sexta-feira, 8 de maio de 2015

A excisão em Angola


EPÍGRAFE
Se a cultura fere o seu corpo, por que preserva-la?
A excisão começa quando uma rapariga se aproxima da maturidade. É drogada e submetida a mutilações na presença do grupo familiar. A operação é praticada por uma mais velha com a ajuda de uma lâmina de bambu. Consiste no corte do hímen à entrada da vagina e separação dos lábios, expondo completamente o clítoris.

INTRODUÇÃO
Com o intuito de abordar “ A Excisão," que é um ritual sacrificial de iniciação. No entanto, nota-se que, mais do que nunca, cresce a consciência de que a excisão da mulher se põe como um problema para a sua saúde física e psicológica. Desde os anos 80 essa prática foi denunciada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que estimava em 70 milhões as mulheres mutiladas. De lá para cá proliferam denúncias que chegam aos ouvidos da comunidade internacional praticamente de modo esporádico e tímido, sem organização de luta. No entanto, a excisão continua nos" bastiões tradicionais" que defendem o paradigma de"identidade imutável" e enclausurado no esquema do poder patriarcal que explora a mulher africana.
No decorrer do nosso trabalho, procuraremos centrar as nossas atenções" A Excisão como Iniciação Sexual e Religiosa em Mulheres Negra Bantu," retratando os seguintes subtemas: o conceito de excisão, os objectivos do nosso trabalho, a classificação dos tipos de excisão, as causas, os ritos de puberdade, a iniciação das meninas púberes, as mutilações sexuais, o significado sacrificial, o simbolismo religioso eficaz da iniciação, as consequências físicas e o papel da sociedade face a excisão.

