, dos dongos e dos cólios” que marcavam um forte contraste com os cenários europeus. É interessante observar, nos poemas de Alda Lara, uma preocupação visual que se concretiza na composição de pequenos quadros que procuram captar as belezas de Angola, metonimizada pelos “coqueiros de cabeleiras verdes”, e de sol ardente e pelas “acácias rubras, /salpicando de sangue as avenidas, /longas e floridas” (p. 111). Distante das descrições de cenários africanos presentes na chamada “literatura exótica” produzida em vários momentos do período colonial ou nas famosas “cartes de visite”, postais ilustrados com paisagens e tipos humanos dos espaços colonizados, produzidos com a intenção de vender a diferença exótica aos europeus, os cenários poéticos criados com detalhes da natureza africana produzem outros significados na poesia de Alda Lara. A intenção mais evidente em seus poemas é a de expressar um grande amor à terra angolana (“Noites africanas langorosas/esbatidas em luares..../perdidas em mistérios…“), exaltar a exuberância das cores das flores e os odores dos frutos, e, através desses artifícios de motivação pictórica, denunciar a opressão sofrida pelos angolanos, seus irmãos. Por isso, em alguns poemas, os recursos picturais utilizados pela poetisa procuram ressaltar o horror disseminado por acções humanas, pela opressão intensa sofrida pelo seu povo. Por isso é preciso considerar que, na poesia de Alda Lara, a descrição do horror e de atrocidades figura intenções que vão além de aspectos meramente descritivos. As cenas de mutilação, tal como aparecem, por exemplo, no belo poema “Momento” almejam descrever sentimentos de compaixão, repúdio, mas também dão à descrição um peso que ratifica a denúncia e inscreve nos versos a abjecção.
O impacto da cena descrita, com recursos visuais explorados com grande perícia pela poetisa, fica intensificado na referência à dor das mães, das noivas e na alusão às crianças, que, por uma estratégia discursiva de grande efeito, podem ser visualizadas porque assim o permitem os significantes que compõem o primeiro verso da 3 estrofe: “e do ventre de além-mundo”, distendendo o tempo da acção invocada pelo poema.
No poema “Regresso” (pp. 116-118), referentes da terra angolana são empregados para ressaltar as cores vivas e os odores fortes que compõem paisagens singulares. O eu-poético se regista com marcas de intensa subjectividade e as paisagens lembradas são esmiuçadas para compor cenários em que as cores das casuarinas, das acácias rubras e dos cheiros exalados pelo “húmus vivificante” e pelo desenho do mar que contorna “uma cidade em convulsão” possam construir uma visão em que o feminino se mostra com intensidade na declaração do amor pela terra natal.
Conforme se destacou em outro trabalho, a visão e o olfacto são os sentidos privilegiados para propiciar recortes em que a terra africana é descrita em toda sua pujança, vista como um lugar paradisíaco, onde é possível viver o “prazer sem lei” expandido em excesso (cf. FONSECA: 2004). A simbologia da Mãe-Africa, reiterativa nos poemas de afirmação da identidade africana, inscreve um outro olhar que procura descrever os cenários da terra aquecida por um sol “esplendoroso e quente”. Também no poema “Presença [Africana]” (pp. 114-115), a relação entre o feminino e a terra angolana, entre o corpo da mulher e o da terra africana, ressalta aspectos que tornam Angola um micro-cosmo de um continente significado por “coqueiros de cabeleiras verdes! e corpos arrojados sobre o azul”. Nesse poema, a mulher, literariamente construída (“E apesar de tudo/ainda sou a mesma!/Livre e esguia”), realça-se com os atributos da terra africana e, através desse recurso poético, concretiza uma visão feminina do ideal a ser conquistado. A terra do “dendém”, “das palmeiras”, das “acácias rubras” é percebida através de atributos que se relacionam com a função materna (“mãe forte da floresta e do deserto”) ou com um sujeito que se declara afetivamente irmã (“ainda sou /a irmã-mulher”). Assim os poemas de Alda Lara, ao cantar o amor pelos irmãos miseráveis ou construir flagrantes em que a beleza da terra angolana é reiterada, expande o intimismo e faz da visão um mecanismo hábil à apreensão de cenários em que o outro (a Mãe-negra, os oprimidos, os companheiros de ideal) é a motivação maior de uma arte feita com a escrita. 
