sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Kant (1724-1804)


VIDA E OBRAS: Kant caracterizou suas obras como uma ponte entre as tradições racionalista e empirista do século XVIII, e sua revolução na teoria do conhecimento e metafísica talvez seja o desenvolvimento filosófico mais importante dos tempos modernos. Mas sua influência nas áreas da filosofia da religião, ética e estética foi igualmente profunda.
Kant passou toda a sua vida em sua cidade natal, Königsberg, sem jamais se afastar de casa por um dia. Em 1740 ingressou na Universidade de Königsberg. Após se formar foi preceptor particular antes de se tornar docente na universidade, em 1755, ensinando diversas matérias, como física, antropologia e geografia, além de filosofia. Aos 45 anos foi nomeado professor de lógica e metafísica. Ele foi um dos mais influentes filósofos europeus desde os gregos antigos. Sua reputação foi crescendo aos poucos, chegou ao ponto em que ele passou a se preocupar com a direção assumida pelos que se diziam influenciados por sua filosofia, a saber, os primeiros proponentes do que veio a ser conhecido como Idealismo Alemão. Embora nunca fizesse viagens longas e tivesse uma rotina tão sistemática que as pessoas podiam acertar seus relógios por ele, não era uma figura solene. Na verdade, gozava de uma vida rica social e era conhecido por suas brilhantes palestras. Textos essenciais: Crítica da razão pura; Fundamentos da metafísica dos costumes; Crítica da razão prática; Crítica do juízo. 

PRINCIPAIS IDEIAS: O primeiro problema que Kant enfrentou foi descobrir como fazer descobertas positivas sobre o que se situa além da experiência humana. Foi estimulado pela insistência cética de Hume de que o conhecimentos sobre o mundo requer experiência sensorial - que é impossível estender nosso conhecimento apenas usando a razão. Se correta, essa teoria restringe os limites do conhecimento humano. Em particular, torna impossível o conhecimento da existência de substâncias materiais, de causa e efeito e do eu.
Para superar essa dificuldade, Kant tentou mostrar que podemos descobrir verdades significativas sobre a realidade "a priori" examinando as condições de possibilidade de nossa experiência. Em vez de fazer a pergunta tradicional - nosso conhecimento reflete precisamente a realidade? - Kant pergunta como a realidade reflete a nossa cognição. Ele admitiu que o que conhecemos é determinado pela natureza do nosso aparelho sensorial e cognitivo. Em outras palavras, embora se inicie com a experiência, o conhecimento requer ordenação pela mente humana. E é possível usando a razão, descrever a estrutura que a experiência deve assumir e assim descobrir verdades universais sobre nosso mundo.
Então, o que é essa estrutura? Kant observou que toda nossa experiência do mundo é espaço-temporal: espaço e tempo são condições a priori da experiência sensorial e são a estrutura necessária que impomos à nossa experiência. Tentou também isolar as categorias de pensamento que nos permitem organizar o material dos sentidos. Essas categorias são condições necessárias para a possibilidade do conhecimento. Como espaço e tempo, estas são características do mundo tal como aparece para as mentes, não como é em si. Desse modo, Kant supera o ceticismo de Hume, mostrando que podemos adquirir conhecimento do mundo tal como aparece para nós. Mas isso significa que não podemos ter conhecimento do mundo além das aparências. E, como podemos apenas aplicar a razão ao Universo tal como aparece (fenômeno) não podemos usá-la para discutir o Universo como um todo ou o que reside além dele. Isso levou Kant a condenar muita especulação metafísica tradicional - a existência de Deus, a causa do Universo e se ele tem limites no espaço e no tempo, a imortalidade da alma -, já que estas questões não podem ser resolvidas por apelo à experiência real.
Ética: Se a ciência trata do mundo aparente que obedece a leis causais, o que dizer do ser humano? Nossas ações são determinadas por leis físicas? Kant acreditava que era evidente pela experiência que somos livres, e assim devemos ser mais do que seres fenômenicos. Nosso eu numênico é que deve ser a fonte do livre-arbítrio, dando lugar à ação moral. Para Kant, só agentes capazes de deliberar racionalmente sobre suas escolhas podem ser ditos livres. Não podemos esperar que nossos deveres sejam prescritos por nenhuma autoridade mais elevada, nem impostos por nossas emoções: devemos descobri-los por nós mesmos, mediante o uso autônomo da razão.
Um dever moral é uma exigência incondicional ou "categórica" ao nosso comportamento. Não requer que façamos algo pelo que podemos ganhar; diz que devemos fazê-lo só porque é nossa obrigação. Kant compara esses imperativos categóricos, que são genuinamente morais, com os imperativos hipotéticos que não o são. Estes exigem que façamos algo para alcançar alguma outra meta. Para Kant, só um imperativo que tenha realmente alguma aplicação universal (que seja em todas as circunstâncias equivalentes) pode ser moral. Nossa obrigação deve ser sempre agir como desejaríamos que todos os outros agissem. Para Kant, isto equivale a dizer que devemos sempre tratar os outros como fins em si mesmos, e nunca como meios para nossos fins, isto é, devemos respeitar os objetivos dos outros, em vez de usá-los como meios para alcançar os nossos próprios fins.