Conceito
Excisão: são todos os procedimentos envolvendo total ou parcial remoção dos órgãos genitais femininos exteriores ou outras lesões para os órgãos genitais femininos por razões culturais, de modo a que seja impossível às mulheres posteriormente obter prazer sexual.
Objectivos
·      Defender a liberdade da mulher africana nos seus diversos aspectos;
·      Promover de forma clara a sua saúde é, certamente, um compromisso urgente e relevante.
Classificação dos Tipos de Excisão
A OMS e a Unicef classificaram os seguintes tipos de excisão:
·           A excisão do prepúcio;
·           A excisão do clítoris;
·           A excisão dos órgãos genitais externos;
·           A excisão que inclui práticas como piercing, inserção de substâncias corrosivas ou ervas na vagina.
Causas
·           A excisão é defendida como prática tradicional pelas seguintes causas:
·           Psico-sexuais - o clítoris são considerados um órgão agressivo; protecção da castidade; a crença de que uma mulher não mutilada não pode dar à luz.
·           Religiosos - são resultados da crença que é exige da pela fé islâmica (apesar de também ser praticados por católicos, protestantes, coptas, animistas e não crentes).
·           Sociológicas - são actos de iniciação e passagem para a idade adulta.
·           Higiénicos (saúde) - os órgãos genitais femininos exteriores são sujos.
RITOS DE PUBERDADE
A excisão é cerimónia inaugural dos ritos de puberdade. Portanto, sua prática deve ser entendida como rito da fase de puberdade, como iniciação à vida da comunidade.
Sem ela a mulher não se vai fazendo, completando, realizando. Só a excisão a situa no lugar religioso e social exacto, torna-a apta para as suas responsabilidades e lhe permite movimentar-se com eficácia pirâmide vital interactiva.
A mulher guarda no maior sigilo o que viveu; há referência mítico-misticos que desconhecemos, que utilizam linguagem e nome cifrados, esotéricos, que nunca se revelam ao profano. As iniciações das meninas para a vida comunitária, os chamados ritos de iniciação na puberdade," além de se apresentarem como os mais chamativos desta cultura, revestem-se dum claro significado e da mais vistosa exterioridade.
A mulher adulta não iniciada, não gerada por esses ritos, é um indivíduo não apreciado; carece do estatuto de gente; permanece excluído da comunidade.
Iniciação das Meninas Púberes
Os ritos de passagem e iniciação da menina púbere não têm quase relevo nas sociedades matrilineares. Ou desapareceram, ou ficaram reduzidos a insignificantes ritos simbólicos.
Em Angola, por exemplo, a iniciação é praticada por vários grupos: Ganguela, Tshokwe, Nhaneka-Humbe, Ambó. A menina deve ser iniciada quando lhe aparece a primeira menstruação. Em alguns grupos, iniciam-nas antes e, outros, depois de passar dois anos ou mais; associam-nas, ainda, ao contrato matrimonial. A cerimónia única é realizada nas aldeias e na casa paterna.
A menina deve apresentar-se virgem nestes ritos, do contrário sofre vexações e paga uma indemnização, além de atrair a vergonha para a sua mãe, responsável por sua educação. Antes, podiam ser mortas com uma lança.
Se aparecer grávida, a desonra assume a maior gravidade. Se uma menina kwanyama dava à luz antes da efundula (os ritos iniciatórios), prenunciava a morte do soberano. O nascimento dum menino cuja mãe não passou por estes ritos é um indício muito funesto.
Entre os Kwanyama (Angola), no segundo dia da "efundula" as meninas bebem uma cerveja especial, misturada com drogas, em que inclui um pouco de esperma de um circuncidado de outro grupo, já que eles não praticam a circuncisão. No olukufo dos kwamatwi (norte de Angola), a mestra anciã prepara uma cerveja com drogas da qual retira uma porção em uma taça; nela, um circunciso lava o seu membro viril três vezes. A menina, que desconhece estas práticas, bebe um gole. O resto a mãe vai derramado pelo baixo-ventre da jovem ate chegar a uma enxada que lhe colocaram abaixo dos membros inferiores.
Todos os ritos femininos estão sempre relacionados com o mistério do nascimento e da fertilidade.
A menina fica apta para o casamento e para a sua missão fundamental: ser mãe. Os ritos de puberdade definem oficial e publicamente a sua capacidade, valor e estima como procriadora vivificadora. Porque se transformou, também ontologicamente, recebe o estatuto social, jurídico e religioso de mulher adulta e para a comunidade. A ruptura do hímen é prova da feminilidade adulta. Pode-se chamar"ritos de nubilidade" visto que procura sobretudo a preparação e disponibilidade imediata para o casamento.
Durante os ritos, o ventre e a região púbica são tatuadas. Atribuem à tatuagem um poder fecundante e, sobretudo, afrodisíaco. A menina aprende durante a sua iniciação que ela é antes de mais um campo vaginal destinado a ser fecundado pelo homem.
MUTILAÇÕES SEXUAIS
Normalmente, as mutilações sexuais são realizadas por mulheres, na intimidade da iniciação familiar. Os kikuyu, povo bantu do Kénia, parece que são os únicos que exigem inexoravelmente a excisão de todas as mulheres. A clitoritomia é uma iniciação pela qual a jovem alcança o estatuto de mulher. Nenhum kikuyu se casará com uma mulher não iniciada e, inclusive, é magicamente perigoso relacionar-se sexualmente com que não sofreu a excisão.
É uma operação dolorosa e cruel, extirpam o clítoris com uma faca candente, com pedaços de vidro, com uma lâmina de barbear, com uma faca de sílex ou um tição incandescente. Muitas vezes também cortam os pequenos e grandes lábios da vulva. A operação é feita por mulheres especializadas, que, em alguns lugares, aplicam urtigas como dolorosa anestesia. Costumavam faze-la quando a jovem chega a puberdade e, em alguns grupos, aos oito nove anos.
Alguns povos pensam que, desta forma, se propicia a fertilidade e se favorece o relacionamento sexual. Entre os Nandi (norte da República Democrática do Kongo), a crença geral é se as jovens não são iniciados, o seu clítoris se alongará e ramificará, e que os seus filhos serão anormais. Nestas condições é fácil de compreender a importância psicológica da iniciação. Se uma mulher não passa por ela, não chega a ser pessoa, fica incompleta e permanece criança.
A iniciação feminina nandi é um rito de maturidade, uma dramatização da ruptura com a infância e o ingresso na condição de adulto. O órgão sexual é o símbolo da vida: cortá-lo é como que abrir as comportas para a vida, para que o seu caudal possa ter livre curso. Em outros lugares, com na Etiópia, pensam que é uma medida higiénica com consequência morais positivas que garante a feminilidade. Na Costa de Marfim, convencem-nas de que, de outra forma, não terão filhos.
Muitos grupos bantu realizam a desfloração da menina durante os ritos de puberdade. Embora muitos outros apreciam a virgindade ate ao casamento. A ruptura do hímen, mecânica, é feita por uma mulher idosa com os dedos ou utilizado um pequeno instrumento. Na costa ocidental da África, as jovens são desfloradas com a ajuda de um bambu, que conservam dependurado da vagina por cerca de três meses. A volta da vulva coloca formigas que devoram as ninfas e o clítoris.
SIGNIFICADO SACRIFICIAL
Alguns etnólogos viram na excisão um significado religioso sacrificial. O resgate e a propiciação exigem sangue. Por isso, o indivíduo imola parte do seu ser, oferece um sacrifício parcial em vez de se oferecer como vítima. A excisão, estaria relacionada com a nova vida, como renascimento para uma vida superior mais dinâmica e poderosa. O sangue derramado substituiria os sacrifícios humanos aplicativos e propiciatórios.
Alguns psicanalistas têm dado as suas contribuições no que concerne ao tema em questão, depois de analisarem os grupos Fingu e Tembum (sudeste do Cabo - África do Sul), afirmam que"mutilação cirúrgica ou excisão deve ser considerada não só como prova de aptidão para o estado adulto e como uma iniciação a este estado, mas também como uma forma de sacrifício. Outros vêem no sangue derramado uma aliança com a terra.
SIMBOLISMO RELIGIOSO EFICAZ DA INICIAÇÃO
A iniciação parece ser em muitos aspectos com um sacramento que põe em contacto como transcendente, quer porque lhe revela parte do sagrado (a iniciada conhece os mistérios), quer porque sacriliza o homem.
A iniciada deixa definitivamente uma existência profana para passar a outra medularmente sacralizada; de natural passa a consagrado, já que é assumida pelos antepassados, responsabiliza-se pela solidariedade, e mover-se-á para sempre dentro do circuito místico da participação vital. É preciso considerar a iniciação no Continente Negro mais como uma transformação lenta do indivíduo, como um trânsito progressivo da exterioridade à interioridade. A descoberta que a iniciada faz da sua realidade humana comunitária e dos fundamentais mítico religiosos da sua vida participada com variadíssimas potencial idades. A iniciação consegue na metanóia, consequência da emulação ontológica, da mudança substancial de personalidade que operou na jovem.
Consequências Físicas
As consequências físicas da excisão são as seguintes:
Falecimento;
Hemorragias;
Infecções;
Dores agudas;
Formação de abcessos;
Quistos;
Hepatite B;
HIV/SIDA;
Retenção urinária;
Obstrução crónica das vias urinárias;
Complicações no trabalho de parto;
Infecção das vias urinárias;
Quelóides;
Infecção das vias genitais;
Ausência de cicatrização.
PAPEL DA SOCIEDADE FACE A EXCISÃO
O papel ideal seria que toda a sociedade e particularmente os líderes de opinião como são os parlamentares, as autoridades tradicionais e os responsáveis religiosos, bem como os médicos e os técnicos de saúde se mobilizasse para proteger as jovens de tais práticas que atentam contra a dignidade da mulher e deixam marcas duradouras na sua integridade física e moral e perturbam as relações entre homens e mulheres.