ESBOÇO DE INTERPRETAÇÃO DA POESIA DE ALDA LARA
Alda Lara pertence a um núcleo de alta burguesia comercial, que dispunha das disponibilidades necessárias para dar aos filhos cursos superiores nas terras longes de Portugal. Elemento este que, como é óbvio, nos ajuda a colocar o poeta e a entender melhor a articulação do seu canto. Em tal caso a poesia surge como uma soma orgânica de conteúdos humanos e a poesia sugere a elaboração de uma atitude coerente que representa a totalidade de uma acção humana. Neste aspecto a poesia de Alda Lara caracteriza não só o ambiente Benguelense que foi o da sua infância e de parte substancial da sua adolescência, mas também o despaisamento, o exílio, como será melhor dizer, do estudante angolano nas universidades portuguesas. 
Decerto que Alda Lara só por reflexo familiar sentiu a totalidade dos problemas cívicos que atingiram o cume nos anos 40; não os podia ainda investigar e sentir com exacto conhecimento de causa. E o facto de ter abandonado Benguela muito cedo para fazer em Lisboa e em Coimbra o seu curso de medicina, iria deixar-lhe na retina o canto rubro e incendiado (para alguns poetas angolanos também incendiário) das acácias das ruas de S. Filipe de Benguela, os cólios e os coqueiros e também a imagem dos quintalões benguelenses, que eram ainda o compromisso entre uma cultura que procurava assentar as suas bases numa efectiva mestiçagem e o despontar de atitudes mais rígidas entre as etnias (que a rápida valorização dos «produtos coloniais», nos anos seguintes a 1945 firmou definitivamente) que hoje são moeda corrente. Não podemos esquecer que é desse ambiente que lhe nasce o pendor patriarcalista que pode beber ainda no trato familiar, embora muitas vezes se perturbe perante a mestiçagem que é elemento comum, irreversível. Como já iremos ver, a atitude irracional da poesia de Alda Lara, assenta em grande parte numa atitude utópica, que desconhece os elementos imediatos do real. 
A poesia de Alda Lara está incompleta. É, antes de mais, uma poesia que vive no mundo da infância ou de uma primeira fase da adolescência. Poesia duplamente exilada, por consequência. Toda a vida interior do poeta se articula em relação a uma angolanidade que, embora não sendo conjugada com todos os elementos do real, é no entanto uma força aglutinadora que não pode ser descurada, mas nas palavras entrevemos, implícito ou explícito, o sentimento do exílio e, algumas vezes, a suspeita dolorosa de que a sua angolanidade não se apoderou dos elementos mais significativos. Ou, se não quisermos ir tão longe, a poesia sente que não cuidou de se apoderar de todos os elementos significativos. É este sentimento angustioso que leva Alda Lara a escrever no poema «Presença [Africana]», em que se promete à sua terra, ainda intacta, ainda idêntica a rapariguinha que saiu de Benguela, não para se deixar destruir nas terras frias e opacas da Europa, mas sim para regressar viva, senhora de uma sageza actuante. Eis que Alda Lara examina os seus mínimos gestos para saber se, realmente, enquanto anda, bebe, dorme, trabalha, passeia, não se transformou na Outra, que poderia trair, que por certo trairia, a sua mesma angolanidade. Problema que, em tal caso, a obriga a verificar as roldanas da sua intimidade, para acabar, por verificar que, apesar de tudo, é ainda a mesma (mas quanta inoculta angústia aqui se insinua, no receio de que alguém possa destruir a afirmação denunciando-lhe os desvios). Pois é esta forma adversativa que nos importa reter já que através dela chegaremos ao cerne de uma poesia desgarrada, por não lhe ter sido possível viver os problemas na sua imediatidade, pois eram elementos apenas sentidos. Não esqueçamos que lhe faltam pontos de referência, e que a sua linguagem trabalha num vácuo que o poeta não pode evitar; deseja ir ao mais fundo dos problemas, mas não lhe estão próximos, sente-os por refracção. E a ordem da sua poesia não é já um lento caminhar através das essências de uma angolanidade racionalmente estruturada, mas um assalto precipitado aos signos, engendrando um estilo que, embora dotado de boas qualidades rítmicas, pretende chegar depressa. Esta busca apaixonada da sua própria raiz, não aniquila a possibilidade de um estilo, mas corroe o imo significativo da poesia transformando-a num elemento ambíguo. Coisa que Alda Lara sente, e que nos leva a concluir que a sua poesia não chegou a completar-se. Em vez do círculo fechado e total, temos o ângulo raso.