Bibliografia:
CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009
LAW, Stephen – Guia Ilustrado Zahar de Filosofia; Ed. Zahar, 2008

Platão (427-347 a.C.)




VIDA E OBRA: Platão foi o primeiro filósofo a construir um corpo de obra substancial e que chegou até nós. Com Aristóteles, foi a mais importante influência da filosofia ocidental.
Nascido numa família ateniense nobre, Platão tinha parentesco com membros do governo aristocrático dos Trinta Tiranos (404-403 a.C.), mas se suas origens não o predispunham contra a democracia ateniense, o julgamento e a execução de seu mestre, Sócrates, em 399, certamente o fizeram. Platão, então com 30 anos, viajou possivelmente ao Egito e mais tarde à Sícilia, onde provavelmente conheceu a filosofia pitagórica. Em 387 retornou a Atenas e fundou a Academia. Baseada no princípio de que os alunos deviam aprender a criticar e a pensar por si mesmos, em vez de aceitar as ideias de seus mestres, esta é considerada a primeira universidade. Muitos dos dos mais brilhantes intelectos do mundo clássico estudaram ali, inclusive Aristóteles. Platão visitou a
Sícilia mais duas vezes para instruir o príncipe Dionísio, na esperança de produzir um soberano-filósofo, mas sem grande sucesso. Sua obras mais importantes são: Apologia; Fédon; República; Leis. Escritos na forma de diálogos.

PRINCIPAIS IDEIAS: Platão observou que afirmações sobre coisas físicas envolvem sempre uma restrição. P. ex., não podemos dizer que um objeto é plenamente belo ou que uma pessoa é completamente corajosa. Eles serão sempre belos ou corajosos sob algum aspecto ou em algum grau, não atingindo o ideal da beleza ou da coragem. Mas se nada no mundo pode ser considerado verdadeiramente belo, como chegarmos ao ideal de beleza? E o que todos os atos de coragem tëm em comum? Platão responde a ambas as perguntas postulando a existência real da "ideia" ou "forma" de beleza, coragem e outros termos gerais. A ideia é o universal a que tais termos se referem. Um carvalho, p. ex., é um membro de uma classe particular de coisas - carvalhos - porque se assemelha a ideia eterna do carvalho. Esta ideia não pode ser observada com os sentidos, ela só pode ser alcançada através de uma espécie de visão intelectual. Esta é, em essência a teoria das ideias, pela qual Platão é mais lembrado.
Conhecimento: Como Heráclito. Platão pensava que as coisas percebidas pelos sentidos estão sempre se tornando outra coisa. Mas o conhecimento, conclui ele, tem que ser daquilo que é plenamente, o que significa, que não podemos ter, de fato, conhecimento do mundo dos sentidos. O conhecimento deve ser o das ideias, isto é, daquilo que não muda, a ideia do carvalho sempre será a ideia do carvalho, ela não perece. Assim, Platão divide a realidade em dois reinos, o mundo físico do vir-a-ser e um mundo do ser constituído por ideias eternas e perfeitas. Cabe ao filósofo atingir esse mundo. Portanto, aprender não é realmente descobrir algo novo, mas recordar, visto que tudo já existe anteriormente no mundo das ideias. Se todo conhecimento é recordação, como afirma Platão, isso mostra que a alma existe antes do nascimento e abre a possibilidade de que ela sobreviva à morte física.
República foi a primeira de muitas tentativas de delinear uma cidade ideal. Platão rejeita a democracia como sistema de governo, alegando que o povo não está qualificado para governar. Seu modelo é um Estado em que o conflito eterno foi abolido e cada cidadão cumpre seu papel. Isso significa instituir um regime rigoroso de treinamento e seleção para produzir um grupo de elite de governantes sábios e incorruptíveis. Estes, os guardiões de seu Estado, merecerão o nome de "filósofos", porque serão genuínos amantes da sabedoria. E eles devem adquirir o conhecimento do bem, para poder governar efetivamente em nome do bem do Estado como um todo.