CONCLUSÃO
Depois de um árduo trabalho, os elementos do grupo em questão, chegaram as seguintes conclusões:
A iniciação feminina é uma situação que, por estar carregada de emoção, mistério, dramaticidade e religiosidade, origina uma vivência psíquica que marca e determina para toda a vida da mulher negro-bantu. As meninas são mutiladas com pequenas lâminas de pedra, pedaços de vidros, com faca de sílex ou com um tição incandescente. Muitas costumavam ficar defeituosas (físicas e psicologicamente) e a ausência de assepsia acarreta graves infecções que causam, por vezes, a morte. Alguns etnólogos viram nessa pratica um significado sacrificial.
As mutilações sexuais femininas tornaram-se um dos crimes mais ignóbeis contra a Humanidade, indica um documento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Hoje, em um mundo mais aberto, consciente da valorização do ser humano e de seus direitos. A dignidade e a igualdade no género humano que o mundo pós-moderno prega descarta toda a possibilidade de a pratica de excisão da mulher possuir carácter regulada dentro da relação conjugal (homem e mulher).

BIBLIOGRAFIA
Revista de estudos da religião Nº 1/ 2006/pp. 116-129
Etnografia do sudeste de Angola. Lisboa (1960), vol.1.
Ruiz de Asua, Raul. Cultura Tradicional Bantu. Luanda-Angola: SAP, 1985.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O tráfico de escravo


INTRODUÇÃO

O estudo do processo de escravização dos povos africanos é essencial para que se compreenda a situação atual de desigualdade no planeta. Revela uma longa história de exploração e subjugação de populações fragilizadas por outras, mais equipadas. Demonstra também que a desestruturação econômica e cultural tem efeitos desastrosos de longa duração.
Do ponto de vista econômico, a escravidão foi uma forma eficiente de acumulação primitiva. No que diz respeito às pessoas, foi uma violência irreparável, que pressupõe, dentre outros fatores, a existência de povos muito pobres, mão de obra excedente que possa ser explorada em benefício de uma minoria. Assim, parte do atual contexto socioeconômico da África de miséria e exclusão é consequência de fatos passados.