OS VALORES DO CENTRO
Se, simultaneamente, atentarmos nos textos escritos a partir do Centro e do Sul [de Angola], verificaremos ainda que em alguns deles perpassa, ora uma tímida consciência regional, ora uma procura de diferenciação face a Luanda.
Na apresentação da colecção Bailundo, no livro de Alexandre Dáskalos, há um manifesto assinado por Ernesto Lara Filho e Inácio Rebelo de Andrade, que se localizam no Huambo. A peça afirma claramente a intenção de “dar a conhecer os valores do centro de Angola, ao mesmo tempo que se pretende estender dois braços — um para o Norte e outro para o Sul — para ligar num amplexo fraterno essas duas correntes literárias já com vida própria [referem-se à colecção Autores Ultramarinos e à Imbondeiro].
Numa carta sintomática, enviada a Inácio Rebelo de Andrade a partir de Lisboa e datada de 21 de Janeiro de 1962, Ernesto Lara Filho garante, a propósito da sequência a dar à Colecção Bailundo: “Eu creio que a Alda, depois do Aires e com os «apports» do Alexandre Dáskalos e meu, apesar de pobres, temos muito ainda que dizer em Angola, devemos dizê-lo. Acho melhor sacrificar o resto da colecção a essa necessidade premente que há imediatamente, de dizer algo, sobre o Centro de Angola, literariamente falando, claro. Aliás, autores ultramarinos acabam de publicar os seguintes poetas: António Jacinto, Agostinho Neto, Alexandre Dáskalos, Manuel Lima, etc etc, dando um carácter estritamente político à coisa. Bailundo é literatura como nós combinámos e de «pés fincados na terra». Assim, eu creio que ainda e acima de Imbondeiro e Autores Ultramarinos, vamos no caminho mais certo que é o moderado, o do centro, o do centro de Angola, por casualidade.”
Numa carta de Alda Lara ao irmão (parcialmente copiada por este naquela a que acabamos de aludir, e talvez escrita em 1961) a identificação regional da sua poesia é igualmente assumida conectando-se com o distanciamento face à estrita partidarização da Mensagem: “Gostaria que me dissesses o que devo fazer para te enviar uma selecção dos meus poemas para a Colecção Bailundo. Creio já ser tempo de os pôr cá fora, e na verdade gostaria mais de os ver «integrados» na Colecção Bailundo do que na dos Autores Ultramarinos. Nem sequer é por razões políticas. Nunca as tive e agora é que as não tenho mesmo. A política e tudo quanto dela deriva dá-me vómitos, para te falar com franqueza. E apenas porque situo a minha poesia mais próximo da tua ou da do Aires de Almeida Santos do que da dos outros. Compreendido? Mais tarde, a geração futura decidirá quais foram os verdadeiros «poetas». O resto é nada.” 
TEMAS DE ESTUDO EM TORNO DA POÉTICA DE ALDA LARA:
- Auto-representação do “eu”.
- A imagética feminina: inconformismo vs destino de mulher.
- Uma educação para os valores: solidariedade, fraternidade, generosidade, evangelismo…
- Representação de África: os lugares de afecto, enfeitiçamento e amor pátrio.
- Um olhar sobre o outro (o objecto de desejo amoroso).
COM NOTÁVEIS QUALIDADES DE NARRADORA
Após a morte poetisa, a câmara municipal de Sá da bandeira (actual Lubango) criou em sua homenagem o Prémio Alda Lara de Poesia, tem as seguintes obras editadas.