Bibliografia:
CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009
LAW, Stephen – Guia Ilustrado Zahar de Filosofia; Ed. Zahar, 2008

Rousseau (1712-1778)




VIDA E OBRA: Jean-Jacques Rousseau é conhecido como o primeiro filósofo do Romantismo e por seu Contrato social, em que afirma que o ser humano é inatamente bom e tem seu comportamento corrompido pela sociedade. Produziu também peças, poesia, música e uma das mais notáveis autobiografias da literatura européia.
Ao fugir de casa aos 16 anos, Rousseau foi para a França, onde ele se tornou protegido de madame de Warens, que o converteu ao catolicismo e se tornou sua amante. Rousseau ganhou a vida como preceptor, músico e escritor, primeiro em Lyon e, após 1742, em Paris. Ali viveu com uma mulher com quem teve cinco filhos ilegítimos, todos entregues a um orfanato. Colaborou com a Enciclopédia de Diderot. Em 1750, seu Discurso sobre as ciências e as artes ganhou o prêmio da Academia de Dijon. No subsequente Discurso sobre a origem da desigualdade, desenvolveu suas ideias sobre a influência corruptora da sociedade. Em 1762 publicouEmilio, em que expõe sua teoria educacional, e esbouçou sua teoria poltica em O contrato social. Foi perseguido por essas obras e teve seus livros queimados em sua Genebra natal. Ele entrou em um período conturbado, e em certa altura hospedou-se com David Hume na Inglaterra, mas suas acusações paranóicas a seu anfitrião o levaram de volta a Paris.

PRINCIPAIS IDEIAS: Como Hobbes antes dele, Rousseau iniciou sua filosofia política em O Contrato Social imaginado os seres humanos num "estado de natureza" para descrever as origens da organização social. Diferentemente de Hobbes, apresenta uma concepção romântica da natureza humana. Segundo Rousseau, em seu estado original mítico os seres humanos estão em união com a natureza e exibem compaixão natural uns pelos outros. É a sociedade que representa a origem da orpessão e da desigualdade, à medida que o desenvolvimento da razão corrompe e sufoca nossos sentimentos naturais de piedade.
Rousseau imagina um modo de organização diferente para a sociedade, acreditando que, à medida que as pessoas começassem a ver os benefícios da cooperação, poderiam abrir mão de bom grado de seus direitos naturais para se submeter à "vontade geral" da sociedade. A vontade geral não é simplesmente um agregado das vontades de cada indivíduo, mas o desejo do bem comum da sociedade como um todo. A liberdade em tal sociedade, para Rousseau, não era uma questão de se ter permissão para fazer o que bem se entende, pois satisfazer os próprios desejos não é liberdade, e sim, uma escrqavização às paixões. A liberdade genuína envolve viver segundo regras sociais que expressam a vontade geral, da qual cada um é participante ativo.

Bibliografia:
CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009
LAW, Stephen – Guia Ilustrado Zahar de Filosofia; Ed. Zahar, 2008

Hume (1711-1776)


VIDA E OBRA: Hume nasceu numa família de pequenos proprietários de terra na fronteira da Escócia e estudou direito na Universidade de Edimburgo. Rejeitou as ideias presbiterianas de sua criação e, após se formar, mudou-se para La Flèche, no norte da França, onde Descartes havia estudado. Ali se concentrou em sua escrita, e em 1739 publicou o Tratado da Natureza Humana. Candidatou-se à cátedra de filosofia nas Universidades de Edimburgo e Glascow, sem sucesso - decerto por causa de sua reputação a favor do ceticismo, em particular no tocante à religião. Seus Diálogos, que fizeram alguns dos mais desvastadores ataques à crença religiosa no cânone filosófico, só foram publicados após a sua morte.