O TRAFICO DE ESCRAVO EM ANGOLA

O actual território de Angola, que pesquisas recentes de investigadores franceses comprovam ter sido habitado desde o Paleolítico Inferior, foi alvo ao longo da sua história de muita movimentação populacional, com sucessivas levas de povos bantos a empurrar para Sul os primitivos autóctones de origem não bantu, os khoi-san, hoje reduzidos a uma população de menos de dez mil pessoas. Essas migrações mantiveram-se mais ou menos regulares até pelo menos os fins do século XIX.
A chegada dos primeiros europeus data de fins do século XV, em 1482, quando o navegador português Diogo Cão aportou a foz do rio Congo ou Zaire. O padrão que ergueu então numa das suas margens em nome do rei D. João II atesta assim o primeiro reconhecimento exterior do reino do Congo. Na sua capital, a ainda hoje existente cidade de Mbanza Congo, no Norte de Angola, o rei recebeu os estrangeiros como amigos e deixou-se converter ao cristianismo, tomando o nome de Afonso I.
Em 1700, segundo os cálculos do historiador Ravenstein, os portugueses dominavam em Angola uma área de 65 mil quilómetros quadrados, a partir do litoral de Luanda e Benguela até 200 quilómetros para o respectivo interior, praticamente com o objectivo único de manter abertas as rotas dos escravos a partir do planalto. Por essa altura, de facto, já os escravos negros eram a principal mercadoria a dominar todo o comércio, sendo "exportados" para Portugal, Brasil, Antilhas e América Central.
Durante os séculos XVIII e XIX, a situação não se altera na essência de maneira significativa, aumentando apenas a área de captura dos escravos, que se estende para o planalto central, e o número dos que eram enviados para fora de Angola.
Em fins do século XVIII, sob o impulso do Marquês de Pombal, o todo-poderoso ministro do Rei de Portugal, uma tímida tentativa foi feita para a exploração de algumas das riquezas do país. Essa tentativa fracassou por falta de apoio local e da própria metrópole mais interessada no desenvolvimento do Brasil com base nos escravos angolanos. Angola teve assim de continuar a manter o seu título de "mina da escravaria" e o seu papel de fornecedora de escravos para as plantações brasileiras.
Como está amplamente demonstrado na correspondência da época entre o rei de Portugal e o rei do Congo, esse primeiro contacto realizou-se entre soberanos iguais em direitos, mostrando-se a sociedade congolesa aberta ao convívio com os recém-chegados e ao funcionamento de uma verdadeira aliança entre Estados organizados.
Só ao longo do século XVI, e depois de contínuos e complicados jogos de sedução, intrigas e traições, se começariam a acentuar os laços de dependência do reino do Congo em relação a Coroa portuguesa. 
Do reino do Congo dependiam outros reinos menores mais a Sul, como o da Matamba e o do Ndongo, de cujos soberanos, os Ngola, provirá mais tarde o nome de Angola. A resistência desses três reinos a penetração colonial será praticamente esmagada na segunda metade do século XVII, no curto espaço de 20 anos: Congo (1665), Ndongo (1671) e Matamba (1681).
Contraditoriamente, ao mesmo tempo em que se multiplicam as revoltas contra o comércio de escravos por parte de alguns sobados independentes e dos estados africanos do planalto (que só serão relativamente pacificados mais de um século depois), uma elite económica de origem africana vai-se firmando com base nesse mesmo comércio.
O século XIX foi o das grandes explorações do continente africano e da partilha colonial. As explorações de Serpa Pinto, de Capelo e de Ivens permitiram precisar a cartografia de Angola. A Conferência de Berlim, em 1885, estabeleceu o direito público colonial e tratados entre Portugal, a França, o Estado Livre do Congo (Belga), a Grã-Bretanha e a Alemanha definiram as fronteiras actuais de Angola.
Para a população angolana, a abolição do tráfico da escravatura em 1836 e o fim oficial da condição de escravo em 1878 não alteraram o fundo da questão, continuando a exploração das grandes massas trabalhadoras angolanas por parte do poder colonial a ser feita sob a forma do chamado contrato. Essa situação vai agravar-se com a política colonial do regime de Salazar a partir dos anos 30 do século XX.
Muitas das grandes famílias africanas que se haviam constituído um século antes começam então a perder progressivamente o seu relativo poderio económico, e é significativo que alguns dos seus descendentes tenham sido dos primeiros a envolver-se na fase moderna das lutas de libertação, a partir dos anos 60, ocupando hoje lugares chave no sistema político e económico que se seguiu à proclamação da Independência em 11 de Novembro de 1975.