Poemas obras completas de Alda Lara (1966/1973); tempo de chuva (1973); Poesia (1979). Alda Lara figura na maioria das antropologias de literatura africana em língua portuguesa.
Obra completa do Alda Lara do 1º livro.
abandono, entardecer, destino, lago, ronda, poemas que eu escrevi na areia;
Misere, Apelo poema da mesa pintada, Testamento, Momento, Confissão, As belas meninas pardas, Carta aberta, Romance, Círculo, Maturidade, Toada da menina Bela, Herança, A caminho, presença, presságio, voz na encruzilhada, trilogia do autono, anúncio, Quadra da minha solidão, Prelúdio, presença africana.
Alda Lara: Alda Pires Barreto de Lara e Albuquerque nasceu em Benguela a 9 de Junho de 1930 e faleceu em Cambambe a 30 de 01 de 1962. Formou-se em medicina na Universidade de Coimbra, em Portugal com uma tese sobre psicatria infantil. Enquanto estudante manteve ligação estreita com a casa dos estudantes do imperior, em Lisboa. Convidada para se especializar em Paris , preferiu voltar para o seu país de origem declamadora de notáveis recursos  , deu várias receitas em Lisboa Coimbra, divulgando a poeta das diversas colónias portuguesas. Deixou o completo um livro de conto e outras escritas dispersas, além de colaboração diversas em vários jornais de Portugal, Angola e Moçambique.
O escritor Orlando de Albuquerque  que foi casado com Alda Lara escreveu a sua poesia se caracteriza por uma intensa angolanidade implícita e, sobretudo por um extremo amor e carinho quase ternura, pelos outros, acrescentando que era possuidor de um estilo rico e influente.
Entardecer
I A hora medrosa do
entardecer desfolha mariposas de sonhos nos jardins...
II E vou de mãos dadas com ela,
Caminhando silenciosa e leve,
p´ra não acordar os lilases que dormem, encostando as suas
cabecinhas roxas sobre almofadas
dos muros...
III  Vou em bicas silenciosa e breve...
                                                           03 de 1959  Coimbra
Destino
I Nenhum seria mais longo
que o da asa roçando ao de leve uma
Corola...
II Nenhum abraço mais quente que o
vento orno de verão embalando
as folhas...
III Nenhum adeus seria mais ardente
que o  adeus olhas
levemente...
IV Nada seria mais denso que a presença
frágil de um desejo apenas...
E tudo o resto que foi?
Senão a presença frágil, senão
a asa e o vento, senão adeus silente
com que só amas e olhas os que
olhas levemente?
                                                            1951
Lago
I Todo o meu ser é um lago fundo e doce...
II Por onde passeiam barcos com meninas...
III Namorados que se beijam em noites sem destino...
IV E também tu! Oh belo solitário inesquecível...
V Todo o meu ser é um lago doce e fundo...
VI Onde a tristeza é uma ansiosa e indefinível aspiração...
Toada da menina Bela
- Menina Belas, queres a lua?
- Não... basta me o que só me deram.
- Menina Bela, queres a lua?
- Não...
Mas a voz tornou ao fundo dessa rua:
- Q queres então menina?
E a menina soluçou:
- A lua!
                                                                       1950
Herança
Meu filho: que os teus braços sejam longos como
a menina Esperança nos longos dias...
e o teu corpo, que antevejo, venha flexível e liso como a justiça que desejo...
Os teus lhos nasçam poços onde descansam para sempre a
paz do tempo todo e o teu peito seja tão grande e tão produzindo, que lhe
possa confiar o mundo...
                                                                       Lisboa, 1950

A caminho
Vai amigo...
vai, e não esperes mim...
 ao longe fica a estrada, talvez certa,
talvez bela. É tua esta jornada. Já passas a cancela...
porque olhas para trás?...
Vai amigo...
Amanhã voltarás.
É longo o meu adeus. Estão tristes os meus olhos por tudo, eles me estão tristes neste fim...
Mas vai, que a hora é breve...
Não esperes por mim.
                                                                       1948 - 195?