PRINCIPAIS IDEIAS: Hume tentou descrever a mente humana da mesma maneira que outros fenômenos naturais, encontrando as leis gerais que explicam todos os processos mentais. Seguindo as pegadas empiristas de Locke e Berkeley, via os sentidos como fonte chave de conhecimento. Ele dividiu os conteúdos da mente em duas categorias: "impressões", as percepções que afetam os nossos sentidos; e "ideias", cópias menos vívidas das impressões. As ideias são os conceitos e pensamentos de coisas que não estamos mais experimentando, mas somos capazes de lembrá-las em nossa mente. O sentido filosófico dessa distinção é insistir que não há nada na mente - nem mesmo o pensamento mais abstrato - que não seja simplesmente sensação transformada. Para Hume todos os nossos raciocínios sobre os fatos estão baseados na relação de causa e efeito e, estes, por sua vez, estão baseados na experiência. Para Hume há um problema na fundamentação da ciência por meio da observação da experiência porque pela experiência eu apenas desenvolvo um hábito com relação aos acontecimentos, por exemplo, o que me garante que o Sol nascerá amanhã, assim como vem nascendo desde sempre? Eu só acredito que ele nascerá porque até hoje eu nunca vi acontecer o contrário. Ora, as leis da natureza são as interpretações que fazemos dela. Cada princípio científico pode ser contrariado pela natureza porque não é fundamentado pela razão. Nós prevemos, como se fosse um hábito psicológico.

Bibliografia:
CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009
LAW, Stephen – Guia Ilustrado Zahar de Filosofia; Ed. Zahar, 2008

Sartre (1905-1980)





VIDA: Sartre estudou filosofia na École Normale Supérieure, onde conheceu sua companheira de toda vida, Simone de Beauvoir. Sua palestra de 1945 O existencialismo é um humanismo fez o nome de Sartre, junto com várias obras para teatro. Simpatias marxistas o levaram ao ativismo político, apoiando, por exemplo, a luta argelina contra do domínio colonial francês. Em 1964 recusou o Nobel de Literatura. Em 1972, já perdendo a visão, produziu seu estudo sobre Flaubert, O idiota da família.

PRINCIPAIS IDEIAS: Maior expoente do existencialismo no pós-guerra, Sartre ensinou que a liberdade humana é total, exigindo que assumamos a responsabilidade pelo que fazemos e por quem nos tornamos. Para Sartre, é através de nossas escolhas e ações que nos criamos livremente, mas enfrentar a responsabilidade que isso acarreta tem seu preço psicológico. A "náusea" do título de seu primeiro romance refere-se à ação patológica do herói, Roquentin, à realidade de sua própria liberdade e à sua busca de significado num mundo de coisas que lhe é radicalmente indiferente. Em O ser e o nada, Sartre explorou mais nosso ser-no-mundo, denunciando a má-fé - nossa tendência de nos enganarmos -, com a qual as pessoas tendem a se esquivar da responsabilidade por suas ações.


PRINCIPAIS OBRAS: O ser e o Nada; A Náusea; Crítica da Razão Dialética; O Idiota da Família.
fonte: LAW, Stephen; Guia Ilustrado Zahar - Filosofia, Jorge Zahar, ED. 2008

Descartes (1596-1650)