A colónia dos portugueses em Angola

Na colônia de Angola, a exportação de mão de obra escrava pelo porto de Luanda terá sido alvo de competição no século XVII entre portugueses e holandeses.
É depois da disputa entre os colonizadores, cujo vencedor foi o reino de Portugal, que pode ter se originado a captura direta de escravos, nas chamadas Guerras Angolanas, no seio de certas tribos que tinham lutado contra os portugueses. Foi dessa forma que Angola se tornou um centro importante de fornecimento de mão de obra escrava para o Brasil, onde crescia não apenas a produção de cana-de-açúcar no Nordeste, mas também a exploração de ouro na região central.
Navios com mercadorias de Goa faziam escala em Luanda lá deixando panos, as chamadas "fazendas de negros". Dali, seguiam para Salvador, na Bahia, carregados de escravos e de outras mercadorias provenientes da Índia (como louças e tecidos). Foi assim que Salvador se tornou um centro difusor de mercadorias da Índia pela América do Sul.
Os negócios foram se estruturando aos poucos. Num primeiro momento, os governadores da colônia detinham o poder de determinar o preço dos escravos. O pagamento era feito em ouro proveniente de Minas Gerais, no Brasil. Mais tarde, em 1715 a coroa portuguesa proibiu que os governadores se envolvessem com o tráfico. Negociantes provenientes do Brasil (principalmente do Rio de Janeiro, da Bahia e também dePernambuco) assumiram as rédeas do comércio, que se aqueceu. A principal feira fornecedora de escravos para o porto de Luanda era a feira de Kassanje.
No século XVIII, a cachaça brasileira (geribita) passou a ter papel de destaque nas trocas, sendo valorizado tanto em Angola quanto no Brasil. Figurava, ao lado da seda chinesa e as armas europeias, como uma das principais moedas de troca. Era, na verdade, a moeda mais corrente, já que o comércio de armas era controlado e a seda chinesa a só chegava à África depois de passar por Lisboa, o que elevava seu preço e reduzia sua liquidez. Outro produto brasileiro valorizado na África era o fumo de corda de Salvador.

O sobado de Kabuko Kambilu

Ao sul de Luanda, deságua o Rio Kwanza, que vem do interior do continente. Esse rio foi de fundamental importância na penetração portuguesa, além de servir de corredor para a comercialização de mercadorias de regiões interioranas como Lunda, Kassanje, Malanje, Lubolo, Matamba, Ambaca, Cazembo e outras.
Às margens desse rio, tradicionalmente, se organizavam os sobados, agrupamentos de famílias que respeitavam o chefe de linhagem, que, por sua vez, prestava obediência ao soba, líder escolhido por conselheiros.
De maneira geral, os sobas serviram como instrumentos de dominação e controle das sociedades africanas pelos europeus. Durante o período colonial, o soba se transformou num vassalo do colonizador, sob a ameaça de receber em seu povoado uma "expedição punitiva", ou seja, saque e escravização.
Em troca da obediência, tinha maior acesso a mercadorias, o que teoricamente aumentava seu poder local.
Na outra face da moeda, nota-se que, no século XIX, os portugueses dependiam totalmente da lealdade de sobas influentes.
Kabuku Kambilu era um dos maiores sobados da região de Angola, já forte antes da chegada dos portugueses no século XVI. O chefe (conhecido como Kabuku Kambilu) era reconhecido pelos demais sobados como a "primeira autoridade", detentor de poderes mágico-religiosos.
A ordem foi desequilibrada quando o grupamento se aliou aos portugueses e, entre 1875 e 1880, adotou uma política de agressão armada aos sobados vizinhos, passando a controlar grande parte do comércio e do tráfico. Com o passar do tempo, entretanto, as desavenças internas e o crescente descontentamento dos portugueses tiraram do Kabuko suas principais fontes de renda: o monopólio da travessia do Rio Lukala e as feiras de Mukoso, Kangongue e Lukala. Mais tarde, fazendeiros brancos de Cazengo expandiam suas propriedades até os limites da área ocupada pelo do povo do Kabuku.