Presença
Não perguntes por que vim...
trazendo não - flores nos dedos,
falando línguas diferentes,
dizendo em risos - segredos,
todos os sonhos dementes...
Não pergunte porque vim...
Se pudesses entender este
este pulsar sem medida terias chegado
do fim...
Mas estou junto a ti, a ti, irmão, diz-me então,
que mais te importa?
Não perguntes porque vim...
                                                                       Lisboa 1952
Presságio
Algum dia,  o sol virá apodrecer a minha, carne antiga...
a chuva derreterá o gelo que me impediu de sentir durante tanto tempo!,
e um vento doloroso e forte varrerá toda a campina...
E ficarei então deserta...
E na solidão da planície,
incerta puderas-me caminhar ao longe...
Vestida de sifêncios e de lírios,
com a libertação a coalhar no fundo das matérias...
E não me recompensarás.
                                                                       Lisboa 1953




CONCLUSÃO
Chegamos a conclusão de que Alda Lara nunca deixou de partilhar as preocupações da angolanidade, soube escrever aproveitando a superação lírica do neo-realismo realizada pelos poetas da Távola Redonda, ainda que mantenha por vezes um tom conclamatório e didáctico que de lá lhe terá vindo. As considerações a respeito de Alda Lara como a expressão da fase dura das lutas contra o regime colonial, em que o “fazer poesia significou um comprometimento com a luta pela libertação”. Os seus versos cantam as belezas do continente ou denunciam as atrocidades impostas pela colonização, uma vez que tinham, por missão, fazer com que os africanos redescobrissem a África que existia por detrás da opressão.




BIBLIOGRAFIA
ü    EVERDOSA, Carlos. Roteiro da Literatura Angolana. Luanda: Edição da Sociedade Cultural de Angola, 1974.


Vida e obra de Viriato da Cruz

VIDA E OBRA VIRIATO CLEMENTE DA CRUZ
Viriato Francisco Clemente da Cruz nasceu em Porto Amboim, aos 25 de Março de 1928 e morreu em Pequim, República Popular da China aos 13 de Junho de 1973. Foi considerado um importante impulsionador de uma poesia angolana, nas décadas de 1940, 1950 e 1960, e um dos líderes da luta pela libertação de Angola.
Actividade Política
Viriato cresceu numa família em situação económica difícil, uma vez que o seu pai o tinha abandonado. Apesar destas dificuldades, fez estudos liceais no Liceu Salvador Correia. Nos anos 1950 esteve em contacto com a movimentação anticolonial clandestina em Luanda, incluindo o Partido Comunista Angolano (PCA), fundado naquela altura. Abandonou Angola por volta de 1957 para se dirigir a Paris onde se encontrou com Mário Pinto de Andrade, desenvolvendo actividades políticas e culturais.
A primeira digressão pela China Continental foi em Novembro de 1958, e durou 3 semanas. Tanto Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade foram a Pequim, Xangai e Guangzhou (Cantão).
Tal como Mário Pinto de Andrade, Viriato participou na fundação, no exterior de Angola, do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), em 1960, tornando-se o seu secretário-geral. Nesta capacidade fez parte de uma delegação da recém-formada FRAIN (Frente Revolucionária Africana pela Independência Nacional dos Povos sob Domínio Português) que, ainda em Agosto de 1960, fez uma viagem à China para obter apoios. Este foi um passo fundamental para Viriato da Cruz. Ele trouxe dinheiro que ajudou a nível político-militar e financeiro o MPLA.
Em 1962, Viriato da Cruz abandonou o cargo de secretário-geral do MPLA, devido a insanáveis divergências com o presidente do movimento, Agostinho Neto, e foi formalmente expulso, em 1963.
Nos dias 24 e 30 de Abril de 1963, Viriato da Cruz participou na Conferência de Jornalistas Afro-Asiáticos, patrocinada pelos regimes de Ahmed Sukarno e Mao Zedong, que levou à fundação da respectiva associação, que excluía propositadamente a União Soviética, recorrendo ao argumento que eram "brancos". Por outras palavras, ajudou a instituir mais um organismo rival criado pela China Continental, contra a União Soviética. Viriato integrou a mesa da presidência da reunião, em representação de Angola.