VIDA E OBRA: A eloquência e a acessibilidade da prosa de Descartes inaugiraram a filosofia moderna. Solapando a filosofia escolástica tradicional do período medieval, ele lançou os fundamentos para uma abordagem sistemática da aquisição do conhecimento, baseada em medida e raciocínio matemático, sobre a qual a ciência se ergue até hoje.
Nascido numa aldeia perto de Tours, na França, Descartes foi educado num colégio jesuíta, onde revelou grande aptidão para matemática. Em 1617 iniciou uma carreira militar e viajou muito pela Europa durante a Guerra dos Trinta Anos, até renunciar a seu posto em 1621. Continuou a viajar até 1629, quando se estabeleceu na Holanda. Ali começou a trabalhar em seu Tratado sobre o mundo - um estudo da natureza e do funcionamento do universo físico.
Ao saber que a Inquisição romana condenara Galileu por sua defesa do sistema copernicano, em 1633, suspendeu a publicação do Tratado sobre o mundo. Sua primeira obra publicada O Discurso do método, introduziu suas ideias metafisicas, além de apresentar um relato autobiográfico de seu próprio desenvolvimento intelectual e um esboço de suas ideias sobre a abordagem apropriada à aquisição de conhecimento.
Fama crescente: Insatisfeito com a acolhida dada ao Discurso do método, Descartes escreveu, em 1641, asMeditações sobre a primeira fillosofia, numa tentativa de transmitir sua ideias filosóficas para um público muito mais amplo. Em 1644 publicou Princípios de filosofia, em que reafirmou suas ideias filosóficas, ao lado de discussões de física e cosmologia tomadas do anterior e então ainda inédito Tratado sobre o mundo.
Em 1649, com sua fama crescendo rapidamente pela Europa, foi convidado para lecionar filosofia para a rainha Cristina da Suécia. Aluna exigente, a rainha esperava que as aulas começassem às 5h da manhã, três vezes por semana, e durassem cinco horas cada uma. Desabituado de tal regime, bem como ao frio severo d inverno da Suécia, Descartes contraiu pneumonia e morreu após poucos meses no cargo.
PRINCIPAIS IDEIAS: Muito jovem, Descartes compreendeu que a filosofia tradicional que lhe ensinavam continha muito de duvidoso e discutível. Se ao menos fosse possível aplicar o modo matemático à filosofia e à ciência, pensava ele, poderíamos esperar estabelecer um conhecimento indiscutível e duradouro do mundo. Assim descobriu sua ambição: estabelecer os fundamentos e a estrutura de todo o conhecimento humano vindouro, unificando a ciência num único sistema.
O método da dúvida: Para descobrir algo "firme e constante nas ciências", seguindo o modelo matemático, Descartes acreditava precisar estabelecer primeiro princípios básicos indubitáveis. Para descobri-los, optou por duvidar de tudo em que acreditava. Se alguma crença pudesse sobreviver a esse batismo de fogo, raciocinou, seria um fundamento digno para seu novo corpo de conhecimento. Duvidou, então, dos seus cinco sentidos, afinal eles podem ser enganosos. Perguntou-se se não poderia estar sonhando e aventou a possibilidade de estar sendo enganado em todas as suas percepções por um espírito maligno. O fruto de seu ceticismo radical foi a primera certeza do seu novo sistema de conhecimento e a sua descoberta mais famosa está condensada na frase: "Penso, logo existo", afinal, disso ele não poderia duvidar nunca.
Dualismo: A partir do fato de que tinha acesso direto à sua própria mente consciente, mesmo que pudesse duvidar de qualquer coisa física, Descartes foi levado a supor que sua essência consistia em ser uma coisa pensante. Embora uma substância distinta, esse eu material está para Descartes intimamente unido ao corpo físico. E, enquanto o mundo físico, inclsusive o corpo, é matematicamente descritível e segue leis físicas precisas, o mundo da mente é livre para seguir os próprios pensamentos. A nossa capacidade de usar a linguagem e reagir às circunstâncias de maneiras imprevisíveis evidencia que que as mentes não são determinadas. Essa capacidade não pode ser reduzida a princípios mecânicos; logo, embora o mundo material deva ser reduzido à ciência matemática, a alma humana requer uma ciência própria.

Bibliografia:
CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009
LAW, Stephen – Guia Ilustrado Zahar de Filosofia; Ed. Zahar, 2008

Hobbes (1588-1679)




VIDA E OBRA: Primeiro materialista moderno, Hobbes corajosamente sustentou, numa época profundamente religiosa, que não existia substância espiritual. É mais conhecido por sua filosofia política, que afirma que é racional indivíduos se submeterem a um soberano forte para assegurar a ordem e a paz.
Thomas Hobbes nasceu na Inglatera. Após se formar em Oxford foi preceptor do conde de Devonshire e viajou muito pela Europa, conhecendo os intelectuais da época, como Descartes, Galileu e Gassendi. Mal voltara à Inglaterra, teve que fugir para a França em 1640, antes da deflagração da Guerra Civil inglesa, durante a qual apoiou os realistas. Nesse período, foi preceptor do futuro rei exilado, Carlos II. Iniciou sua trilogia filosófica com O Cidadão (1642). Sua grande obra, Leviatã, foi publicada em 1651, mas atraiu a atenção desfavorável das autoridades francesas, e Hobbes teve que retornar à Inglaterra no momento em que a Commonwealth de Oliver Cromwell chegava ao fim. Hobbes continuou a escrever e gozou de uma vida intelectual ativa até morrer, aos 91 anos.
PRINCIPAIS IDEIAS: Como os antigos atomistas, Hobbes sustenta que o mundo consiste exclusivamente de partículas materiais em movimento e que a própria ideia de uma substância não material, chave para os conceitos tradiconais de Deus e da alma humana, é contraditória. Assim, o comportamento de todo o Universo, inclusive a ação humana, é explicável com base em princípios puramente mecânicos. Isso implica que a mente pode ser explicada em termos de movimento no corpo e, em particular, dentro do cérebro. Sensação, imaginação e até pensamento abstrato são redutíveis a processos materiais: toda motivação, nossas aversões e apetites, não passam fundamentalmente do vaivém de partículas em movimento.
Dessa visão materialista da natureza humana brota a filosofia política de Hobbes. Tendo desejos semelhantes, os seres humanos estão fadados a entrar em conflito, num mundo de recursos limitados. No Leviatã, ele imagina um "estado de natureza" que é a situação anterior à formação da sociedade, em qu cada pessoa persegue os próprios interesses: um estado em que cada um estáem guerra com os demais. Como todos estariam em melhor situação se cooperassem, deve ser racional para cada um de nós restringir nossa liberdade e cumprir leis, contanto que possamos crer que todos farão o mesmo. Para Hobbes, isso pode ser alncançado por um contrato social que entregue o poder a um soberano capaz de impor a obediência universal às leis.