A TRANSFORMAÇÃO DA ESCRAVIDÃO NA ÁFRICA

Como se viu, no início do século XIX havia forte pressão para que o tráfico de escravos africanos promovido por europeus fosse extinto. Esse movimento, ao contrário do que se poderia esperar, não extinguiu a escravidão no continente africano, mas fez nascer o modo de produção escravista dentro da própria África.
Diferente, como não poderia deixar de ser, daquele praticado nas colônias americanas, o modo de produção escravista na África foi incorporado de muitas maneiras.
Foram introduzidas plantations (principalmente na savana setentrional), além do trabalho em minas na chamada Costa do Ouro (que contava com um estado centralizado capaz de continuar coagindo indivíduos à escravidão).
Ocorre que não havia na África como controlar todo aquele contingente de indivíduos escravizados sem a ajuda dos europeus. Muitos fugiam ou se revoltavam encorajados pela retórica abolicionista de missionários e reformadores – figuras que se tornavam cada vez mais comuns. "A imposição do colonialismo extinguiu a escravidão como um modo de produção e marcou a completa integração da África na órbita do capitalismo".
Não se deve incorrer no erro, no entanto, de acreditar que um sistema tão arraigado ao longo de séculos na cultura africana pudesse ser simplesmente abandonado e esquecido de um momento para o outro. O que se deu, a princípio, foi a transição do tráfico de escravos para o comércio "legítimo" – um processo repleto de problemas e de implicações.
A persistência da prática no Daomé (antigo reino africano localizado na região em que hoje está o Benim) é um exemplo ilustrativo. Apoiado pelo rico e influente traficante de escravos brasileiro Francisco Félix de Souza(Chacha), ocorreu ali um golpe de estado.
Em 1818, chegou ao fim o curto e polêmico reinado de Adandozan. Quem assumiu o comando, Guezô, permaneceu no poder por quarenta anos, nos quais incentivou o novo comércio, superando a "crise de adaptação" com sucesso.
Assim como no golfo de Biafra, em Daomé o comércio de escravos e o de azeite de dendê (principal mercadoria do comércio legítimo) se expandiu até a década de 1860. Mas, a partir de 1840, o declínio do tráfico já se mostrava iminente.

O legado da escravidão

Na África, o resultado do sistema escravagista foi devastador. Comunidades que antes conviviam pacificamente se militarizaram e travaram guerras infindáveis. Enquanto durou a escravidão, os escravos, assim "produzidos", eram vendidos em feiras e exportados. Depois, os antagonismos étnicos entre os capturados e os captores se acentuaram, de forma que mesmo após a retirada dos últimos colonizadores, já no final do século XX, as guerras continuaram ocorrendo.
Houve mais interferências externas. O empresário inglês Cecil Rhodes, por exemplo, investiu largamente em mineração, e fundou o estado da Rhodésia, depois dividido em Rhodésia do sul e Rhodésia do norte, hoje Zâmbia e Zimbábue. Queria formar um império inglês.
Mais tarde, o problema foi agravado, e generalizado, pelo fato de a África ter sido dividida em países artificiais, forjados pela régua dos burocratas da Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial. Sem levar em conta a cultura local, a ONU subjugou ao tacão de líderes não reconhecidos como tal, povos com hábitos, idiomas e economias diversas.
Outras circunstâncias contribuíram para que a África chegasse ao século XXI como o continente mais pobre, injusto e desigual do planeta. Uma delas foi a introdução de mercadorias estrangeiras, ainda no tempo colonial, que provocou a ruína do sistema de produção local.
Em Angola, o sistema do sobado entrou em decadência com a implantação de plantations. Outros centros comerciais próximos ao Rio Kwanza, como o Dongo, passaram a comercializar borracha, cera, café, amendoim e outros produtos demandados pelos europeus – em detrimento da produção de bens de subsistência essenciais para a população.
O resultado dessa história milenar de exploração e injustiça são as guerras civis e a extrema pobreza em que o continente chafurda até os dias atuais.

A situação na actualidade

Angola conseguiu até aqui o que parece ser essencial, ou seja, conseguiu preservar a independência, manter a integridade territorial, lançar as bases de um Estado Democrático de Direito e conquistar a paz, garantindo a unidade e a consciência do seu povo em torno de um projecto nacional, apesar de todas as agressões e de todas as acções de desestabilização que sofreu durante quase 30 anos de guerra.
Para tal o país teve de resistir logo em 1975 a invasão simultânea de dois exércitos, o zairense a Norte e o sul-africano a Sul, à ocupação de parte do seu território pelo exército de Pretória no início dos anos 80 e a desestabilização de longa duração conduzida por um partido armado, a UNITA de Jonas Savimbi, directamente apoiado pelo regime racista da Africa do Sul e, até pelo menos o inicio dos anos 90, por sucessivas administrações norte-americanas.
Enquanto isso as autoridades angolanas foram prestando um apoio constante aos combatentes da Namíbia que lutavam pela sua própria independência, conseguida apenas em 1988, e aos militantes sul-africanos que combatiam o apartheid e pugnavam pela integração racial e a democratização do regime.
Posteriormente impediram, com a intervenção do seu exército, o colapso da República Democrática do Congo, vítima de agressões armadas de dois países vizinhos, e contiveram um maior alastramento do chamado Conflito dos Grandes Lagos, continuando hoje a desempenhar um decisivo papel estabilizador em toda a região central e austral de Africa.