Na China
Valendo-se dos contactos anteriores, Viriato da Cruz viaja em 1966 para Pequim onde mais tarde fixaria residência. A sua chegada deu-se, assim, no início da Revolução Cultural Chinesa, e foi recebido pelos dirigentes chineses, dentro do espírito daquele período chineses.
Os dirigentes chineses recebem-no de braços abertos, pois tinha demonstrado uma enorme capacidade na criação do primeiro Partido Comunista de Angola (PCA) e, posteriormente, do MPLA, primeiro em Conacri e, depois, no Congo Belga (neste foi detido e sofreu torturas, por defender ideias contrárias às estabelecidas). Uma das suas primeiras acções foi o de ajudar a dividir a Organização de Escritores Afro-Asiáticos (OEAA), no decorrer da sua Assembleia Geral Extraordinária, que decorreu em Pequim entre os dias 27 de Junho e 9 de Julho de 1966, em duas agremiações distintas: a pro-soviética, baseada no Cairo, e a pro-chinesa, com sede em Pequim e em Colombo, no Sri Lanka. Os chineses entendiam que Viriato da Cruz poderia facilitar a penetração ideológica do socialismo maoísta no continente africano - o que não sabiam era que estavam profundamente enganados; daí nasceu um grave mal-entendido com consequências trágicas para Viriato e para a sua família.
Pouco tempo depois instaram-no a proferir um discurso nas comemorações do dia nacional da República Popular da China, 1 de Outubro de 1966. Em nome do povo angolano, Viriato da Cruz exaltou o pensamento do dirigente máximo chinês, as actividades dos Guardas Vermelhos e a "revolução cultural" em curso. Para as derrotar era necessário constituir uma "frente única internacional" contra o imperialismo americano e o imperialismo russo, que congregasse os povos da Ásia, da África e da América Latina.
Elabora um relatório onde afirma que os países Africanos, mesmo os mais desenvolvidos, não estão preparados para uma revolução socialista. Demonstra então grande firmeza ao recusar-se a mudar o relatório. Esse aspectos do seu carácter já lhe tinha valido graves dissabores na sua curta vida política quando da crise de 1962-63, no seio do MPLA. O relatório pessimista elaborado por Viriato ia contra a doutrina maoísta da iminência da revolução mundial.
Os chineses começaram a ver que Viriato se distanciava cada vez mais das teses maoístas e mantiveram-no como refém. Ele não entendia porque não o expulsavam. Mas os Chineses temiam a inteligência superior de Viriato e as consequências negativas que ele poderia causar à causa maoísta se saísse da China.
Últimos anos de vida na China
Com o claro propósito de precipitar a expulsão do seu marido e família da China, a mulher de Viriato, Maria Eugénia, derrubou o busto do presidente Mao Zedong. O efeito foi precisamente ao contrário, as autoridades chinesas desterraram-nos para um campo de trabalho na região sul da cidade de Pequim. Os últimos anos de vida de Viriato foram marcados por falta de alimentos, colidindo na fome que acabou por fragilizá-lo. Veio a falecer no dia 13 de Junho de 1973. No entanto, a derradeira humilhação foi a maneira abjecta como foi levado para o cemitério dos estrangeiros: entaipado entre quatro tábuas, transportado num camião militar.