Bibliografia:
CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009
LAW, Stephen – Guia Ilustrado Zahar de Filosofia; Ed. Zahar, 2008

Locke (1632-1704)



VIDA E OBRA: Como o primeiro dos grandes filósofos empriristas ingleses, Locke quis determinar os limites do conhecimento humano. Uma vez que isso se dá através dos sentidos, sua aquisição deve ser gradual, limitada pela natureza finita de nossa experiência, que deixa algumas coisas fora do nosso alcance.
Locke nasceu na Inglaterra. O pai de Locke lutou ao lado dos parlamentaristas na Guerra Civil inglesa. Locke permaneceu fiel à ideia de que o povo, não o monarca, é o soberano supremo. Estudou na Westminster School e em Oxford, onde se formou em medicina e, mais tarde, tornou-se professor. Nessa época, seu contato com a escolástica aristotélica não o atraiu para a filosofia. A partir de 1675, porém, passou alguns anos na França, onde estudos da filosofia de Descartes provocaram nele um duradouro impacto. Em 1681, pouco após seu protetor, o conde de Shaftesbury, ser julgado por traição, partiu para a Holanda, onde trabalhou em seu Ensaio sobre o entendimento humano. Defendeu ativamente a ascensão de Guilherme de Orange e retornou à Inglaterra após a Revolução Gloriosa de 1688. Em 1690, Locke publicou o Ensaioe os Dois tratados sobre o governo, as obras que lhe valeram sua reputação. 

PRINCIPAIS IDEIAS: Locke foi profundamente influenciado pela teoria "corpuscular" da matéria, de Robert Boyle, uma restauração da ideia dos antigos atomistas de que o Universo é composto por partículas pequenas demais para serem vistas, e em cujos termos o comportamento e a aparência de todas as coisas materiais podem ser explicados. Esses corpúsculos sólidos podem ser descritos em termos geométricos - possuem posição, tamanho e forma e se movem no espaço -, mas nossa percepção de qualidades, como cores, odores e sons, é resultado dos arranjos insensíveis dessas partículas. A visão da realidade de Locke é, portanto, firmemente mecanicista.
Locke abraça uma teoria "representativa" da percepção, isto é, a percepção é consequência do impacto de objetos físicos sobre os nossos órgãos dos sentidos, e as sensações produzidas são como uma imagem da realidade. Só temos acesso direto às nossas próprias sensações e devemos inferir delas a natureza do mundo lá fora. Ele afirmava que só pode haver conhecimento das características observáveis dos objetos, não do que realmente são. Assim, ele abre espaço para que o cético questione o nosso conhecimento da realidade.
Política: A filosofia política de Locke foi tão influente quanto sua obra em teoria do conhecimento. Seguindo Hobbes, ele usou o estratagema do "estado de natureza" para justificar a autoridade política. Antes da politização, os homens se uniam em bandos para se defender e precisavam encontrar um juiz imparcial para servir de árbitro em conflitos internos. O juiz precisava do apoio da comunidade como um todo. Cada indivíduo tinha que reconhecer a autoridade suprema da lei. Há portanto um contrato implícito entre súditos e soberano: a autoridade deste não é absoluta; ele tem que responder, em última instância, perante a maioria. Se o soberano viola os termos do contrato, os governados têm o direito de se rebelar.

Bibliografia:
CHAUI, Marilena – Iniciação à Filosofia; Ed. Ática, 2009
LAW, Stephen – Guia Ilustrado Zahar de Filosofia; Ed. Zahar, 2008