CONCLUSÃO

Depois da pesquisa feita cheguei a conclusão que a escravatura foi determinante na conformação das sociedades africanas. Na África, a exploração da mão de obra escrava, primeiro pelos árabes e depois pelos europeus, provocou uma desestruturação de enormes proporções.
Nesse movimento, muitos dos povos africanos perderam sua cultura, sua liberdade, suas riquezas. A história mostra que há pontos de inflexão, em que as transformações se mostram inevitáveis, e ocorrem em processos pacíficos ou por revoluções.
Nos últimos momento, com o advento da paz, com a estabilidade e reconstrução nacional, Angola entrou finalmente numa fase que o seu presidente já teve oportunidade de caracterizar como a da "conquista da paz, consolidação da economia nacional e devolução da dignidade e da esperança a todos os angolanos".


BIBLIOGRAFIA

·        O tráfico de escravo em áfrica. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Escravid%C3%A3o_em_%C3%81frica. Acessado aos 7 de Maio de 2015.
·        História Geral da África - Volume V: África do século XVI ao XVIII.
·        A manila e o libambo. A África e a escravidão de 1500 a 1700, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: Fundação Biblioteca Nacional, 2002, *Cap. 9, O Benin e o delta do Níger, pp 309–357; *Cap. 11, Angola, pp 407–450; *Cap. 18, Na Zambézia, pp 657–701.