Principais obras
  • Poemas (1961). Entre os seus textos poéticos, destacam-se Namoro, Sô Santo e Makézu.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  1. Edmundo Rocha, Francisco Soares, Moisés Fernandes (orgs.), Viriato da Cruz: O homem e o mito, Lisboa: Prefácio e Luanda: Chá de Caxinde, 2008


Vida e obra de Agostinho André Mendes de Carvalho ou Uanhenga Xitu

INTRODUÇÃO
Agostinho André Mendes de Carvalho ou Uanhenga Xitu, foi inegavelmente um dos escritores angolanos de primeira linha. Pertenceu à geração de autores mais velhos ainda em actividade. Foi um dos mestres da literatura angolana. E ele fez jus a esse estatuto não apenas no domínio estrito da criação literária, em que os seus livros servem de inspiração e modelo a muitos neófitos da coisa literária, mas também no do activismo literário, transmitindo aos jovens a sua vasta experiência humana e até apadrinhando-os de modo quase incondicional. Apesar de ter a sua obra estudada em várias universidades, sendo objecto de teses de mestrado e doutoramento, para além de possuir uma legião incomensurável de leitores fiéis em Angola e noutros países de língua portuguesa, Uanhenga Xitu nunca se assumiu como escritor. Preferiu que o considerem apenas um “contador de estórias”. Mas claro que ele foi um escritor. Um escritor de estilo despojado de circunlóquios e floreados “literários”, dono de uma escrita que parece brotar directamente da fala popular. É como se essa escrita fosse tão somente a fixação dessa fala. Uanhenga Xitu, na sua própria concepção, seria assim um griot, um desses emblemáticos bardos africanos depositários da memória colectiva.



VIDA E OBRA DE UANHENGA XITU
Uanhenga Xitu, nome quimbundo de Agostinho André Mendes de Carvalho, nasceu em Calomboloca, a 29 de Agosto de 1924 e morreu aos 13 de Fevereiro de 2014. Estudou Enfermagem, em Luanda e Ciências Políticas na extinta República Democrática Alemã. Em 1959, durante a ditadura de António de Oliveira Salazar, que se estendeu desde o golpe de Estado em Portugal a 28 de Maio de 1926 até 25 de Abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, Uanhenga Xitu foi preso pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), por ser militante do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).
O primeiro manifesto do MPLA foi publicado em Dezembro de 1956 e, em 4 de Fevereiro de 1961, o movimento iniciou a revolução armada com o assalto às prisões de Luanda.
A tentativa de libertar dirigentes e militantes do movimento foi reprimida brutalmente pelas autoridades. Alguns prisioneiros, como Uanhenga Xitu, António Jacinto, Luandino Vieira e António Cardoso, foram desterrados para o Tarrafal. (cf. ERVEDOSA, 1979, p. 136-137) Uanhenga Xitu permaneceu, de 1962 a 1970, no campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde), onde começou a escrever seus contos. Publicou O meu discurso (1974), “Mestre” Tamoda (1974), Bola com feitiço (1974), Manana (1974), Vozes na sanzala / Kahitu (1976), Maka na sanzala (1979), Os sobreviventes da máquina colonial depõem (1980), Os discursos do Mestre Tamoda (1984), O ministro (1989) e Cultos especiais (1997).
Após a Independência, proclamada, em Luanda, à meia-noite do dia 11 de Novembro de 1975, por Agostinho Neto, Uanhenga Xitu exerceu cargos como: Membro do Conselho da Revolução, Comissário (Governador) da Província de Luanda, Ministro da Saúde de Angola, Embaixador da República Popular de Angola na República Democrática Alemã e na República da Polônia. Actualmente, é Deputado na Assembleia Nacional pela Bancada do MPLA, tendo sido membro do Comitê Central do MPLA até 1998. É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA).
Fundada em 10 de Dezembro de 1975, a  União dos Escritores Angolanos tem por objectivos defender a dignidade e especificidade cultural angolana, activar o inventário cultural do país no contexto do renascimento cultural africano, e organizar os escritores para prosseguirem na luta pela conquista de um futuro digno. (cf. ERVEDOSA, 1979, p. 154-155)
Ainda que Uanhenga Xitu tenha nascido literariamente na década de 1970, o crítico literário angolano Luis Kandjimbo não hesita em enquadrá-lo na geração de 1948, marcada  pelo movimento intelectual “Vamos Descobrir Angola!”, que pretendia uma “reacção à tentativa assimilatória que vinha despersonalizando o negro sem o integrar de fato em um novo contexto de valores.” (MOURÃO, 1978, p. 33) Uanhenga Xitu tornou-se célebre por “Mestre” Tamoda, publicado pela primeira vez na Colecção Capricórnio, iniciada em 1973, no Lobito, pelo editor Orlando  de Albuquerque. Nesse conto, o escritor situa-se entre duas culturas bem conhecidas por ele: a tradicional (do colonizado) e a moderna (do colonizador), e os traços de ambas poderão ser notados no diálogo entre a sanzala e a cidade.
A abordagem rural da escrita de Uanhenga Xitu hoje, 39 anos depois da nossa independência, de liberdades constitucionalmente asseguradas ao cidadão logo à nascença, pode parecer aos olhos de leitores desavisados algo normal e pouco importante. Ela pode ser melhor compreendida se dissermos que Uanhenga Xitu pertence a uma geração de angolanos que foi submetida aos rigores do processo de assimilação cultural, pelo regime colonial. Esse processo visava, em última instância, que o autóctone negasse a sua própria cultura, a sua história, e adoptasse a cultura do colonizador.
É nesse contexto que se deve valorizar o feito de Uanhenga Xitu: constitui um acto de resistência, ou melhor, de libertação. (Lembre-se que tanto “Mestre Tamoda” como “Kahitu” foram escritos durante os anos em que o autor esteve preso, por actividades nacionalistas, no centro prisional do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde).
Agostinho André Mendes de Carvalho, o homem, o político e também o escritor, já foram alvos de homenagens públicas, merecidas. É sempre bom quando um ente humano é testemunha das homenagens públicas e cerimoniais que lhe são prestadas. Mas o maior tributo que se pode prestar a um escritor é a reedição e a difusão dos seus livros. Aos 84 anos de idade, Agostinho Mendes de Carvalho, a encarnação de Uanhenga Xitu, é um político angolano de referência.

Os Livros
Eminente contador de ‘estórias’ populares, a narrativa de Uanhenga Xitu, estava cheio  do rigor literário, pois a preocupação primária do autor é estabelecer uma ligação semiótica com o seu povo, que o estimula a escrever. A sua vivência na senzala transformou-o num homem solidário e interessado com as necessidades humanas. Numa entrevista, Uanhenga Xitu afirmou que "o que me preocupa é a situação social do povo". Em 2006 recebe a distinção do Prêmio de Cultura e Artes na categoria de literatura pela qualidade do conjunto da sua obra literária, causando-lhe uma enorme surpresa. Sendo assim, o homenageado e culto escritor angolano entrou na lista dos melhores autores da história literária Angolana.
Alguns títulos da obra de Uanhenga Xitu :
- O Meu Discurso
- "Mestre" Tamoda
- Bola com Feitiço
- Manana
- Vozes na Sanzala (Kahitu)
- "Mestre" Tamoda e Outros Contos
- Maka na Sanzala
- Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem
- Os Discursos do "Mestre" Tamoda




CONCLUSÃO
Uanhenga Xitu foi um escritor popular, cuja escrita simples é um perfeito passaporte para quem se queira iniciar no mundo da leitura. É preciso ressaltar que em literatura, como nas artes em geral, o simples não é necessariamente sinónimo de fácil. O mais fácil é escrever difícil, complicado. Por detrás da aparente simplicidade da escrita de Uanhenga Xitu emergem figuras e ambientes que jamais tinham sido, tão claramente, realçados na literatura angolana. Na sua obra o quotidiano da vida rural, o homem do mato, o ambiente das sanzalas, em toda a sua singeleza e riqueza, foram descritos de modo tão honesto e humanizante que se gravam, indelevelmente, na memória do leitor. A sua morte pois embora já mais velho, deixou um vazio para o povo angolano. neste contexto poderemos preservar os seus ensinamentos nas nossas mentes, seguindo os seus conselhos lendo livros e poemas que foi escrito por ele. De facto foi um dos compatriotas que tanto lutou para o colonialismo português e para a independência de Angola.




BIBLIOGRAFIA
ERVEDOSA, Carlos. Roteiro da literatura angolana. 2. ed. Lisboa: Edições 70, 1979.
LEITE, Ana Mafalda. Oralidades & escritas nas literaturas africanas. Lisboa: Edições Colibri, 1998.

MACEDO, Jorge. Literatura angolana e texto literário. Porto: Edições Asa / Luanda: UEA, 1989.