ÍNDICE


O trafico de escravo resumo


O trafico de escravo

O tráfico de escravos era uma das formas de comércio, altamente lucrativa, já exercida pelos mercadores fenícios. Nas sociedades mediterrâneas grega e romana, os escravos constituíam um importante “artigo” comercial. Os indivíduos eram capturados em incursões noutros territórios, nas guerras ou vendidos pela aristocracia tribal. Os seres humanos, incluindo crianças, eram negociados nos mercados como animais ou qualquer outra mercadoria. Em alguns centros de comércio havia mercados especiais de escravos.
Alguns senhores feudais costumavam pagar parte dos seus impostos anuais através da oferta de escravos e tinham igualmente o hábito de os utilizar como ofertas ao soberano ou aos governadores provinciais. Contudo, o escravo nem sempre era uma “coisa” como estava instituído na lei romana, mas sim uma pessoa com direitos e deveres definidos no estatuto do escravo.
Na China, já no I milénio a.C., os escravos tornaram-se um importante objecto de trocas comerciais. Por vezes, o valor dum escravo era inferior ao dum cavalo ou duma junta de bois; cinco escravos custavam tanto como um cavalo; o valor dum escravo equivalia a 20 novelos de seda. No milénio seguinte, eram organizadas expedições aos países dos mares do sul para a captura de escravos, pois o tráfico de escravos ocupava já um importante lugar no comércio externo. Havia um constante mercado de escravos em quase todas as cidades, onde eram negociados como qualquer mercadoria corrente. Eram colocados em cercados juntamente com o gado e aí contados como se tratasse de gado de trabalho. Grupos de escravos acorrentados eram enviados pelos traficantes para centenas de quilómetros de distância.
No I milénio d.C., árabes e beberes entregaram-se a um tráfico de escravos na costa Oriental de África e através do Sara, que perdurou até ao século XIX. Os comerciantes muçulmanos dispunham de grandes mercados de escravos além-fronteiras: na Europa Central e de Leste, na Ásia Central, nas estepes situadas na orla das florestas africanas. Durante os períodos de conquistas, as guerras permitiam a captura de muitos prisioneiros o que facilitava o negócio do tráfico de escravos e o tornava muito lucrativo. O tráfico de escravos prosperou devido à expansão do Islão e do crescimento das relações comerciais. Na Arábia, século XVI, o tráfico de escravos era um negócio importante e florescente. Os escravos eram importados de África e destinados ao trabalho manual pesado como a extracção de pedra e a construção civil, serviços domésticos, etc. Os tributos, que serviam para alimentar as finanças reais, eram pagos com frequência pelo tráfico de escravos. Muitas tribos nómadas desempenharam um papel importante no comércio de escravos a longa distância.
Entre as mercadorias negociadas no norte de África por genoveses, venezianos, espanhóis e portugueses contavam-se os escravos. Para os mercadores dos países marítimos da Europa Ocidental o tráfico de escravos tornou-se a mais lucrativa das empresas, que movia muitos interessados, tornando-se difícil o monopólio. A sua captura era em geral tarefa para os chefes africanos. Os proprietários de navios ou os seus fretadores compravam os negros no melhor mercado e transportavam-nos para a América em condições tais que muitos morriam na viagem. Os navios estavam munidos com um equipamento especial para armazenar a carga humana.
As feitorias, espalhadas pela África Ocidental, serviam de pontos de contacto que permitiam uma rotação mais rápida das frotas, pois os carregamentos de negros já aguardavam aí e chegada dos navios. O comércio de escravos concentrou-se nos grandes portos, particularmente nos que eram considerados livres.
A escravatura praticava-se em África muito antes de 1500. O tráfico de escravos era praticado paralelamente com uma contínua escravatura interna. Entre os africanos havia escravos de “família “ ou de “guerra”, variando de região para região o modo como eram explorados. Após esse ano, o tráfico de escravos é agravado por uma nova dimensão intercontinental: o transporte para as Américas com a sua impressionante história e consequências ainda não completamente avaliadas. O tráfico era quase sempre organizado através de “contratos” entre parceiros comerciais europeus e africanos. O recrutamento era confiado a “contratadores”, que adquiriam este direito mediante o pagamento de licenças. Os europeus não se envolviam directamente na caça aos escravos e preferiam comprá-los aos africanos que se encarregavam de os capturar. Os mercadores europeus permaneciam junto à costa onde os seus parceiros comerciais acorriam para entregar de escravos capturados em guerras ou em ataques organizados, em troca dos mais variados objectos, em geral de pouco valor. O grande desenvolvimento do tráfico de escravos negros, na segunda metade do século XVI, foi impelido pela necessidade mão-de-obra para as plantações tropicais americanas principalmente de cana-de-açúcar e de algodão.
No continente africano, a escravatura desencadeou uma gigantesca movimentação de populações. É de salientar as perniciosas consequências sociais e económicas deste tráfico que privou as populações dos seus membros mais vigorosos e dinâmicos, paralisou o desenvolvimento da actividade produtiva. A procura dum refúgio seguro e a instabilidade verificada entre as populações causou diversos movimentos migratórios a uma escala variável com o tempo e o lugar. Foi, além disso, a maior migração forçada intercontinental de sempre. Tornaram-se destrutivos os efeitos dum círculo vicioso de trocas comerciais, armas de fogo por escravos, e escravos por armas de fogo que seriam usadas na captura de mais escravos e, assim por diante, indefinidamente. Muitos povos ocupam os seus actuais territórios em consequência das deslocações provocadas pelo tráfico de escravos. Desapareceram dos povoados os indivíduos mais jovens, mais vigorosos e sãos. Tratando-se de populações essencialmente agrícolas, a produção e a acumulação de bens alimentares mergulharam num caos generalizado, que destruiu o processo produtivo. O tráfico de escravos instalou a guerra entre as tribos e a violência no interior das próprias tribos. Os chefes do litoral passaram a ver os seus súbditos como uma mercadoria e a guerrearem-se uns aos outros para venderem os seus compatriotas. Os povos africanos eram impotentes perante as armas de fogo dos negreiros europeus. As revoltas eram frequentes, mas selvaticamente reprimidas. É difícil de estimar a amplidão deste tráfico que se manteve durante séculos a uma cadência acelerada.
Portugal conheceu o regime de escravidão através das relações de comércio com mercadores árabes e a transformação dos mouros vencidos na guerra em cativos ou servos. Era comum a troca de prisioneiros mouros por escravos de pele escura, em proporção favorável em quantidade aos portugueses. O apoio da Igreja garantia a exploração tranquila de mão-de-obra escrava em projectos de produção agrícola para exportação, como meio de compensar as despesas com as navegações. Por volta do ano de 1460, começa a era do tráfico de escravos organizado através de acordos directos com os régulos da África Negra, a nível de Estado para Estado. O tráfico de escravos africanos adquiria um carácter de aquisição de força de trabalho em massa para fins de produção e de comercialização através dum novo entreposto africano de compra de escravos e ouro, a Fortaleza de S. Jorge da Mina. O tráfico de escravos africanos, já em moldes comerciais, tornou-se uma fonte de lucros. Com os descobrimentos marítimos, em breve os portugueses se aperceberam de que havia muito a ganhar se, juntamente com outras mercadorias, levassem também escravos, tanto mais que a tentativa de atingir as regiões auríferas não correspondeu às suas expectativas. O comércio de escravos tornou-se rapidamente a principal fonte de lucro. Os pontos de tráfico estendiam-se a toda a costa africana e fazia-se mesmo duma região para outra.
Em Portugal, e depois no Brasil, um tipo especial de exploração de trabalho escravo consistiu no aluguer dos serviços dos escravos a terceiros. Esta sublocação revela a existência dum factor económico pouco estudado, mas que pode explicar a extensão do uso do trabalho escravo mesmo por parte de pessoas de reduzidas posses. Outro tipo de exploração caracterizava-se pelo exercício do comércio ambulante ao serviço dos seus proprietários. A instituição de “negros de ganho” criou a possibilidade de investir economias na compra dum ou mais escravos com o objectivo de explorar comercialmente o seu trabalho e generalizou o emprego de negros cativos em funções destinadas a completar a renda financeira. A queda do preço dos escravos africanos deixava à gente de posses médias a opção de se fazer servir por escravos e às grandes famílias a possibilidade de se darem ao luxo de contratarem trabalhadores livres para uso doméstico.